Sem sobrenome tradicional da política, criada em Coelho Neto, no subúrbio do Rio, e com uma trajetória familiar ligada a profissões populares, Júlia Castro (PL) chegará a Brasília aos 24 anos depois de superar a marca de 100 mil votos na eleição. A jovem transformou a própria origem e a identificação com o conservadorismo em elementos centrais de uma campanha marcada pela defesa de bandeiras da direita.
Cristã, casada e mãe, Júlia estudou na rede pública e se formou em História em universidade federal. Vice-presidente nacional do PL Jovem, ganhou projeção no campo bolsonarista e utilizou as redes sociais para defender posições sobre temas que costumam provocar forte polarização, como legalização do aborto, das drogas, feminismo e questões de gênero.
Durante a campanha, também publicou registros ao lado de nomes de destaque da nova geração da direita, como Nikolas Ferreira e Eduarda Campopiano, que figuraram entre os mais votados no país, além de membros da família Bolsonaro, como Flávio e Michelle.
Origem distante das famílias tradicionais da política
A história familiar foi explorada pela própria Júlia como contraponto à imagem de candidatos que chegam à política impulsionados por parentes já estabelecidos em cargos eletivos. Ela afirma ter sido criada principalmente pela mãe e pelos avós, em uma família sem políticos.
“Eu tenho 24 anos, sou criada no subúrbio do Rio de Janeiro, não venho de família de políticos, fui criada pelo meu avô, que foi a vida toda motorista de ônibus, pela minha mãe, que é professora de educação infantil”, relatou.
Segundo Júlia, a convivência com uma família de trabalhadores influenciou diretamente sua visão política. A candidata conta que o avô trabalhou como motorista em diferentes linhas de ônibus do Rio e que o pai também exerceu a profissão.
“Eu cresci vendo essas pessoas extremamente trabalhadoras, e principalmente meus avós, que vieram de uma origem extremamente humilde”, afirmou. Para ela, a principal referência recebida em casa foi a valorização do trabalho e uma visão crítica à dependência do Estado.
Conservadorismo começou ainda na escola
Júlia também associa sua formação política às experiências vividas no ambiente escolar. Ela relata que, ainda adolescente, costumava divergir de professores e colegas em debates sobre temas como aborto e legalização das drogas.
“Meu professor já ia falar assim: ‘debate sobre o aborto’. Eu falava: ‘sou contra’”, contou. A mesma posição, segundo ela, aparecia nas discussões sobre drogas: “Debate sobre legalização das drogas. Sou contra”.
A eleição presidencial de 2018 teria sido um ponto de inflexão. Aos 15 anos, Júlia já defendia Jair Bolsonaro em um ambiente no qual, segundo seu relato, predominava o apoio a Fernando Haddad. Ela afirma que o episódio consolidou sua percepção de que havia uma disputa ideológica dentro das instituições de ensino.
Mais tarde, durante a graduação em História, passou a se apresentar publicamente como conservadora e apoiadora de Bolsonaro. Essa militância abriu espaço dentro do PL e terminou por levá-la à vice-presidência nacional da juventude partidária.
Pautas de costumes dividem espaço com economia e segurança
Embora as questões comportamentais tenham ocupado espaço relevante na construção de sua imagem pública, a plataforma eleitoral apresentada por Júlia foi além da agenda de costumes. A campanha foi organizada em seis eixos, incluindo liberdade, defesa da vida e da família, segurança pública, combate à corrupção, liberdade econômica e saneamento básico.
Na segurança, defendeu maior rigor penal, redução da maioridade penal nos casos admitidos pela legislação, fim das audiências de custódia e das saídas temporárias. Na economia, apresentou propostas de redução de impostos, burocracia e presença estatal, além de maior liberdade nas relações entre trabalhadores e empregadores.
Na agenda de costumes, Júlia defende a vida desde a concepção, combate ao que classifica como “ideologia de gênero” e maior autonomia das famílias sobre a educação dos filhos. Também coloca entre suas prioridades o enfrentamento ao que chama de doutrinação ideológica em escolas e universidades.
A eleição com mais de 100 mil votos leva agora para Brasília uma representante de uma geração que cresceu politicamente durante a ascensão do bolsonarismo. No caso de Júlia Castro, o resultado combina uma origem distante das tradicionais famílias políticas fluminenses com uma candidatura assumidamente vinculada à direita conservadora.







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