A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas acendeu um alerta dentro da equipe econômica do governo brasileiro. O principal receio é que a medida abra caminho para sanções que possam atingir bancos, fintechs, fundos de investimento e até mesmo a infraestrutura do Pix.
As preocupações foram detalhadas pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista concedida ao jornal O Globo nesta sexta-feira (29). Segundo o ministro, a classificação anunciada pelo governo de Donald Trump pode gerar consequências que vão além do combate ao crime organizado e atingir setores estratégicos da economia brasileira.
Alerta para o Pix
Durigan afirmou que existe apreensão entre instituições financeiras diante da possibilidade de órgãos americanos ampliarem o alcance da medida e passarem a questionar operações financeiras realizadas no Brasil.
Segundo ele, o temor é que bancos, contas bancárias ou mesmo sistemas de pagamentos possam ser alvo de ações baseadas na classificação das facções como grupos terroristas.
“Há um receio das instituições financeiras de sofrerem com uma discricionariedade de instrumentos de ataque (por parte dos Estados Unidos). Então, se começar a dizer que determinada instituição financeira, que determinada conta, que determinada infraestrutura como o Pix, pode ser utilizada por facções criminosas, denominadas grupos terroristas pela designação norte-americana, e começar a fazer ataque e as instituições serem alvos disso”, afirmou.
O ministro citou especificamente o Pix como uma das infraestruturas que poderiam ser atingidas por eventuais interpretações mais amplas das autoridades americanas.
Governo promete proteção
Diante do cenário, Durigan afirmou que o governo está disposto a atuar para proteger empresas e instituições nacionais caso ocorram impactos financeiros considerados injustificados.
O ministro comparou a situação à estratégia adotada durante o chamado “tarifaço” promovido pelo governo Trump no ano passado, quando o Brasil intensificou o diálogo diplomático para minimizar prejuízos econômicos.
Segundo ele, o governo buscará inicialmente o caminho da negociação e da cooperação internacional antes de avaliar outras medidas de proteção econômica.
Risco para investimentos
Outra preocupação manifestada pelo chefe da Fazenda envolve os possíveis reflexos sobre a imagem do Brasil perante investidores internacionais.
De acordo com Durigan, a associação do país a riscos financeiros decorrentes da atuação de facções criminosas pode aumentar artificialmente a percepção de insegurança econômica, elevando custos de financiamento e prejudicando setores produtivos.
O ministro destacou que um eventual aumento do custo de capital poderia afetar diretamente áreas importantes da economia, como o agronegócio e a indústria.
Experiências internacionais preocupam
Durante a entrevista, Durigan lembrou casos registrados no México e na Colômbia, onde instituições financeiras enfrentaram intervenções das autoridades americanas sob a alegação de vínculos indiretos com organizações criminosas.
Segundo ele, esses precedentes servem como alerta para o Brasil e reforçam a necessidade de proteger a soberania nacional e a infraestrutura financeira do país.
Lula pode conversar com Trump
O ministro também afirmou acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá buscar contato direto com Donald Trump para discutir os desdobramentos da medida.
Além de uma possível conversa entre os chefes de Estado, o governo brasileiro pretende ampliar as negociações diplomáticas em nível ministerial para tentar evitar consequências econômicas negativas.
Durigan ressaltou que o Brasil está disposto a ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado, mas criticou medidas unilaterais que possam afetar empresas e instituições brasileiras.
Críticas a Flávio Bolsonaro
Na entrevista, o ministro também criticou, sem citar diretamente o nome, a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se reuniu recentemente com Donald Trump antes do anúncio da medida.
Segundo Durigan, o governo considera que iniciativas que possam resultar em prejuízos à economia brasileira devem ser combatidas por meio da defesa da soberania nacional e da proteção dos interesses do país.
O Palácio do Planalto já havia manifestado publicamente sua oposição à classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.
De acordo com integrantes do governo, havia expectativa de aprofundamento da cooperação bilateral entre Brasil e Estados Unidos após encontro recente entre Lula e Trump, motivo pelo qual a decisão anunciada pelo Departamento de Estado foi recebida com surpresa dentro da administração federal.





Deixe um comentário