Em 17 de junho de 1986, no Estádio Universitário de Monterrey, no México, a seleção do Marrocos fez algo que nenhuma equipe africana havia conseguido antes: classificou-se para as oitavas de final de uma Copa do Mundo. Liderada pelo técnico brasileiro José Faria, a equipe dos Leões do Atlas terminou a fase de grupos na primeira colocação, à frente de Inglaterra, Polônia e Portugal, escrevendo ali um dos capítulos mais improváveis e mais bacanas do futebol mundial. O feito duraria quatro décadas como símbolo do pioneirismo marroquino, até que os próprios marroquinos o superassem no Catar, em 2022, ao chegarem a uma semifinal de Copa do Mundo e transformarem o país em protagonista continental de um esporte que o mundo todo reivindica como seu.
A história do Marrocos nas Copas é uma história de paciência e ambição em doses iguais. Um país que perdeu cinco candidaturas para sediar o Mundial antes de finalmente conquistar o direito de receber a edição de 2030, ao lado de Espanha e Portugal, e que construiu uma seleção multicultural, recrutando filhos da diáspora espalhada por Paris, Bruxelas, Amsterdã e Madri para defender uma bandeira que os jogadores sentiram que era mais deles do que qualquer outra. Não é um enredo de manual, mas funciona. Nesta Copa, 19 dos 26 convocados nasceram fora do Marrocos.
Há um fio condutor em toda essa epopeia que vai além da tática ou da genética: o Marrocos é um país que decidiu levar o futebol a sério como política de Estado, com o rei Mohammed VI construindo academias de formação, financiando reformas de estádios e aparecendo nas ruas de Rabat com a camisa da seleção, porque esse tipo de coisa, no Marrocos, não é ridícula nem cafona. É apenas o que um rei faz quando o seu povo sonha com uma Copa do Mundo. Imagine um Dom Pedro I numa dessas!

Por que o apelido da Seleção do Marrocos é Leões do Atlas?
É uma referência à Cordilheira do Atlas, a cadeia de montanhas que atravessa o norte da África e que ocupa grande parte do território marroquino, estendendo-se também pela Argélia e pela Tunísia. A escolha é carregada de simbolismo: o leão-berbere, subespécie extinta que habitava o norte da África e que ganhou o nome alternativo de leão-do-Atlas, era considerado um dos maiores e mais imponentes felinos do planeta, e tornou-se emblema da realeza e da força no imaginário cultural da região.
Registros biológicos indicam que o animal foi extinto na natureza durante o século XX devido à caça predatória, restando poucos espécimes vivos apenas em cativeiro e sob a proteção de projetos de conservação, como no Jardim Zoológico de Rabat, onde alguns exemplares são mantidos como patrimônio genético do país.
A alcunha começou a se popularizar na década de 1960, justamente quando a seleção marroquina começou a ganhar destaque. Hoje, as seleções feminina e masculina adotaram o mesmo apelido, consolidando a identidade dos “leões e leoas de Atlas” como uma marca nacional. Tanto que a própria FIFA usa a expressão “Atlas Lions” para se referir à seleção em seus materiais históricos sobre Copas.

Marrocos participou de quantas Copas do Mundo?
Contando 2026 são sete participações (1970, 1986, 1994, 1998, 2018, 2022 e 2026). O Marrocos consolidou-se como uma das forças mais assíduas do continente africano no maior palco do futebol mundial, acumulando participações que atravessam diferentes épocas do esporte. Essa regularidade coloca o país na primeira prateleira das federações africanas com maior bagagem em Mundiais.
Conforme detalhado nos relatórios da FIFA, cada um desses ciclos representou uma etapa de maturação técnica para o país, alternando eliminações dolorosas na fase de grupos com campanhas gloriosas que chegaram a ameaçar a hegemonia da Europa e da América do Sul.

México 1986: um brasileiro inicia uma revolução
Para muitos analistas, aqui começou a grande virada esportiva do futebol marroquino. Sorteado no Grupo F ao lado de gigantes como Inglaterra, Polônia e Portugal, o Marrocos era apontado por analistas da época como a vítima perfeita da chave. O que poucos sabiam é que 40 dias antes do torneio, o time se escondeu na cidade de Monterrey, estudando adversários e se adaptando às condições climáticas mexicanas.
O comandante daquela façanha foi o brasileiro José Faria, um profissional cuja trajetória confunde-se com a própria evolução do futebol no mundo árabe. No Brasil, Faria teve uma carreira discreta como jogador do Bangu e Bonsucesso e iniciou sua trajetória como técnico trabalhando nas categorias de base do Fluminense.
No exterior, o impacto de José Faria foi profundo e duradouro. Antes de assumir a seleção principal do Marrocos em 1983, ele comandou equipes no Catar, como o Al-Sadd, onde conquistou títulos importantes e refinou sua metodologia de trabalho baseada na forte disciplina defensiva combinada com a ginga do futebol brasileiro. Faria tornou-se uma figura tão respeitada e integrada à cultura local que se converteu ao Islã, adotando o nome de Mehdi Faria, e viveu em solo marroquino até o fim de sua vida, sendo lembrado como um herói nacional da bola. “Se sou o rei na política, Mehdi é o rei do futebol”, saudou-o o rei do Marrocos, Mohamed VI.

O primeiro africano no mata-mata
Para estupor daqueles analistas que viam Marrocos como uma baba, os Leões do Atlas se classificaram em primeiro daquele grupo. Nas oitavas de final, o adversário era a poderosa Alemanha Ocidental, vice-campeã mundial em 1982 e cheia de estrelas. O Marrocos resistiu bravamente e segurou o 0 a 0 até os minutos finais, quando a zebra parecia ter atravessado o Atlântico a nado para dar um pontapé na tradição futebolística germânica.
Aos 88 minutos, porém, veio o golpe fatal. Lothar Matthäus marcou de falta e eliminou os africanos por 1 a 0. Foi uma derrota cruel, mas também uma espécie de vitória moral. O Marrocos tinha provado que podia enfrentar os gigantes de igual para igual. Muitos torcedores lembram aquele jogo como uma das eliminações mais “deliciosas” das Copas porque foi um contraste cinematográfico. Uma seleção “pequena” encurralando uma das maiores potências do esporte e deixando o mundo esperando pelo milagre até o último instante. O favorito venceu, mas saiu menor do que entrou.
A seleção da diáspora
Uma das marcas do futebol marroquino moderno é transformar sua diáspora em vantagem. O Marrocos é o país que mais explora a diáspora (quando uma comunidade vive espalhada pelo mundo, mas continua ligada às suas raízes) no futebol.
Muitos jogadores são filhos de marroquinos e nasceram ou cresceram na Europa, especialmente em países como França, Bélgica, Holanda e Espanha. O caso mais famoso é Achraf Hakimi, nascido em Madrid e formado pelo Real Madrid. Outros exemplos incluem Sofiane Boufal, nascido na França, ou Yassine Bounou, que nasceu no Canadá.
Hoje existem quase cinco milhões de marroquinos vivendo fora de seu país. A Federação marroquina foi atrás dos melhores talentos, criando uma seleção multicultural, com jogadores formados em diferentes escolas do futebol mundial.
Não se trata de um prêmio de consolação para quem não alcança as seleções europeias, pelo contrário: tem sido a escolha de protagonistas de seleções de base europeias, que preferem defender Marrocos. Para 2026, 19 dos 26 convocados nasceram fora do país, evidenciando o sucesso do modelo adotado. “Jogamos por nossos pais, avós e os avós deles”, afirmou Hakimi em entrevista para a revista Vogue.


Alô, mamãe!
A Copa de 2022 ganhou algumas das cenas mais humanas da história do torneio. As imagens comoventes de Sofiane Boufal dançando com a mãe no gramado e de Achraf Hakimi beijando a cabeça da mãe, Saida Mou, se tornaram alguns dos momentos mais emblemáticos da competição no Qatar. Sofiane, por exemplo, trabalhou como faxineira para ajudar a realizar o sonho do filho.
O gesto, que para muitos ocidentais parecia apenas uma cena fofa, carrega um profundo significado cultural no Islã, onde a figura materna ocupa um lugar central de respeito e veneração. Foram cenas que humanizaram a seleção e mostraram que, por trás dos guerreiros de campo, há famílias inteiras torcendo _ e por que não? Dançando.
O momento não escapou sequer à FIFA, que usou a sua conta em árabe para partilhar algumas imagens: “Uma convidada importante não podia ficar nas bancadas. Então, entrou no estádio para celebrar. A mãe de Sofiane Boufal é estrela das comemorações de Marrocos hoje”, descreveu em suas contas nas redes sociais.


Uma catarse mundial
O povo marroquino não se esquecerá tão cedo de Qatar 2022, quando a equipe brilhou em campo e se tornou a primeira seleção africana a alcançar as semifinais de um Mundial. Pelo lado bom e o ruim da história. Antes mesmo de cair para a seleção francesa, o feito já estava sendo comemorado em Rabat e Casablanca. Na Tunísia, nação africana e árabe como o Marrocos, centenas de torcedores se reuniram em frente ao teatro municipal da capital Túnis para comemorar agitando bandeiras tunisianas, marroquinas e palestinas.
“História continental!”, escreveu a Confederação Africana de Futebol no Xwitter após a vitória do Marrocos. “Histórico e fantástico”, disse Macky Sall, presidente do Senegal e da União Africana. Na Tunísia, na Argélia e no Egito, torcedores lotaram praças públicas para acompanhar os jogos, entoando cantos de vitória em árabe.
Um exemplo da conexão entre os torcedores árabes pelo futebol é a quantidade de bandeiras palestinas vista nas ruas e nos estádios durante a Copa. Até jogadores da seleção marroquina levantaram a bandeira. A animação pôde ser vista em vídeos nas ruas de Nablus, importante cidade da Cisjordânia, com um grupo de palestinos gritando “Marrocos!” em frente a soldados israelenses posicionados do outro lado da rua.

O lado oculto de tanta euforia
A vitória de Marrocos nas quartas de final, foi celebrada por cerca de 20 mil pessoas nos Champs-Élysées, em Paris, onde ocorreram vários incidentes e quebra-quebras. A polícia mobilizou mais de dois mil homens para pôr ordem na bagunça. A escala da presença marroquina nas ruas revelou uma diáspora muito maior, e muito mais ligada ao país de origem, do que qualquer prognóstico demográfico havia antes antecipado.
Na Bélgica, as ruas de Bruxelas viraram palco de tumultos, vandalismo e quebradeira. Imagens compartilhadas nas redes sociais mostram carros e patinetes elétricos sendo vandalizados, vidraças sendo quebradas e caçambas de lixo incendiadas. Nos Países Baixos, nos Países Baixos, a polícia precisou usar um caminhão dotado de um canhão de água para dispersar multidões em êxtase pelas ruas de Amsterdã.
Os distúrbios foram amplamente debatidos por partidos políticos europeus, reacendendo debates inflamados sobre imigração, identidade nacional e o papel do futebol como catalisador de identidades na Europa e um espelho das fraturas sociais e políticas que dividem o Velho Continente e as populações marginalizadas de suas antigas colônias.

Copa do Mundo 2030: o torneio das incógnitas
O Marrocos é o país que mais vezes tentou sediar uma Copa do Mundo sem nunca ter conseguido. Foram cinco candidaturas derrotadas, para as edições de 1994, 1998, 2006, 2010 e 2026. A persistência, no entanto, foi recompensada. Em 2030, o Marrocos será finalmente sede, ao lado de Espanha e Portugal, na mais superlativa, para não dizer logisticamente confusa, das edições do torneio.
Vamos desenhar o tamanho da encrenca logística que breve vai cair no colo dos chefes das delegações. A Copa será em três países: Marrocos, Espanha e Portugal. Mas terá ainda três jogos adicionais na América do Sul, em comemoração ao centenário do torneio, no Uruguai, Argentina e Paraguai. E a escolha deste último, cá entre nós, não faz nenhum sentido. Os seis países anfitriões se classificarão automaticamente. Ainda não há definição se haverá novo aumento no número de seleções participantes.
Mas fica pior. As cidades-sede em Marrocos serão seis: Casablanca, Agadir, Marrakesh, Rabat, Tânger e Fez. Em Portugal serão Lisboa e Porto. Na Espanha serão nove, isso mesmo, nove cidades: San Sebastián, Barcelona, Las Palmas, Sevilha, Málaga, Madri, Saragoça, Corunha e Bilbao. Os três jogos na América do Sul serão em Montevidéu (Uruguai), Buenos Aires (Argentina) e Assunção (Paraguai).
Em uma perspectiva pessoal, se você pretende acompanhar a mini-eurotrip da Copa de 2030 ao vivo, já pode ir tirando o escorpião do bolso. Já numa visão mais política e econômica, a FIFA mais uma vez, nunca nos decepciona.

Como assim?
A escala será gigantesca. No total, estima-se que o custo conjunto da Copa de 2030 para os três países fique entre US$ 15 e 20 bilhões. Mas até lá a gente já viu esse filme, né? Esse montante inclui não apenas estádios, mas também infraestrutura de transporte, mobilidade, turismo e tecnologia. Portugal e Espanha já avisaram que vão apenas reformar os estádios. Os espanhóis têm dois trunfos na manga para brigar pelos principais jogos. O Camp Nou, estádio do Barcelona, passa por uma reforma bilionária com novo telhado e ampliação, enquanto o Santiago Bernabéu, do Real Madrid, já foi modernizado recentemente.
Mas o que é uma Copa do Mundo sem novos estádios que vão virar elefantes brancos? No Marrocos, o principal candidato será o Grand Stade Hassan II, uma arena que pretende ser a maior do mundo, com 115 mil lugares em Benslimane, perto de Casablanca, que está orçado pela bagatela de 500 milhões de dólares.

Na Argentina, o Estádio Monumental de Núñez, do River Plate, passará por uma ampliação e receberá um teto, com capacidade ampliada para mais de 100 mil lugares. As obras custarão mais de US$ 100 milhões. No Paraguai, o Estádio Manuel Ferreira, atual casa do Club Olímpia em Assunção será demolido. Em seu lugar, será construída uma arena batizada de Estádio Osvaldo Domínguez Dibb em homenagem ao pai do presidente da Conmebol (pois é) e orçada em 60 milhões de dólares. Já no Uruguai, o Estádio Centenário, palco da final da primeira Copa do Mundo em 1930, passou por reforma em 2021 e deverá receber ajustes para sediar a partida de abertura de 2030.







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