O bloqueio de contas do Ueno Bank transformou uma crise financeira em um impasse político no Paraguai, informa a Reuters. Após a intervenção do Banco Central na instituição, na terça-feira (3), correntistas ficaram sem acesso ao dinheiro, protestos ganharam as ruas e o presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia. O pedido, porém, foi rejeitado pelo Congresso, e o Senado retomou nesta sexta-feira (6) o processo de impeachment.
Entre os clientes atingidos está o exportador de grãos brasileiro Pedro Bergallo, que vive em Assunção há sete anos. Em entrevista ao portal g1, ele descreveu a reação dos correntistas ao encontrar as agências fechadas, sem conseguir movimentar os recursos.
“As pessoas se desesperaram. Foi um tumulto muito grande. As pessoas se dirigiram até a frente das agências e, quando chegaram, se depararam com uma carta colada nos vidros das agências com uma carta do Banco Central explicando o porquê do fechamento”, afirmou.
Bloqueio atingiu quem não tinha alternativa financeira
Bergallo relatou que conseguiu recuperar seu dinheiro após aproximadamente dois dias. Para clientes que concentravam todos os recursos no Ueno, entretanto, a interrupção dos serviços comprometeu o acesso às economias e aos valores necessários para as despesas cotidianas.
“Gerou uma calamidade pública. As pessoas passaram a entrar em desespero, principalmente quem não tinha plano B ou C em outras instituições financeiras. Teve muita gente de baixa renda que depositou sua confiança e seu dinheiro nesse banco”, destacou.
A crise também alcançou estrangeiros residentes em Assunção e nas regiões de fronteira. O banco havia atraído clientes que antes utilizavam principalmente dinheiro em espécie, ampliando sua presença no cotidiano financeiro da população.
Crédito e descontos impulsionaram crescimento
Segundo o brasileiro, a expansão do Ueno foi acompanhada de campanhas para abertura de contas, oferta de crédito e benefícios em estabelecimentos comerciais. As condições ajudaram a popularizar os serviços digitais da instituição.
“Ele lança uma campanha massiva de criação de contas em 2024 e 2025. Começaram a liberar crédito com condições muito vantajosas. Muita gente usufruiu disso, inclusive eu. Tinha políticas de desconto muito efetivas em quase todas as lojas do país, posto de combustíveis, supermercado, shopping, cinema, tinha um desconto quase que inigualável em todos os estabelecimentos comerciais do país”, pontuou.
O crescimento acelerado antecedeu a intervenção. Segundo a Reuters, o Banco Central informou que o Ueno não atendia aos requisitos mínimos de solvência, relacionados à capacidade financeira de sustentar suas operações.
Renúncia não encerrou disputa política
A repercussão do bloqueio levou à saída do chefe do Banco Central e à emissão de ordens de prisão contra oito dirigentes do Ueno, que posteriormente se entregaram às autoridades, conforme a Reuters.
Ao resumir a velocidade dos acontecimentos, Bergallo declarou:
“Qual é o resultado prático da questão do banco Ueno? Oito diretores presos, o presidente da República impeachmado e o presidente do Banco Central fora também. Imagina: em apenas três dias a gente tem essa quantidade de acontecimentos”, concluiu.
Apesar da expressão usada pelo entrevistado, o impeachment ainda estava em análise no Senado nesta sexta-feira. Peña apresentou a renúncia na quinta-feira (5), mas os parlamentares rejeitaram o pedido e mantiveram o processo de afastamento.







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