A Polícia Federal investiga a atuação do publicitário Thiago Miranda, apontado como um dos principais aliados do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, em uma estrutura destinada a monitorar, intimidar e constranger jornalistas, empresários e outras pessoas consideradas obstáculos aos interesses do banqueiro. A investigação integra a Operação Compliance Zero e foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que afirmou haver indícios de um esquema com “contornos de máfia”.
Segundo a decisão judicial, Miranda teria desempenhado papel central na produção de levantamentos sobre a vida privada de alvos escolhidos por Vorcaro, utilizando informações pessoais, patrimoniais e financeiras obtidas de forma irregular. Entre os nomes citados pela investigação estão a jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo, e o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho.
Além dos mandados de busca e apreensão, a decisão autorizou a coleta de equipamentos eletrônicos, documentos e dados armazenados em celulares e serviços de nuvem utilizados pelos investigados.
Mensagens mostram pedido de levantamento sobre presidente do Itaú
Entre os elementos reunidos pela Polícia Federal estão mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Thiago Miranda que tratam da elaboração de um dossiê contra Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, e sua esposa, Camila Moretti Maluhy.
Segundo o inquérito, Vorcaro demonstrava preocupação com a atuação do executivo durante o período em que o Banco Master enfrentava questionamentos do mercado e dos órgãos reguladores.
Em uma das conversas analisadas, o ex-banqueiro escreveu:
“Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy. Está me causando muito problema.”
Thiago Miranda respondeu imediatamente:
“Deixa comigo.”
Dias depois, o publicitário voltou a tratar do assunto em nova mensagem.
“Passando o carnaval falamos. Estou com tudo pronto do Milton. Mas quero fazer da mesma forma. Soltar por outro veículo.”
Durante o cumprimento dos mandados de busca, os investigadores localizaram um arquivo denominado “Família Maluhy Relatório sobre Execução Fiscal — Caso Milton Maluhy Filho e Camila Moretti Maluhy”.
Segundo a Polícia Federal, o documento apresentava a identidade visual da Agência Mithi, empresa pertencente a Thiago Miranda, e estava identificado como contendo “informações confidenciais”.
A decisão do STF não informa quando ocorreram os diálogos analisados. Entretanto, conforme divulgado pelo blog da jornalista Malu Gaspar, as conversas são de fevereiro de 2025, período anterior ao anúncio da compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Naquele momento, o Itaú defendia uma fiscalização mais rigorosa do Banco Central sobre a instituição financeira comandada por Vorcaro.
Procurado, o Itaú informou que não comentaria o caso.
Investigação aponta monitoramento de jornalista
Outro foco da investigação envolve a jornalista Malu Gaspar, responsável por reportagens sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro.
Segundo a decisão assinada por André Mendonça, Thiago Miranda seria “o principal responsável por realizar pesquisas e levantamentos acerca da vida privada” da jornalista.
Ainda conforme o documento, o publicitário mantinha Vorcaro atualizado sobre o andamento das buscas, pesquisava processos antigos e coordenava uma equipe encarregada de localizar informações consideradas sensíveis ou potencialmente comprometedoras.
O ministro também registrou que os investigados tiveram acesso a informações relacionadas aos familiares e ao patrimônio da jornalista.
As mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Daniel Vorcaro acompanhava de perto a cobertura jornalística sobre o Banco Master.
Em uma das conversas, segundo a investigação, ele afirma que precisava “frear a Malu Gaspar”, alegando que a jornalista “iria dar trabalho nos próximos dias” após conceder uma entrevista considerada por ele “bem ruim”.
Os diálogos teriam ocorrido entre março e abril de 2025, período marcado pela crise financeira enfrentada pelo Banco Master.
PF aponta tentativa de intimidar jornalistas e concorrentes
Na representação enviada ao Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal afirma que Thiago Miranda e Daniel Vorcaro atuavam para “proteger o núcleo dirigente da organização criminosa; manipular a opinião pública; coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central”.
Segundo os investigadores, o grupo recorria a plataformas clandestinas de obtenção de dados para acessar informações pessoais e familiares de seus alvos.
A corporação destaca ainda que houve “latente abuso ao buscar informações de cunho familiar para atingir os objetivos de intimidação e coação”, apontando possível enquadramento no artigo 154-A do Código Penal, que trata da invasão de dispositivo informático.
O inquérito também sustenta que recursos provenientes das supostas fraudes financeiras atribuídas ao Banco Master teriam sido utilizados por Thiago Miranda para financiar campanhas de desinformação na imprensa e em redes sociais.
STF vê indícios de organização com “contornos de máfia”
Ao autorizar a nova fase da Operação Compliance Zero, o ministro André Mendonça ressaltou a gravidade das condutas atribuídas aos investigados.
Na decisão, o magistrado afirmou que o esquema apresentava “grau de periculosidade da organização, conferindo-lhe contornos de máfia”.
Com base nos elementos reunidos pela Polícia Federal, o ministro autorizou a apreensão de celulares, computadores, documentos físicos e eletrônicos, além da extração de mensagens armazenadas em aparelhos e serviços de computação em nuvem.
Suposta tentativa de conter reportagens
A investigação também aponta que, durante a crise enfrentada pelo Banco Master, Thiago Miranda teria procurado os jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim com propostas de contratação.
Segundo a Polícia Federal, a iniciativa teria como finalidade interromper a publicação de reportagens relacionadas ao banco e ao seu então controlador.
Em outra decisão judicial, referente à segunda prisão de Daniel Vorcaro, André Mendonça afirmou haver indícios de que o ex-banqueiro determinou a simulação de um assalto ou de situação semelhante para “prejudicar violentamente” o jornalista Lauro Jardim.
As investigações prosseguem para apurar o alcance da suposta estrutura de monitoramento, a origem dos recursos utilizados e a eventual participação de outros envolvidos nas ações descritas pela Polícia Federal.







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