Caridade ou performance? Entenda a discussão sobre influenciadores na África

Há uma semana, influenciadores gravam conteúdos na Angola e Somália; outra ponta da web aponta porque prática reforça lógica colonialista

Há uma semana, a internet acompanha a circulação de vídeos produzidos por influenciadoras que embarcaram no projeto humanitário Zuzu for Africa, para estimular doações na Angola e Somália. Na web, os registros viraram alvos de críticas por outros influenciadores.

Entre as envolvidas, estão as influenciadoras Mari Menezes e Nathalia Valente, cada uma com mais de 10 milhões de seguidores somando as redes sociais Instagram e Tik Tok.

Elas participaram na terça-feira (9), do projeto Zuzu For Africa, uma organização fundada pelas irmãs Bruna e Gabriela, com Centros Comunitários espalhados por países da África. A iniciativa tem programas como plano de saúde, cursos de capacitação e projetos escolares financiados por doações.

Durante a viagem, as influenciadoras publicaram registros mostrando a rotina nos países visitados, a recepção por parte da população local e a divulgação de parcerias comerciais. Além de vídeos em que alimentam crianças em situação de fome.

Desde o início do cronograma de postagens, os conteúdos passaram a ser questionados por outros criadores e usuários das redes. Entre eles, o ex-BBB João Pedrosa se manifestou na plataforma X.

“Desculpa, mas esses vídeos de missão na África com exposição excessiva de criança nunca me descem”, escreveu.

Em um dos registros que viralizou nas redes, a influenciadora Nathalia Valente dá um biscoito recheado para uma criança angolana. O vídeo ultrapassou 15 milhões de visualizações e dividiu opiniões.

“Muito humano isso gente, ela tem um bebê e divide um pouco do amor com outras crianças! Pra mim esse é um exemplo de influencer de verdade”, comentou uma seguidora.

Outros influenciadores se manifestaram contra a exposição, como o criador de conteúdo Rapha Vicente: “E tem quem diga que o que o João Luiz falou ta errado. Olha isso, cara”, publicou.

Jovem moçambicano reage a vídeos

Em críticas mais recentes, o influenciador moçambicano Yúnuss Jalilo, de 19 anos, propôs uma análise a partir do legado colonial e da forma como a ajuda humanitária é consumida no ambiente digital. 

“A fome é real. O sofrimento é concreto. Crianças desnutridas não são alegorias morais. Achille Mbembe lembra que certos corpos são historicamente empurrados para zonas onde a vida é administrada como sobra, o que ele define como necropolítica. A ajuda que chega pode, sim, significar a diferença entre viver e morrer”, diz.

O vídeo ultrapassou 930 mil visualizações. Na legenda, Jalilo lista as referências bibliográficas utilizadas, entre eles, Frantz Fanon, Bell Hooks e Achille Mbembe.

“A câmera troca o chicote pelo like, mas preserva a assimetria. A criança filmada não controla a narrativa, não consente plenamente e não lucra com o capital simbólico gerado”, afirma. Assista:

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading