Brasil avalia convite de Trump para Conselho de Paz e busca resposta coordenada com outros países

Governo Lula consulta líderes internacionais, vê proposta com cautela e teme enfraquecimento do papel da ONU

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está adotando uma postura cautelosa diante do convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Brasil participe de um novo Conselho de Paz. Antes de tomar uma decisão, o Palácio do Planalto e o Itamaraty vêm consultando outros países convidados e avaliam a possibilidade de uma resposta coordenada à iniciativa americana.

Segundo pessoas a par das discussões, ouvidas sob condição de anonimato, a composição do conselho e a reação de outras nações têm peso central na análise brasileira. A preocupação é evitar uma decisão isolada que exponha o país a desgastes diplomáticos ou a eventuais retaliações por parte dos Estados Unidos.

O conselho integra a segunda fase do plano anunciado por Washington para tentar encerrar o conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, mas o escopo do órgão deve ir além, incluindo deliberações sobre outros conflitos internacionais.

Consultas diplomáticas em curso

No sábado (17), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou sobre o tema com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. A iniciativa faz parte de uma estratégia para mapear como outras lideranças enxergam a proposta e quais informações dispõem sobre o funcionamento do futuro colegiado.

Diplomatas relatam que tanto Mauro Vieira quanto Lula devem intensificar os contatos com outros governos nos próximos dias, justamente para avaliar se há espaço para uma posição comum entre países relevantes no cenário internacional.

Risco de retaliações e busca por coordenação

De acordo com um diplomata envolvido nas discussões, o ideal seria construir uma resposta articulada com a comunidade internacional. Um dos motivos é reduzir o risco de exposição individual de países a pressões políticas ou econômicas dos Estados Unidos. Há também a expectativa de que, em bloco, seja possível negociar os termos do conselho, ajustando-o às demandas e preocupações de diferentes regiões.

Esse diplomata cita como exemplo recente a posição da França. Na segunda-feira (19), o governo francês informou que não pretende aceitar o convite para integrar o conselho. No mesmo dia, Trump reagiu publicamente e ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, numa tentativa de pressionar Paris a rever sua decisão.

Integrantes do governo brasileiro, no entanto, minimizam o potencial de deterioração das relações bilaterais caso o Brasil opte por não aderir. A avaliação interna é que Trump tende a separar temas globais de assuntos estritamente bilaterais, o que reduziria impactos diretos sobre a relação Brasil–Estados Unidos.

Desconfiança no entorno de Lula

No entorno do presidente brasileiro, o Conselho de Paz é visto, por ora, com desconfiança. Ainda assim, a decisão final dependerá da conclusão de análises políticas e jurídicas sobre a proposta. O governo pretende usar os próximos dias para avaliar os efeitos da adesão — ou da recusa — na política externa brasileira e no equilíbrio institucional internacional.

O convite formal chegou à mesa de Lula na última sexta-feira (18), por meio de uma carta enviada diretamente pela Presidência dos Estados Unidos.

Além do Brasil, Trump convidou líderes como Javier Milei, Vladimir Putin, além de representantes de países como Uzbequistão, Cazaquistão, Belarus, Alemanha, França, Turquia, Egito e Polônia. Ao todo, cerca de 60 países foram chamados a integrar o grupo, número que corresponde a menos de um terço dos Estados-membros da Organização das Nações Unidas.

Temor de esvaziamento da ONU

Dentro do governo brasileiro, há uma preocupação central de que o Conselho de Paz proposto por Trump se sobreponha ao trabalho do Conselho de Segurança da ONU, o que poderia enfraquecer a principal instância multilateral de resolução de conflitos do mundo.

Segundo diplomatas do Itamaraty, é pouco provável que o Brasil simplesmente recuse o convite sem qualquer manifestação formal. Parte dos interlocutores, contudo, avalia a possibilidade de deixar o convite sem resposta, como forma de evitar atritos diretos com a Casa Branca. Caso haja uma resposta oficial, ela deverá ocorrer em nível presidencial, já que o convite foi feito diretamente de Trump para Lula.

Estrutura e críticas ao conselho

Como revelou a Folha, o estatuto do Conselho de Paz prevê mandatos de três anos para os Estados-membros, com possibilidade de renovação. A organização funcionaria com base em contribuições voluntárias, e países que aportarem ao menos US$ 1 bilhão garantiriam um mandato permanente.

O funcionamento detalhado do grupo ainda não foi esclarecido, o que tem alimentado críticas. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou que o anúncio não foi coordenado com Tel Aviv e que a iniciativa segue uma direção oposta à política adotada por seu governo. Segundo o jornal Times of Israel, Israel confirmou o recebimento do convite, mas o gabinete de Netanyahu ainda não se posicionou oficialmente.

Na sexta-feira (16), Trump anunciou os primeiros nomes que integrariam o conselho, incluindo o senador Marco Rubio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, os enviados americanos para o Oriente Médio Steve Witkoff e Jared Kushner, além do empresário Marc Rowan, do presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, e do assessor presidencial Robert Gabriel.

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