O mercado financeiro elevou de 5,01% para 5,22% a previsão de inflação no Brasil em 2026, mas manteve praticamente inalteradas as expectativas para os próximos anos, apesar da forte valorização da Bolsa e da queda do dólar após o primeiro turno das eleições presidenciais. Os números constam do boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta terça-feira (13), o primeiro levantamento a incorporar as reações dos economistas ao resultado das urnas, que colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa do segundo turno.
A pesquisa mostra que o entusiasmo registrado no mercado financeiro com o desempenho de Flávio Bolsonaro não se traduziu, até agora, em mudanças significativas nas projeções econômicas para 2027, primeiro ano do próximo mandato presidencial.
Os analistas mantiveram a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1,4%, inflação de 4,3% e taxa básica de juros, a Selic, em 12% no próximo ano.
A estabilidade dos indicadores contrasta com a reação dos investidores na semana passada, quando o Ibovespa ultrapassou a marca histórica de 209 mil pontos e o dólar encerrou o pregão abaixo de R$ 5.
Inflação dispara nas projeções após alta da conta de luz
A principal mudança do boletim Focus ocorreu nas estimativas para a inflação de 2026, que passaram de 5,01% para 5,22%.
O aumento acompanha a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, que registrou alta de 0,82%, segundo dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última sexta-feira (9).
Um dos principais responsáveis pela pressão inflacionária foi o encarecimento da energia elétrica residencial.
Com o fim do desconto temporário proporcionado pelo bônus de Itaipu, as contas de luz subiram 7,98% em setembro, contribuindo para a aceleração do índice oficial de preços.
Além da energia, aumentos nos combustíveis, nas passagens aéreas e nos alimentos também pressionaram o orçamento das famílias.
A nova projeção de 5,22% coloca a inflação esperada para este ano acima do limite de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, cujo teto é de 4,5%.
Para 2027, porém, os economistas mantiveram a expectativa de inflação em 4,3%, sinalizando uma possível desaceleração dos preços, embora ainda em patamar próximo ao limite superior da meta.
Banco Central pode acelerar redução dos juros
Outra alteração importante no levantamento foi a expectativa para a taxa Selic ao fim de 2026.
Os analistas reduziram a projeção de 13,5% para 13,25%, diante da possibilidade de novos cortes promovidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
Atualmente, a taxa básica de juros está em 13,75% ao ano.
A nova estimativa considera reduções de 0,25 ponto percentual nas reuniões de novembro e dezembro. No levantamento anterior, os economistas ainda não projetavam um corte na última reunião do ano.
Para 2027, a previsão permaneceu em 12%, indicando que o mercado continua esperando uma redução gradual dos juros.
Nos anos seguintes, as expectativas também apresentaram poucas alterações.
A projeção da Selic foi mantida em 10,5% para 2028 e em 10% para 2029.
Em relação à inflação, os economistas reduziram ligeiramente as estimativas para 2028, de 3,8% para 3,79%, e para 2029, de 3,51% para 3,50%.
Já a expectativa de crescimento econômico em 2028 passou de 1,81% para 1,83%.
Euforia na Bolsa ainda não mudou expectativas econômicas
O boletim Focus foi divulgado após uma semana de forte valorização dos ativos brasileiros, impulsionada pela reação de parte dos investidores ao resultado do primeiro turno presidencial.
Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%, levando a disputa para uma segunda votação em 25 de outubro.
O desempenho do senador foi recebido com otimismo por agentes do mercado financeiro que associam uma eventual mudança de governo à possibilidade de maior contenção das despesas públicas.
Na sexta-feira (9), o Ibovespa superou os 209 mil pontos, alcançando um recorde histórico. No mesmo dia, o dólar fechou abaixo de R$ 5.
A valorização dos ativos refletiu expectativas de investidores sobre o cenário político, mas não significa necessariamente uma melhora imediata dos indicadores econômicos.
O primeiro Focus divulgado após a votação mostra justamente essa diferença: enquanto os mercados reagiram rapidamente ao resultado eleitoral, as projeções para inflação, juros e crescimento em 2027 permaneceram estáveis.
O levantamento anterior havia sido divulgado em 5 de outubro, mas a coleta de informações foi encerrada no dia 1º, antes da realização do primeiro turno.
Promessa de ajuste fiscal de Flávio entra no radar
Uma das principais razões apontadas para o otimismo de parte do mercado é a promessa de Flávio Bolsonaro de promover um amplo corte nas despesas federais.
O candidato do PL defende um “tesouraço” equivalente a aproximadamente 2% do PIB, o que representaria uma economia estimada em R$ 250 bilhões.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o núcleo do plano econômico em discussão considera mudanças nas regras de correção dos benefícios previdenciários e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Uma das possibilidades seria desvincular os reajustes desses pagamentos dos aumentos reais do salário mínimo.
Outra medida em análise envolve a revisão dos pisos constitucionais que determinam gastos mínimos com saúde e educação, atualmente vinculados às receitas federais.
Essas propostas, caso sejam formalizadas e implementadas, poderiam alterar o funcionamento de despesas obrigatórias do Orçamento e exigiriam mudanças na legislação.
Também poderiam provocar impactos sobre aposentados, beneficiários de programas assistenciais e o financiamento de serviços públicos.
Apesar das expectativas de parte dos investidores, ainda existem dúvidas sobre a viabilidade política e fiscal das medidas anunciadas pelo candidato.
A campanha de Lula, por sua vez, defende a continuidade de um ajuste fiscal gradual, com a perspectiva de alcançar resultados primários mais favoráveis nos próximos anos.
O desafio de controlar o endividamento público e criar condições para a redução sustentável dos juros estará presente independentemente do vencedor da eleição.
Por enquanto, os números do Focus indicam que a reação positiva da Bolsa ao primeiro turno não foi acompanhada por uma revisão expressiva das expectativas econômicas para o início do próximo governo.







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