Avanço das queimadas no Amazonas após o 1º turno reforça suspeitas de incêndios criminosos

Levantamento do Inpe revela que 79% dos registros ocorreram em imóveis rurais cadastrados

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O avanço dos incêndios no Amazonas tem uma característica que chama a atenção das autoridades ambientais: quase oito em cada dez focos de calor registrados em outubro estão localizados dentro de propriedades rurais privadas. Levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), realizado a pedido do g1, mostra que 79,1% dos 1.639 focos identificados entre os dias 1º e 15 deste mês ocorreram em imóveis privados com Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Os números reforçam as suspeitas de que boa parte das queimadas tenha origem na ação humana, especialmente no uso irregular do fogo para limpeza de terrenos e manutenção de pastagens. A situação é agravada pela seca, que facilita a propagação das chamas e tem provocado uma crise ambiental em municípios do estado, incluindo Manaus.

A capital amazonense enfrenta episódios de fumaça intensa, enquanto as autoridades tentam identificar os responsáveis pelos incêndios. No entorno da cidade, os focos acumulados neste ano estão 109% acima da média histórica para o período, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Ibama aponta uso irregular do fogo em propriedades

A concentração dos focos em imóveis particulares é considerada um indicativo importante para as investigações. Embora o Cadastro Ambiental Rural não comprove, por si só, a responsabilidade dos proprietários pelos incêndios, os dados ajudam a identificar as áreas onde as queimadas estão ocorrendo.

O pesquisador Luiz Aragão, especialista em monitoramento de biomas por satélite, explica que os registros mostram o uso do fogo fora das condições permitidas.

“A análise mostra que a maior parte do fogo está em áreas privadas. Ou seja, pessoas que usam o fogo sem permissão para manejo do solo. É fogo usado fora do contexto da lei.”

Desde 9 de setembro, o governo estadual mantém uma proibição do uso do fogo no Amazonas. Mesmo assim, os registros continuaram aumentando.

O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirma que a combinação entre estiagem e queimadas provocadas por pessoas tem dificultado o controle da situação.

“Como tem muito incêndio, as pessoas vão colocando fogo, ampliando o problema até pela dificuldade que se pode ter em um momento de crise como esse de identificar o crime. (…) e há uma hipótese considerada de que elas se valem do momento político para tensionar o caos.”

Durante operações, agentes ambientais encontraram garrafas com combustíveis sendo lançadas ao longo de estradas. A Polícia Federal, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Polícia Civil também investigam possíveis ações criminosas.

No Amazonas, mais de 120 procedimentos criminais foram abertos para apurar o uso ilegal do fogo.

Maioria das queimadas ocorre em áreas já desmatadas

Os dados do Inpe mostram que a maior parte dos incêndios não começa em trechos de floresta preservada, mas em terrenos que já passaram por desmatamento.

Em outubro, 52,8% dos focos foram identificados em áreas desmatadas nos últimos três anos. Outros 30,6% ocorreram em terrenos abertos há mais tempo, enquanto 15,9% atingiram áreas de vegetação nativa.

Essa distribuição ajuda a explicar por que os incêndios continuam avançando mesmo diante da redução do desmatamento na Amazônia.

Entre agosto de 2025 e julho de 2026, foram registrados 3.335 quilômetros quadrados de floresta derrubada, segundo o Inpe, o menor índice da série histórica iniciada em 1988.

A diminuição da derrubada de árvores, porém, não impede que áreas abertas anteriormente continuem sendo queimadas.

“A pessoa desmata no passado e para manter a vegetação morta ali, para limpar a área já devastada que ela usa como pasto, ela usa o fogo. É o processo contínuo de quem desmata”, explica Aragão.

O problema se agrava quando as chamas escapam dessas propriedades e atingem áreas de floresta ainda preservadas.

Seca favorece avanço das chamas sobre a floresta

A estiagem associada ao fenômeno El Niño tem contribuído para a propagação dos incêndios no Amazonas.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Manaus acumulou apenas 104 milímetros de chuva desde julho, aproximadamente um terço dos 316 milímetros esperados para o período.

Em agosto, não houve registro de precipitação na capital, embora a média histórica para o mês seja de 56 milímetros.

Com a vegetação mais seca, o fogo iniciado em uma propriedade pode avançar por quilômetros e atingir áreas protegidas, incluindo territórios indígenas.

O presidente do Ibama afirma que o órgão já identificou situações desse tipo durante as fiscalizações.

“Nós já autuamos aqui nessa região próxima a Manaus 19 pessoas nessa última semana. R$ 2 milhões de multa e mais de 250 hectares embargados. São pessoas que iniciam fogo na sua propriedade sem autorização e, em alguns casos, esse fogo acaba avançando em territórios protegidos, inclusive em territórios indígenas”, explica.

As autuações começaram em 12 de outubro e ocorreram principalmente nos municípios de Autazes e Careiro da Várzea, na região metropolitana de Manaus.

Incêndios dispararam após primeiro turno das eleições

Outro dado que despertou a atenção dos pesquisadores foi o aumento repentino dos focos de calor a partir de 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições.

Levantamento do Ipam, realizado em 19 municípios das regiões metropolitana e central do Amazonas, identificou uma mudança no comportamento habitual das queimadas.

Normalmente, os registros aumentam em agosto, atingem o pico em setembro e começam a diminuir no fim daquele mês.

Em 2026, porém, após uma redução no final de setembro, os focos voltaram a crescer rapidamente no início de outubro.

Entre os dias 4 e 14, foram registrados 5.598 focos de calor, número 37 vezes superior aos 149 identificados no mesmo intervalo de 2025.

O resultado também supera os 4.385 focos contabilizados em 2023, quando a região enfrentou uma seca histórica.

“Quando analisamos os dados do fogo, não vemos um crescimento em outubro nesses patamares. Escalou muito rápido, em poucos dias. Só tivemos um outubro ruim assim em 2023, durante uma seca histórica no Amazonas, cenário que não se repete agora”, explica o pesquisador Newton Monteiro, responsável pelo levantamento.

No acumulado de 1º de janeiro a 14 de outubro, os 19 municípios analisados registraram 15.674 focos, quantidade 109% superior à média histórica.

Autoridades investigam possível relação com período eleitoral

O crescimento dos incêndios após o primeiro turno levantou suspeitas sobre uma possível relação entre as queimadas criminosas e o ambiente político.

O Ibama ressalta, no entanto, que ainda não existem conclusões definitivas sobre as causas da aceleração dos focos.

Para Jair Schmitt, relatos das equipes que atuam no combate às chamas indicam que alguns responsáveis pelas queimadas podem estar aproveitando o período eleitoral por acreditarem que não serão punidos.

“Isso sim é uma hipótese que deve ser considerada, de se valer do momento político para ampliar, tensionar mais ainda o caos e o cometimento desses incêndios. O que a gente tem de relato das nossas equipes em campo, brigadistas, é desse sentimento de impunidade. Independentemente do cenário político, de determinado candidato vitorioso, as pessoas têm uma expectativa de impunidade e de não sofrerem nenhum tipo de consequência”, explica Schmitt.

A hipótese continua sob investigação e não estabelece, até o momento, uma ligação comprovada entre os incêndios e qualquer candidatura ou grupo político.

Enquanto as apurações avançam, equipes ambientais reforçam a fiscalização e o combate às chamas para impedir que novos territórios protegidos sejam atingidos.

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