As suspeitas de favorecimento da Meta à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial brasileira chegaram ao Congresso dos Estados Unidos, informa a colunista da Folha de S. Paulo Mônica Bergamo. O Instituto Vladimir Herzog (IVH) e a organização CTRL+Z enviaram, nesta quarta-feira (21), uma carta a parlamentares estadunidenses solicitando a abertura de uma investigação sobre possíveis interferências das plataformas digitais no processo eleitoral do Brasil.
A iniciativa ocorre a quatro dias do segundo turno, marcado para domingo (25), e amplia a pressão sobre a empresa responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp. As entidades apontam uma série de episódios envolvendo restrições a conteúdos favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial e publicidade eleitoral financiada fora do país.
O documento reúne denúncias de usuários, pesquisas acadêmicas e informações sobre falhas reconhecidas pela própria Meta. As organizações defendem que os episódios sejam examinados por investigadores independentes para esclarecer se houve tratamento desigual entre os candidatos.
A empresa nega qualquer favorecimento político e sustenta que os problemas identificados decorreram de incidentes técnicos.
Mais de mil denúncias apontam restrições a conteúdos favoráveis a Lula
Um dos principais argumentos apresentados ao Congresso dos EUA é o levantamento realizado pela CTRL+Z, que reuniu 1.121 relatos de usuários sobre problemas nas plataformas da Meta.
As denúncias incluem bloqueios de contas, limitações de funcionalidades e redução do alcance de publicações.
Segundo a organização, as restrições atingiram principalmente perfis que manifestavam apoio à candidatura de Lula, além de jornalistas, comunicadores independentes e entidades da sociedade civil.
As organizações argumentam que a repetição dos episódios exige uma apuração capaz de identificar suas causas e eventuais impactos sobre a disputa presidencial.
Outro ponto levantado envolve o funcionamento das ferramentas de inteligência artificial da Meta.
Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo mostraram que a empresa reconheceu uma falha que permitia a geração de determinadas imagens eleitorais relacionadas a Flávio Bolsonaro, mas impedia a criação de conteúdos equivalentes envolvendo Lula.
As entidades querem esclarecer se essas diferenças decorreram exclusivamente de problemas técnicos ou se existiram outros fatores que afetaram o tratamento dado às candidaturas.
Pesquisa identificou 1.613 anúncios eleitorais financiados do exterior
A carta também apresenta dados de um levantamento do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O estudo identificou 1.613 anúncios de conteúdo político-eleitoral impulsionados a partir do exterior nas plataformas da Meta entre julho e setembro de 2026.
De acordo com a pesquisa, as páginas responsáveis pelas publicações estavam localizadas principalmente nos Estados Unidos, mas também em países como Itália, México, Bangladesh e Colômbia.
Diante desses resultados, o Instituto Vladimir Herzog e a CTRL+Z pedem que o Congresso estadunidense cobre informações sobre a identidade dos responsáveis pelos pagamentos e os mecanismos utilizados pela Meta para detectar propaganda eleitoral irregular.
As organizações também defendem a preservação de registros digitais e a realização de auditorias independentes nos sistemas de recomendação de conteúdo, moderação e inteligência artificial.
O objetivo, segundo as entidades, é permitir uma avaliação técnica sobre o funcionamento das plataformas durante a campanha brasileira.
TSE elevou multa contra Meta para R$ 1 milhão por dia
A iniciativa internacional ocorre em meio a uma disputa judicial entre a Justiça Eleitoral brasileira e a Meta.
Na sexta-feira (14), o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a empresa garantisse tratamento isonômico às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro.
A decisão estabeleceu que as plataformas não poderiam aplicar restrições discriminatórias à distribuição de publicações nem favorecer um dos concorrentes por meio de recomendações algorítmicas.
A determinação foi confirmada por unanimidade pelo plenário do TSE no dia seguinte.
Na segunda-feira (19), diante dos questionamentos sobre o cumprimento da ordem, o tribunal concedeu novo prazo de 24 horas para que a Meta apresentasse comprovações das medidas adotadas.
A multa diária em caso de descumprimento foi elevada para R$ 1 milhão.
A Justiça Eleitoral busca assegurar que os dois candidatos tenham condições equivalentes de divulgação de conteúdos nas plataformas digitais durante a reta final da campanha.
Mensagens internas revelaram falhas que prejudicaram Lula
A pressão sobre a Meta aumentou após a divulgação de mensagens internas obtidas pela Folha de S.Paulo.
Segundo a reportagem, funcionários da companhia reconheceram que contas ligadas a Lula haviam sido prejudicadas por restrições no Instagram.
As comunicações também apontaram que o perfil de Flávio Bolsonaro apareceu indevidamente em recomendações algorítmicas no Instagram e no WhatsApp.
Em um dos episódios, a conta oficial do presidente ficou impossibilitada de impulsionar publicações já existentes por quase 24 horas.
A campanha petista estimou que o problema comprometeu o alcance potencial de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas.
A Meta reconheceu a ocorrência de incidentes, mas negou que eles representassem interferência deliberada na eleição.
Em comunicado divulgado no sábado (16), a companhia afirmou que os problemas tiveram causas distintas e que seus sistemas não foram desenvolvidos para distribuir conteúdos de acordo com a orientação ideológica dos usuários.
As explicações, entretanto, não afastaram os questionamentos das organizações brasileiras, que consideram necessária uma investigação independente.
Entidades alertam para soberania brasileira e reconhecimento das eleições
Além das suspeitas envolvendo as plataformas digitais, o Instituto Vladimir Herzog demonstrou preocupação com possíveis interferências externas no processo eleitoral brasileiro.
Na terça-feira (20), representantes da entidade se reuniram com integrantes de sete embaixadas e da Delegação da União Europeia no Brasil.
O encontro teve como objetivo apresentar denúncias relacionadas à atuação do governo de Donald Trump e alertar para o risco de os Estados Unidos não reconhecerem o resultado das eleições brasileiras.
Segundo o IVH, os representantes diplomáticos demonstraram preocupação com as informações apresentadas e afirmaram que permaneceriam abertos ao recebimento de novas denúncias.
Na carta enviada ao Congresso dos EUA, o instituto e a CTRL+Z também pedem que os parlamentares reafirmem o respeito à soberania brasileira e cobrem das empresas sediadas nos Estados Unidos o cumprimento da legislação eleitoral do Brasil.
A mobilização ocorre na reta final de uma eleição presidencial marcada pela intensa disputa nas redes sociais e pelo crescente debate sobre a influência das plataformas digitais na formaç







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