Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro mostram que o banqueiro e seu então advogado, Walfrido Warde, tentaram mobilizar o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega para levar assuntos relacionados ao Banco Master ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025.
As conversas ocorreram durante a análise do Banco Central sobre a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB). Os registros mostram a atuação de intermediários para buscar uma aproximação política, mas não comprovam que Lula tenha interferido nas decisões do Banco Central.
O conteúdo foi divulgado nesta quarta-feira (7) pelo Estadão. O Palácio do Planalto afirmou que Lula se encontrou com Vorcaro apenas em 4 de dezembro de 2024 e que, na ocasião, orientou o banqueiro a apresentar eventuais denúncias para análise técnica do Banco Central.
Mantega foi contratado por R$ 14 milhões
Segundo a reportagem, Mantega havia sido contratado como consultor por R$ 14 milhões para atuar em assuntos relacionados ao governo federal. Em 23 de julho de 2025, Warde sugeriu que Vorcaro enviasse um avião para buscar o ex-ministro em Londres e levá-lo para um encontro com Lula.
“Eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele pra encontrar o presidente”, afirmou o advogado em uma mensagem. Antes disso, Warde havia informado que estava com Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete de Lula, conhecido como Marcola.
Dois dias depois, Warde pediu uma videoconferência entre Vorcaro e Mantega para orientar o ex-ministro sobre a situação do Banco Master. O advogado afirmou que o encontro seria urgente porque Mantega falaria com uma pessoa não identificada nas mensagens. Depois de uma ligação de 23 minutos, Warde disse que a conversa havia sido importante e que a estratégia poderia dar resultado.
Vorcaro fala em “única chance nossa”
Em 31 de julho de 2025, Vorcaro voltou a cobrar de Warde uma aproximação com o presidente. “Você precisa conversar com o chefe. Única chance nossa”, escreveu o banqueiro.
As mensagens indicam que os envolvidos buscavam uma forma de apresentar ao governo a situação do Banco Master enquanto o Banco Central avaliava a operação de venda ao BRB.
O material, porém, não mostra que Lula tenha participado das articulações descritas nas conversas nem que tenha interferido na análise realizada pelo Banco Central.
Mensagens também citam Hugo Motta
Outra sequência de mensagens envolve o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. Em 17 de julho de 2025, Motta informou a Vorcaro que Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, iria à casa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, depois de uma reunião.
Posteriormente, Vorcaro relatou a Warde que Galípolo teria apontado erros contábeis como um dos obstáculos à operação envolvendo o Banco Master. “Avise presidente amanhã e vamos pra guerra”, escreveu o banqueiro. Warde respondeu que levaria o assunto ao conhecimento do presidente.
Motta afirmou, por meio de sua assessoria, que contatos com empresários fazem parte da atividade parlamentar e negou irregularidades. Segundo ele, suas relações com o setor privado foram conduzidas dentro da institucionalidade e da probidade.
Mensagens citam apoio de autoridades
Em outra conversa, Vorcaro sugeriu que Warde acionasse alguém chamado “Alexandre”. As mensagens não esclarecem se a referência era ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Warde respondeu que iria “pavimentar” o caminho. Vorcaro também afirmou contar com apoio do STF, da Presidência da República e do Congresso Nacional e criticou Renato Gomes, então diretor do Banco Central, que era contrário à operação.
As declarações de Vorcaro sobre supostos apoios políticos e institucionais não comprovam que as autoridades citadas tenham aderido aos interesses do Banco Master.
Venda ao BRB foi vetada pelo Banco Central
A operação de venda do Banco Master ao BRB acabou sendo vetada pelo Banco Central em setembro de 2025. Em novembro daquele ano, a autoridade monetária decretou a liquidação do Master.
No mesmo período, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal sob suspeita de fraude envolvendo carteiras de crédito.
Em manifestação enviada ao Estadão, o Palácio do Planalto destacou que tanto a liquidação do banco quanto a prisão de Vorcaro ocorreram durante o atual governo.
As assessorias de Davi Alcolumbre e Alexandre de Moraes não se manifestaram, segundo o Estadão. O conteúdo das mensagens, por si só, não comprova interferência de Lula, do STF ou do Congresso nas decisões tomadas pelo Banco Central.
Ouças as mensagens:







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