AGU pede à Justiça dos EUA que arquive ação movida pela Rumble e Trump Media contra Moraes

Governo brasileiro sustenta que decisões da Suprema Corte não podem ser questionadas por tribunais estrangeiros e invoca princípio da soberania nacional

A Advocacia-Geral da União (AGU) deu um novo passo na defesa institucional do Supremo Tribunal Federal (STF) ao solicitar à Justiça dos Estados Unidos o encerramento da ação movida pela Trump Media e pela plataforma Rumble contra o ministro Alexandre de Moraes. A manifestação foi protocolada na segunda-feira (15) em um tribunal federal da Flórida e foi anunciada oficialmente pelo órgão nesta terça-feira (16).

A iniciativa ocorre em meio à escalada da disputa jurídica envolvendo decisões do STF e empresas de tecnologia que atuam em território estadunidense. Para o governo brasileiro, o caso extrapola a figura individual do magistrado e atinge diretamente princípios relacionados à soberania nacional e à independência do Poder Judiciário.

Em nota, a AGU afirmou que a medida busca resguardar interesses institucionais do Estado brasileiro.

“A medida tem por objetivo promover a defesa dos interesses do Estado Brasileiro e sustenta, sobretudo, que decisões judiciais proferidas pela Suprema Corte do Brasil não podem ser questionadas perante tribunais de Estados estrangeiros”, diz a nota publicada pela AGU.

Disputa envolve decisões do Supremo

A ação apresentada nos Estados Unidos foi movida pela Trump Media, grupo empresarial ligado ao presidente Donald Trump, e pela plataforma de vídeos Rumble.

As empresas buscam reverter determinações expedidas por Alexandre de Moraes no Brasil que envolveram restrições e bloqueios de conteúdos e perfis digitais. Segundo os autores da ação, essas medidas configurariam censura e violariam garantias previstas na Constituição dos Estados Unidos, especialmente relacionadas à liberdade de expressão.

O processo, entretanto, foi direcionado exclusivamente contra Moraes, sem incluir formalmente o Estado brasileiro entre as partes.

Diante disso, a Advocacia-Geral da União solicitou seu ingresso formal na ação, argumentando que as decisões questionadas foram tomadas pelo ministro no exercício de suas funções constitucionais e como integrante da Suprema Corte brasileira.

Na avaliação do órgão, não se trata de uma controvérsia pessoal envolvendo o magistrado, mas de um questionamento sobre atos praticados por uma instituição de Estado.

Argumento central é a imunidade de jurisdição

A principal linha de defesa apresentada pela AGU está baseada em um dos pilares do Direito Internacional: o princípio da imunidade de jurisdição.

Segundo esse entendimento, autoridades e órgãos de um Estado soberano não podem ter seus atos oficiais submetidos à análise de tribunais estrangeiros sem autorização expressa do próprio país.

Na petição apresentada à Justiça dos EUA, a AGU sustenta que permitir a revisão de decisões do STF por uma corte estrangeira abriria um precedente incompatível com as normas internacionais que regulam as relações entre Estados soberanos.

O documento também afirma que o Brasil não reconhece competência de tribunais estrangeiros para revisar decisões tomadas pela sua mais alta Corte.

Segundo a manifestação enviada à Justiça dos Estados Unidos, o país “não consentiu e não consentirá” com esse tipo de intervenção.

A AGU argumenta ainda que qualquer contestação às decisões do Supremo deve ocorrer exclusivamente dentro das instâncias previstas pelo próprio ordenamento jurídico brasileiro.

Outro ponto destacado pelo governo federal é que a legislação brasileira estabelece proteção específica aos ministros do Supremo Tribunal Federal em relação a atos praticados durante o exercício de suas funções.

Pela legislação nacional, magistrados da Corte não podem ser responsabilizados pessoalmente por decisões judiciais proferidas no desempenho de suas atribuições institucionais.

Essa previsão é utilizada pela AGU para reforçar a tese de que eventuais contestações devem ser dirigidas ao sistema judicial brasileiro, e não a cortes estrangeiras.

A avaliação do órgão é que o processo em tramitação nos Estados Unidos representa uma tentativa indireta de revisar decisões da Justiça brasileira fora dos mecanismos legalmente previstos.

Fachin pediu providências

A atuação da Advocacia-Geral da União ocorre após uma solicitação formal do presidente do STF, ministro Edson Fachin.

No início deste mês, Fachin pediu que a AGU adotasse medidas jurídicas em defesa dos interesses institucionais envolvidos no caso.

Na avaliação do presidente da Corte, a ação apresentada nos Estados Unidos ultrapassa a esfera individual de Alexandre de Moraes e envolve temas centrais para o funcionamento das instituições brasileiras.

Entre eles estão a autonomia do Poder Judiciário e a preservação da soberania nacional diante de questionamentos formulados em tribunais estrangeiros.

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