Após quatro décadas ajudando a moldar o carnaval de rua do Rio de Janeiro, o bloco Suvaco do Cristo anunciou que fará seu último desfile no dia 8 de fevereiro, no domingo que antecede oficialmente a folia. A despedida marca o encerramento de um ciclo iniciado em 1986 e que se tornou símbolo da revitalização dos blocos de rua na cidade.
O fundador e presidente do Suvaco do Cristo, João Avelleira, explicou à Agência Brasil que a decisão não tem relação com burocracia ou dificuldades logísticas, mas com o próprio sentido de missão cumprida.
“Completamos 40 anos e achamos que o nosso ciclo chegou ao fim. Dever cumprido. A gente acha que ajudou a revitalizar o carnaval de rua do Rio de Janeiro”, afirmou.
Missão cumprida no carnaval de rua
Segundo Avelleira, o crescimento exponencial do carnaval de rua carioca, hoje com milhares de blocos, fanfarras e propostas diversas, é um dos sinais de que o papel histórico do Suvaco foi cumprido.
“Hoje, nós temos milhares de blocos mais jovens, uma diversidade enorme, e acho que nossa missão está cumprida. Estamos satisfeitos. Nossa nave chegou ao final, pousou com a missão cumprida”, disse.
Ele também destacou que o espírito e a identidade do bloco permanecem vivos em outras agremiações.
“A gente se sente representado e tem certeza que o nosso DNA está em muitos desses blocos que hoje em dia estão desfilando por aí. A gente serviu de estímulo para muitos desses blocos pequenos.”
Apesar da despedida definitiva, o Suvaco do Cristo fez inscrição na Riotur para o carnaval de 2026, como sempre fez ao longo de sua trajetória, juntando-se aos mais de 800 blocos que solicitaram autorização para desfilar.
Último desfile e memória musical
No cortejo final, a fantasia seguirá livre, como marca registrada do bloco. Entre os sambas que serão tocados está Eco no Ar, composição que ironizava os “ecologistas de última hora” durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a Rio-92, um dos momentos históricos retratados pelo Suvaco ao longo dos anos.
O desfile de despedida também será registrado em vídeo. A filmagem terá argumento do jornalista e especialista em carnaval Aydano André Motta e do roteirista Leonardo Bruno, com produção da Casé Filmes.
“A filmagem vai servir de linha para contar os 40 anos da história do Suvaco e o legado que nós vamos deixar também. Vamos terminar em grande estilo”, prometeu Avelleira.
Museu virtual para preservar o legado
Paralelamente ao último desfile, o bloco prepara o lançamento de um Museu Virtual, que reunirá fotos, sambas, gravações, reportagens e outros registros históricos de seus 40 anos de existência.
“Vamos deixar essa memória gravada para que todas as pessoas possam ter acesso”, afirmou o fundador, que acredita que o acervo estará totalmente disponível ainda em 2026.
O museu terá acesso gratuito e será voltado tanto para pesquisadores quanto para o público em geral. Avelleira sugere que a iniciativa possa servir de exemplo para outros blocos tradicionais.
Parceria com a UFRJ e projeto de extensão
A criação do Museu Virtual ocorre em parceria com o Instituto de Computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dentro de um projeto de extensão coordenado pela professora Anamaria Martins Moreira, amiga de Avelleira e frequentadora assídua dos desfiles.
“Criamos um projeto de extensão para reunir o material do bloco, proceder à catalogação, classificar e começar a montar o portal, que é o museu”, explicou a professora à Agência Brasil.
O trabalho envolve alunos de computação, história, história da arte e comunicação, em uma proposta multidisciplinar. Segundo Anamaria, o projeto atende à exigência de que estudantes de graduação cumpram parte da carga horária em atividades de interação com a sociedade.
Primeiros conteúdos já disponíveis
Como teste inicial, o site do bloco já disponibiliza informações sobre o primeiro desfile, em 1986, incluindo reportagens da época. A proposta é reunir dados ano a ano, com informações sobre sambas, contexto histórico do Brasil e do mundo, compositores, artistas responsáveis pelas camisetas e personagens marcantes dos desfiles, como a porta-bandeira do primeiro ano, Sonia Matos, que também criou a arte da camiseta inaugural.
O acervo incluirá ainda um documentário sobre os primeiros 20 anos do Suvaco, produzido por Paola Vieira, uma das fundadoras do bloco. Já o filme que será gravado em 2026 poderá não integrar o portal, por questões de direitos autorais.
Atualmente, a equipe trabalha na organização do material referente a 2012, ano em que o Suvaco do Cristo venceu o Prêmio Serpentina de Ouro, do jornal O Globo, na categoria melhor fantasia.
“É um trabalho ambicioso, porque são 40 anos e há uma diversidade enorme de coisas que aconteceram ao longo desse período”, afirmou Anamaria.
Como parte do processo, o bloco deverá futuramente pedir a doação de fotos e materiais dos primeiros desfiles, que têm poucos registros. A ideia é que, mesmo fora da avenida, o Suvaco do Cristo siga vivo na memória cultural do carnaval carioca.






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