Topa fazer um teste? Pense em três cidades iranianas além de Teerã. Depois anote o nome de três grandes generais, três cientistas, escritores, músicos ou políticos iranianos. Essa brincadeira poderia valer também para países como a China ou a Índia, e comprovam que a maciça propaganda estadounidense nos leva a não saber praticamente nada sobre alguns players importantes da geopolítica mundial — principalmente quando nos vemos diante de cenários de guerra como agora. Segundo a historiadora estadounidense Barbara Tuchman, a História não se move porque as pessoas tomaram decisões corretas na hora de algum aperto mas, sim, porque pisaram feio na bola.
Como por exemplo os troianos, depois de 10 anos de cerco grego, ao puxarem para dentro da cidade aquele famoso cavalo. O caso do Irã poderia fazer parte da lista. Afinal, além de todas as questões complexas políticas e mitológicas do Oriente Médio, ali um rei deslumbrado e montado em muita grana fez tanta bobagem que permitiu o surgimento do Grande Satã do Ocidente. E o estopim para o fim de seu reino foi uma festa. Não uma simples festa, mas uma de arromba, bilionária, de fazer P.Diddy morrer de inveja e que passou para a História como a mais cara do século XX.
Conheça esse caso e 15 fatos sobre o Irã para impressionar os amigos na próxima resenha.
Que festa foi essa que derrubou o regime?
Em 1973, estourou a Crise do Petróleo, quando os 13 integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) passaram a controlar a produção e elevar drasticamente os preços. A receita do produto aumentou em mais de 600% entre 1970 e 1975, e o Irã se tornou o segundo maior exportador de petróleo da Opep, atrás apenas da Arábia Saudita.
Montado na grana, o Xá (algo como rei) Reza Pahlevi deslumbrou-se. Houve ano em que os investimentos militares do Irã foram maiores do que os dos Estados Unidos. Mas apesar do crescimento econômico impressionante, esse enriquecimento trouxe uma enorme desigualdade social: as elites enriqueceram brutalmente, camponeses e trabalhadores urbanos foram marginalizados, o autoritarismo do regime (pela temida polícia secreta SAVAK) e o choque entre a modernização forçada pelos Estados Unidos e os valores tradicionais alimentaram o descontentamento popular. Aos mais pobres, o único refúgio eram as mesquitas. Foi quando o Xá resolveu dar uma festa. E que festa!
A ideia era celebrar os 2500 anos do Império Persa. As ruínas da antiga capital Persépolis ganharam dezenas de barracas douradas, projetadas pela luxuosa Maison Jansen, decoradora oficial da corte europeia, com paredes internas de seda azul, tapetes persas, móveis franceses e sistema de ar-condicionado no deserto. O ápice foi o banquete que entrou para a história como o mais caro do século XX. O cardápio foi preparado por chefs do restaurante Maxim’s de Paris, que trouxeram tudo da Europa: da lagosta à água mineral, passando por faisões, carnes nobres, trufas, caviar, além de 10 mil garrafas de vinho francês, champanhe Dom Pérignon 1959 e conhaques centenários.
Mais de 60 chefes de estado participaram do rega-bofe que, segundo os registros, teria custado em valores de hoje uma bobagem de US$ 6 bilhões! Um mês antes da festa o país entrou em uma greve geral que durou até dezembro de 1978. O país parou. A ostentação desenfreada da festa, somada ao autoritarismo cada vez maior do regime, e ao choque cultural entre a modernização forçada e as tradições islâmicas, viraram combustível para a insatisfação popular. Em janeiro de 1979, Reza Pahlevi fugiu do país. Historiadores consideram essa festa um divisor de águas. Mais do que celebrar a história persa, ela revelou as contradições que selariam o destino do regime.
Os iranianos são árabes?
Não. Os iranianos se consideram persas, um povo indo-europeu com língua, cultura, história e identidade distintos dos árabes. A língua oficial do Irã é o persa (farsi), enquanto os países árabes falam línguas árabes. As conexões entre Irã e mundo árabe são principalmente religiosas (Islã xiita) e diplomáticas, mas culturalmente são muito diferentes. Historicamente, o Irã foi o centro de potências como os impérios aquemênida, parta e sassânida, com tradições distintas da península arábica. A influência árabe sobre o Irã veio com a conquista muçulmana no século VII, mas a cultura persa se manteve predominante até os dias de hoje.
O Irã é uma ditadura?
Sim, o Irã é considerado um dos 60 países com regimes autoritários segundo a Human Rights Watch. O país é governado por um regime no qual o poder supremo está nas mãos do Líder Supremo (atualmente o aiatolá Ali Khamenei), que não é eleito diretamente pelo povo e exerce controle absoluto sobre praticamente tudo.
Apesar de existirem eleições para presidente e Parlamento, todos os candidatos devem ser previamente aprovados pelo Conselho dos Guardiões, órgão composto por clérigos e juristas nomeados, o que limita drasticamente a participação democrática. Além disso, organizações como a Anistia Internacional e Human Rights Watch documentam sistemáticas violações de direitos humanos, incluindo prisões políticas, censura, repressão a protestos e restrições severas à liberdade de expressão, religião e participação feminina na vida pública. Outros exemplos de ditaduras (ou monarquias) teocráticas são o Afeganistão e a Arábia Saudita.
E de onde vem o dinheiro do Irã?
O Irã possui a 2ª maior reserva de gás natural e é o sétimo principal produtor de petróleo do mundo, o que lhe confere potencial econômico significativo. No entanto, sanções internacionais, insatisfação política e má gestão econômica abalam seu crescimento. Existem altos índices de inflação, desemprego juvenil e desvalorização do rial (a moeda local) o que limita o impacto dos recursos naturais sobre o bem-estar da população. Mesmo assim, a economia do Irã é uma das maiores do Oriente Médio.
O Produto Interno Bruto (PIB) do país é de 1,74 bilhão de dólares, com valor per capita que supera os 20 mil dólares. Além disso, o país ocupa uma posição estratégica no Golfo Pérsico e controla parte do Estreito de Hormuz, por onde passa grande parte do petróleo exportado pelos outros países da região.

O Irã tem bomba atômica?
Até o fechamento deste post, não havia evidência pública de que o Irã possua uma arma nuclear. O país assinou o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) em 2015, restringindo o enriquecimento de urânio. Embora tenha aumentado o enriquecimento de urânio após a saída dos EUA do acordo, análises mostram que o Irã ainda está longe de produzir armas atômicas. O programa civil nuclear permanece sob monitoramento da Agência Internacional de Energia Atômica.
Só muçulmanos xiitas vivem no Irã?
Não. O regime permite por lei a prática religiosa de judeus, católicos, ortodoxos e até mesmo dos zoroastristas — a primeira religião monoteísta do ocidente que surgiu no atual Irã. Hoje estimam-se entre 12.000 e 15.000 praticantes de zoroastrismo no país. Na cidade histórica de Yaz encontra-se no Templo de Fogo Sagrado, onde (segundo os adeptos) uma chama está acesa desde aproximadamente 470 d.C. O zoroastrismo pode soar estranho para alguns, mas um grande astro pop contemporâneo era adepto da religião. Chamava-se Freddie Mercury.
É verdade que homossexuais são condenados à morte no Irã?
Sim, o Irã continua impor penas severas contra a comunidade LGBTQI+, incluindo a pena de morte em casos de relações homossexuais. De acordo com dados organizações de direitos humanos como a Human Rights Watch e a ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual,Trans e Intersex Association), pelo menos seis pesoas foram executadas ano passado sob alegações vagas de “violação da Lei Islâmica” ou sodomia, mas o número é impreciso. É provável que outras condenações a morte possam ter ocorrido sob acusações do tipo “inimizade com Deus” ou simples corrupção de valores.
Por que no Irã algumas mulheres não precisam usar burca?
No Irã, mulheres estrangeiras e iranianas devem obedecer a um código estrito de vestimenta: usar hijab (lenço cobrindo o cabelo), além de roupas discretas que cubram braços e pernas. A burca (cobertura total, incluindo olhos) não é exigida, mas o desprezo pelo cumprimento dos trajes adequados pode resultar em advertência, multa ou restrição na entrada em instituições públicas.

Então por que algumas mulheres usam burca?
A obrigatoriedade do hijab no Irã está prevista na Constituição de 1979, que impõe normas islâmicas de vestimenta pública feminina. Já o uso da burca é visto como sinal de modéstia e respeito religioso. Embora o chador — uma vestimenta tradicional — seja culturalmente popular, o uso de cobertura mais rigorosa decorre principalmente de religião, normas sociais e regulamentos do Estado. O curioso é que em casa vale tudo, e assim como nos demais países árabes, o Irã é terra fértil para marcas de lingerie femininas mais sensuais.
É verdade que o Irã é um destino turístico concorrido?
Por incrível que possa parecer, sim. Em 2022, o turismo cresceu 39 %, atingindo cerca de US$ 6,2 bilhões em gastos de turistas estrangeiros. Já em 2024, o país recebeu 4,16 milhões de visitantes – um aumento de 24 % em relação a 2023. Entre janeiro e julho de 2024, o Irã registrou um crescimento de 26 % no número de chegadas comparado a 2019. O maior motivo para este boom turístico é a recente flexibilização das normas de entrada no país para os estrangeiros, além das impressionantes ruínas do Império Persa e as mesquitas do país, tidas como algumas das mais bonitas do mundo árabe.

Qual a melhor época para viajar e por que?
A melhor época para uma viagem confortável é primavera (março a maio) e outono (setembro a novembro), quando as temperaturas são amenas e agradáveis em cidades como Teerã, Isfahan, Shiraz e Yazd. No verão, o calor não perdoa no deserto central (mais de 40 °C), embora seja ideal para regiões montanhosas e o Mar Cáspio.
O que devo saber antes de ir
O tourist visa on arrival é possível para a maioria das pessoas, mas cidadãos dos EUA, Canadá e Reino Unido precisam ir com guia aprovado e solicitar o visto antecipadamente. Cartões de crédito formalmente não funcionam. O ideal é levar euros e trocá-los apenas em casas oficiais. Demonstrações públicas de afeto não são bem-vindas e boa parte das redes sociais são bloqueadas.
O que tem para fazer no Irã
O Irã tem nada menos que 27 patrimônios históricos denominados pela Unesco, incluindo sítios arqueológicos e cidades históricas. Entre os maiores destaques estão as ruínas do Império Persa (em especial Persépolis), a Ponte de Isfahan, o Templo do Fogo, além de belíssimos jardins e mesquitas como a Nasir Al-Mulk, em Shiraz, onde a luz do sol quando entra pelos vitrais causa um efeito semelhante a um caleidoscópio de mil cores no interior da mesquita.

É caro viajar para o Irã?
Não. O Irã é conhecido por ser uma viagem econômica — fora a passagem. Importante frisar que nem todos os hotéis oferecem serviços condizentes com as estrelas que ostentam. Muitos deles pertenciam a grandes redes internacionais antes da Revolução e foram mantidos como eram. Uma análise geral de hotéis no Irã aponta uma média nacional de cerca de US$ 109 por noite para acomodações cinco estrelas, mas elas podem chegar aos US$ 425 no espetacular Parsian Azadi, em Teerã.
Como chegar?
Brasileiros só precisam solicitar visto caso pretendam passar mais de 15 dias no país. As principais companhias aéreas que operam do Brasil até o Irã são a Turkish, Emirates, Swiss e Lufthansa. As passagens de ida e volta começam em torno dos R$ 5 mil e podem chegar a até R$ 20 mil em classe executiva.







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