Inspirada em Bukele, Keiko Fujimori proíbe maquiagem, unhas pintadas e cabelos longos em escolas do Peru

Presidente endurece regras de aparência e comportamento para estudantes da rede pública sob justificativa de combater a violência e o bullying; medidas provocam críticas da oposição

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A presidente do Peru, Keiko Fujimori, decidiu adotar nas escolas públicas do país uma política disciplinar inspirada nas medidas implementadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. A informação é da jornalista Sandra Cohen e foi publicada no portal g1. Empossada há dois meses, a governante de extrema direita estabeleceu novas regras que proíbem maquiagem, esmaltes, cabelos tingidos e saias curtas para meninas, além de restringir o uso de cabelos compridos pelos meninos.

O governo peruano justifica as mudanças como parte de uma estratégia para recuperar a disciplina nas instituições de ensino e enfrentar problemas como violência, assédio e bullying. A iniciativa, entretanto, provocou críticas de parlamentares da oposição e defensores dos direitos humanos, que questionam a relação entre a aparência dos estudantes e a segurança no ambiente escolar.

A decisão também reforça a aproximação política de Fujimori com Bukele, conhecido por adotar medidas rígidas de segurança pública e controle disciplinar em El Salvador.

Regras preveem punições e retomada das notas de conduta

As novas diretrizes vão além das restrições à aparência. O governo peruano pretende fortalecer a autoridade das escolas por meio de sanções disciplinares, incluindo a possibilidade de expulsão em casos de infrações graves e a retomada das notas de comportamento.

Ao apresentar as medidas, Keiko defendeu a necessidade de uma resposta mais rigorosa a episódios de violência envolvendo estudantes.

“Comportamentos que põem em risco a segurança de crianças e adolescentes exigem uma resposta firme, oportuna e responsável. É por isso que estas diretrizes incluem sanções e repreensões proporcionais, com o princípio de penalidades graduais”, justificou a presidente peruana.

A proposta segue uma linha semelhante à adotada por Bukele em 2025. Na ocasião, o governo salvadorenho estabeleceu normas de apresentação pessoal e comportamento nas escolas, proibindo determinados cortes de cabelo, como o moicano e o estilo conhecido como “Edgar”.

Em ambos os países, governados pela extrema direita, as administrações defendem que o cumprimento de regras mais rígidas contribui para restaurar a autoridade dos professores e melhorar a convivência entre os estudantes.

Oposição denuncia sexismo e questiona eficácia

A imposição de padrões de aparência, especialmente aqueles direcionados às meninas, gerou críticas de setores políticos e organizações ligadas à defesa dos direitos humanos.

Os opositores argumentam que a medida pode reforçar estereótipos de gênero e desviar a atenção de problemas estruturais da educação pública e de uma sociedade ainda dominada pelo controle patriarcal.

A senadora Ruth Luque, do partido Ahora Nación, questionou a prioridade estabelecida pelo governo.

“Agora a educação é medida pelo comprimento do cabelo, pela maquiagem ou pelas unhas pintadas?” indagou a parlamentar. E continuou:

“A educação pública precisa de uma política séria de convivência, proteção de direitos e medidas claras para evitar espaços de violência, e não de ter a disciplina medida pela aparência de seus alunos.”

Para os críticos, o enfrentamento da violência escolar exige políticas de prevenção, acompanhamento psicológico, formação de professores e mecanismos de proteção às vítimas.

Também há questionamentos sobre a eficácia de relacionar cortes de cabelo, maquiagem ou vestimentas à ocorrência de agressões e episódios de assédio, já que nenhuma violência deveria ser justificada pelo modo como a vítima se veste.

Caso de violência sexual intensificou debate no país

O endurecimento das normas ocorre em meio à repercussão de um grave episódio de violência sexual envolvendo estudantes de uma escola naval peruana.

Um adolescente de 16 anos foi vítima de estupro cometido, segundo as investigações, por outros estudantes dentro de um ônibus escolar.

Após o episódio, seis estudantes tiveram a prisão preventiva decretada pelo prazo de quatro meses.

O caso ampliou a pressão sobre as autoridades e colocou a segurança nas instituições de ensino entre os principais temas do debate público.

Dados do Ministério da Educação indicam que aproximadamente 12 mil casos de violência foram registrados em escolas peruanas nos últimos oito meses.

Diante desse cenário, Fujimori apresentou o novo código disciplinar como parte da resposta governamental à escalada de episódios de agressão e assédio.

“Sei que pode parecer bastante rigoroso, mas acreditem, isso será importante para toda a vida.”

A presidente sustenta que as regras contribuirão para formar estudantes mais disciplinados e melhorar o ambiente educacional.

A controvérsia, porém, permanece, pois restringir roupas e criticar a aparência dos jovens é uma forma de culpabilizar as vítimas — uma saia curta não pode jamais justificar um estupro. Enquanto o governo aposta no reforço da autoridade e em punitivismo, os críticos defendem que o combate à violência escolar deve priorizar medidas diretamente relacionadas à proteção e conscientização dos estudantes e de toda sociedade.

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