O aumento da violência e o uso recorrente de ônibus como barricadas por criminosos vêm gerando um efeito direto sobre os motoristas do transporte público no Rio. Segundo o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, cresce o número de trabalhadores que pedem transferência de linhas — especialmente as que circulam pela Avenida Brasil — ou optam por deixar a profissão.
Muitos alegam não suportar mais a insegurança diária, agravada pelos sequestros de coletivos levados à força para dentro de comunidades dominadas pelo tráfico. De acordo com dados fornecidos ao sindicato pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), apenas em janeiro deste ano foram registrados 563 roubos em ônibus, uma média de 18 casos por dia.
O número representa um aumento de aproximadamente 23% em relação ao mesmo período de 2024, quando houve 456 ocorrências. A maior parte dos assaltos acontece nos horários de pico — entre 4h30 e 7h e entre 17h e 21h30 — principalmente no trecho da Avenida Brasil que liga Campo Grande ao Caju.
Além dos assaltos, o presidente do sindicato chama atenção para os impactos psicológicos que a escalada da violência tem causado nos motoristas. Mais de 310 pedidos de afastamento por motivos de saúde emocional já foram encaminhados à entidade.
“Os trabalhadores do setor não suportam mais conviver diariamente com ônibus sequestrados, incendiados e até com itinerários alterados para atender ao tráfico. O estado perdeu totalmente o controle sobre o território. Não demora muito e será o tráfico que irá definir por onde os ônibus poderão ou não circular. O Rio de Janeiro virou uma piada no quesito segurança pública”, declarou o sindicalista.

Deputado alerta para tráfico de armas
O cenário também preocupa a Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O presidente da comissão, deputado Dionísio Lins (PP), apontou que a disputa entre facções rivais está fora de controle, o que vem impactando diretamente o sistema de transporte e a vida dos moradores das regiões afetadas.
Apesar dos esforços do governador Cláudio Castro, o parlamentar defende que a violência só será contida quando houver uma fiscalização mais rigorosa por parte do governo federal nas fronteiras, nos portos, aeroportos e estradas — considerados pontos-chave para a entrada de armamento pesado no estado.
“Esses marginais estão usando agora uma estratégia perversa: o sequestro de ônibus para servirem de barricadas nas vias públicas e comunidades, espalhando terror entre moradores e, principalmente, entre motoristas de coletivos. Isso também afeta suas famílias, que vivem em estado de apreensão. Sou morador da região há mais de 30 anos e aquelas cenas de guerra que estamos presenciando não podem mais se repetir. Os moradores não aguentam mais acordar com tiroteios e viver cercados por barricadas”, afirmou.

Atendimento psicológico dispara
O sindicato dos rodoviários também relatou um crescimento expressivo na procura por atendimento psicológico. O serviço, criado em junho do ano passado para dar suporte aos motoristas e seus familiares, precisou ser ampliado para atender à nova demanda.
“Ficamos surpresos e preocupados com o aumento no número de consultas. Quando iniciamos o serviço, atendíamos cerca de 25 pessoas por semana. Agora são cerca de 60 atendimentos semanais, entre motoristas e seus familiares. A agenda só cresce”, disse Sebastião José.
Diante do cenário, o sindicato reforça a necessidade urgente de medidas estruturais de segurança e apoio psicológico contínuo aos trabalhadores do setor, que vêm enfrentando níveis alarmantes de estresse, medo e exaustão.






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