Entre janeiro e ontem, 71 ônibus foram sequestrados no Rio para servir de barricadas contra a ação policial

Em três anos uma centena de rodoviários foi afastada para tratamento psicológico. No mesmo período, 300 pediram demissão por conta da violência urbana

Números do Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio (RioÔnibus) revelam que, desde maio do ano passado, 164 ônibus foram sequestrados por criminosos para serem usados como barricadas. Este ano, entre janeiro e anteontem, 71 coletivos foram alvo desse tipo de ataque durante operações policiais ou protestos em comunidades do Rio.

Em média, a cada dois dias de 2024, um ônibus foi retirado de circulação por criminosos para bloquear a passagem de viaturas policiais. Os locais com mais casos são a Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste, e os bairros de Cordovil e Ramos, na Zona Norte.

— Quando percebemos que a situação está tensa durante alguma operação, sentimos medo de ser barrados a qualquer momento. É o receio do imprevisto — relata um servidor público que estava a bordo do ônibus da linha 926 e que preferiu não se identificar.

Além de serem sequestrados, os ônibus podem acabar incendiados, como ocorreu com um veículo destruído na Estrada Benvindo de Novaes, em Vargem Pequena, no início do mês, após uma operação policial na comunidade Cesar Maia.

Os ataques quase sempre seguem o mesmo padrão: os veículos são capturados por bandidos, os passageiros são retirados e os motoristas são obrigados a estacionar os ônibus para bloquear as vias. Os traficantes geralmente jogam fora as chaves dos veículos para dificultar o trabalho da polícia. Segundo o RioÔnibus, cada vez que um coletivo é sequestrado e retirado de circulação, surge um “buraco” no itinerário.

— As outras pessoas, que não moram onde o sequestro ocorre, também sofrem com os atrasos, porque os ônibus ficam retidos até a situação se normalizar. Isso pode demorar uma, duas, três ou mais horas. Por exemplo, se uma linha tem dez ônibus rodando e três veículos são retidos, a oferta de serviço é reduzida em 30%. Os passageiros que dependem da linha ao longo de todo o trajeto são prejudicados e têm de esperar mais nos pontos — observa Paulo Valente, diretor de comunicação do RioÔnibus, lembrando que os trajetos dessas linhas precisam ser encurtados até a situação se estabilizar.

A Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) monitora os dados de operação de 443 linhas de ônibus da cidade, incluindo os impactos na operação. De janeiro até o último dia 15, a linha 875 (Tanque—Praça Seca) foi a que mais enfrentou bloqueios relacionados à segurança pública, ocorrendo em 94 dias este ano (equivalente a 69% do período). Outras linhas afetadas incluem aquelas que passam por Penha, Ramos, Jacarepaguá e Vila Aliança.

Na prática, a sensação de insegurança já impacta a demanda de passageiros. No pós-pandemia, esse foi o principal motivo para a diminuição no uso de ônibus na cidade do Rio, conforme apontou um estudo recente do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ.

— Quando analisamos por região, constatamos que as pessoas deixaram de usar o ônibus por diversos motivos: no Leste Fluminense (Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá), os passageiros abandonaram o ônibus por questões relacionadas ao tempo, enquanto na Baixada Fluminense, o problema foi o desemprego. Já na capital, as pessoas não se sentem seguras nos coletivos — explica a pesquisadora da Coppe, Cintia Machado de Oliveira.

Entre abril e maio deste ano, o problema se intensificou, com 33 ônibus sequestrados no período. No último dia 17, por exemplo, quatro coletivos foram retidos em barricadas, três deles na Vila Aliança e um próximo a uma comunidade de Realengo. A cena se repetiu no dia 21, durante uma operação policial na localidade conhecida como Cinco Bocas, em Cordovil, quando dois ônibus da linha 335 (Cordovil—Tiradentes) foram sequestrados por bandidos e usados como barricadas.

Em 3 de junho, outros cinco coletivos (das linhas 926 Senador Camará—Penha e 746 Jabour—Cascadura) foram sequestrados em Senador Camará para serem usados como barricadas. Na sexta-feira passada, após uma operação da Polícia Civil que resultou na morte do miliciano Rui Paulo Gonçalves Estevão, o Pipito, na Favela do Rodo, em Santa Cruz, três ônibus foram sequestrados e utilizados como barricadas na Avenida Antares, no mesmo bairro.

Trabalhando como motorista há quatro anos, um rodoviário concordou em falar sobre o problema, desde que não fosse identificado. Entre 23 de outubro de 2023 — quando Matheus da Silva Rezende, o Faustão, sobrinho do miliciano Zinho, foi morto em Santa Cruz — e março deste ano, o motorista teve um coletivo incendiado e outros três sequestrados. Ele chegou a ser transferido de linha entre os ataques, mas isso não evitou que o problema se repetisse.

— A primeira vez foi em outubro e me assustou muito. Homens com fuzis em duas motocicletas fecharam o ônibus. Só deu tempo de parar. Todos desceram correndo e o carro foi incendiado. Em outras oportunidades, já em outras linhas, tive o ônibus sequestrado três vezes. Dirigindo em ruas de comunidade, vemos fuzis a toda hora, parece até que estamos no Afeganistão. Minha vontade é ir embora do Rio, mas tenho filhos para criar e preciso trabalhar. Sou devoto de Nossa Senhora e, antes de sair para trabalhar, rezo e peço todos os dias para ela me proteger — relata ele.

O profissional não é o único. Segundo o RioÔnibus, em três anos uma centena de rodoviários foi afastada para passar por tratamento psicológico. No mesmo período, 300 pediram demissão por conta da violência urbana. Após os episódios, o Sindicato dos Rodoviários também começou a oferecer este mês atendimento psicológico aos motoristas.

Procurada, a Polícia Militar informa que realiza constantes estudos com o objetivo de readequar e realinhar ações de combate à criminalidade. “Em algumas comunidades, o ponto final de ônibus está localizado em seu interior, facilitando a ação de criminosos que obrigam os motoristas a atravessarem os veículos na pista para dificultar a atuação da polícia”, diz trecho da nota.

Com informações de O Globo.

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