Vídeo: Conheça Marisa Maiô, a estrela fictícia criada por IA que virou fenômeno na internet brasileira

Personagem criada por Raony Phillips com inteligência artificial do Google satiriza programas de auditório

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Uma apresentadora de meia-idade, vestida apenas com um maiô e cercada por uma plateia entusiasmada, virou o centro das atenções nas redes sociais brasileiras nos últimos dias. Mas Marisa Maiô, como é chamada, não é real.

A personagem é uma criação digital do roteirista e produtor Raony Phillips, que utilizou o recém-lançado Veo 3, ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pelo Google, para dar vida à apresentadora fictícia. Desde a primeira publicação, feita no dia 3 de junho, os vídeos vêm acumulando milhões de visualizações e gerando comentários sobre seus exageros, sátiras e realismo técnico surpreendente. A reportagem é exclusiva do Estadão.

O primeiro clipe publicado alcançou mais de 1,7 milhão de visualizações apenas no X (antigo Twitter), e o segundo vídeo ultrapassou 2,3 milhões de visualizações no Instagram. A repercussão colocou Marisa no centro de um fenômeno cultural digital. “Como pode um programa criado por IA ter mais carisma e audiência que todos os programas de auditório da atualidade?”, questionou um usuário na rede.

O conteúdo criado por Raony mistura sarcasmo e absurdo para parodiar programas sensacionalistas da TV brasileira. Em suas breves vinhetas, Marisa debocha de especialistas, humilha convidados e apresenta quadros como um “chá de revelação” de um defunto e um quiz que obriga uma mãe a doar o filho se errar uma pergunta. Justamente por não ser uma produção real, o programa rompe limites éticos e explora o exagero cômico com liberdade total.

Além do conteúdo irreverente, chama a atenção a qualidade técnica dos vídeos. As cenas trazem sincronia labial em português, múltiplos personagens, efeitos sonoros e cenários variados — um nível de realismo que até pouco tempo parecia distante da produção por IA. Tanto sucesso fez com que a personagem ganhasse até logotipo profissional, criado por Arthur Renovato, designer gráfico especializado em televisão, e animado pelo artista Inagê Kaluanã.

Apesar da viralização, Raony enfrenta limitações tecnológicas. A versão atual do Veo 3 permite apenas vídeos de até 8 segundos, o que obriga o criador a condensar os episódios em pílulas rápidas. Cada clipe consome cerca de 100 créditos de um pacote mensal de 12 mil, oferecido por US$ 250 (cerca de R$ 1.415). Repetições para corrigir erros — como falas em inglês ou troca de vozes entre personagens — consomem ainda mais recursos.

Raony não é novato no uso de tecnologia para criar conteúdo. Ele é o responsável por Girls in the House, websérie de humor produzida dentro do game The Sims, que conquistou mais de 2 milhões de inscritos no YouTube ao longo de uma década. Com a chegada de ferramentas de IA como o Veo 3, o criador passou a automatizar parte da produção, embora ainda dependa de seu talento para desenvolver roteiros, personagens e narrativas.

O jornalista e pesquisador Alexandre Inagaki ressalta que, mesmo com os avanços, a criatividade humana segue indispensável. “As animações tornaram-se mais complexas e detalhadas, mas sem roteiro e direção talentosa, pouca coisa se sustenta”, afirma. Para ele, a IA democratiza o acesso a ferramentas de produção audiovisual, mas ainda precisa da intuição e do humor que só um criador experiente pode oferecer.

Entretanto, o sucesso de Marisa Maiô levanta questionamentos importantes sobre os impactos da inteligência artificial na economia criativa. Um programa tradicional envolve equipes de roteiristas, operadores, iluminadores, maquiadores, figurinistas e artistas. Ao ser substituído por uma criação baseada em comandos de texto e algoritmos, perde-se não apenas o contato humano, mas também postos de trabalho e a distribuição de renda associada à produção cultural.

Especialistas alertam para o risco de concentração de lucros nas mãos de grandes empresas de tecnologia, especialmente quando ferramentas como o Veo 3 exigem assinaturas pagas em dólar. O dinheiro, que poderia circular entre profissionais da indústria local, tende a se concentrar nas contas das gigantes do Vale do Silício, ampliando a desigualdade econômica no setor.

O caso de Marisa Maiô é, portanto, mais do que uma febre de internet: é um símbolo de como a inteligência artificial está transformando o audiovisual. Se por um lado permite experimentações irreverentes e amplia o acesso à criação de conteúdo, por outro, pressiona a sustentabilidade do trabalho artístico coletivo. O riso, neste caso, vem acompanhado de uma reflexão urgente sobre o que será do futuro da cultura.

Veja o vídeo:

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