Um em cada quatro brasileiros não sabe que câncer pode ser prevenido com mudanças no estilo de vida, diz Inca

Pesquisa feita pelo Instituto Nacionade Câncer revela que fatores como sedentarismo, excesso de peso e alimentação inadequada ainda são subestimados pela população, apesar das evidências científicas

Apesar dos avanços das campanhas de conscientização e do crescente acesso à informação em saúde, uma parcela significativa da população brasileira ainda desconhece que o câncer pode ser prevenido. Um levantamento inédito divulgado nesta quarta-feira (3) e reportado pela Folha de S. Paulo mostra que 27% dos brasileiros não sabem que a doença está diretamente relacionada a fatores de risco modificáveis e que medidas preventivas podem reduzir significativamente a incidência de novos casos.

O dado integra o relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, elaborado pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer (Inca). A pesquisa ouviu 6.566 adultos em todos os estados brasileiros entre setembro e outubro de 2025.

Os resultados ganham relevância diante das projeções do Inca, que estimam cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028.

Conhecimento desigual sobre fatores de risco

O estudo revela que a população reconhece com facilidade alguns fatores tradicionalmente associados ao câncer, especialmente aqueles que foram alvo de campanhas públicas ao longo das últimas décadas.

O tabagismo é apontado como fator de risco por 90,5% dos entrevistados, enquanto a exposição excessiva ao sol é reconhecida por 88,3% das pessoas.

Por outro lado, fatores amplamente documentados pela literatura científica ainda são pouco associados ao desenvolvimento da doença. Apenas 27,5% dos participantes relacionam o consumo de carne vermelha ao aumento do risco de câncer. O sedentarismo é identificado por 48,3% dos entrevistados, enquanto o excesso de peso é citado por 54,1%.

Para especialistas, essa diferença reflete o impacto das históricas campanhas antitabagismo no país e evidencia a necessidade de ampliar a comunicação sobre outros determinantes da doença.

“O reconhecimento do cigarro como fator de risco é fruto de décadas de políticas públicas, campanhas massivas e medidas regulatórias”, afirma Luciana Grucci Maya Moreira, chefe da área técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Inca.

Segundo a pesquisadora, ampliar o conhecimento da população é importante, mas não suficiente para promover mudanças efetivas.

“Não basta a população saber. É preciso criar ambientes que permitam escolhas saudáveis. Isso envolve regulação, preço, tributação, rotulagem e políticas públicas intersetoriais.”

A falsa percepção sobre a genética

Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi a supervalorização do papel da herança genética no desenvolvimento do câncer.

De acordo com a pesquisa, 89,4% dos entrevistados acreditam que os fatores hereditários representam um dos principais riscos para a doença. No entanto, as evidências científicas apontam que a genética está relacionada a apenas 5% a 10% dos casos.

Por outro lado, mudanças comportamentais e fatores ambientais podem prevenir até 40% dos diagnósticos.

“Quando a genética é apresentada sem contexto, pode reforçar uma visão fatalista, como se o indivíduo estivesse condenado à doença”, diz Maya.

A avaliação é compartilhada por Luciana Sardinha, diretora-adjunta de doenças crônicas não transmissíveis da Vital Strategies.

“Se a pessoa acredita que o câncer é inevitável, perde-se o estímulo para mudar hábitos e cobrar políticas públicas.”

Alimentação e estilo de vida ainda geram dúvidas

A pesquisa também investigou a percepção dos brasileiros sobre hábitos alimentares e outros comportamentos associados ao câncer.

As bebidas alcoólicas são reconhecidas como fator de risco por 71,3% dos entrevistados. Os alimentos embutidos, como presunto, salsicha e peito de peru defumado, são citados por 70,7%. Já os produtos ultraprocessados, como macarrão instantâneo, salgadinhos industrializados e sorvetes, são associados à doença por 65,6%.

Outro dado considerado preocupante pelos pesquisadores é a crença de que suplementos vitamínicos ajudam a prevenir o câncer. Essa ideia é compartilhada por 61,3% dos participantes.

“A população foi exposta durante muito tempo à ideia de que suplementação significa promoção de saúde. Mas as evidências mostram que a prevenção está na alimentação baseada em comida de verdade, frutas, legumes, verduras e alimentos minimamente processados.”

Maya ressalta que suplementos devem ser utilizados apenas quando houver indicação clínica e acompanhamento profissional.

Desigualdade influencia prevenção

O levantamento mostra ainda que renda e escolaridade têm influência direta tanto na percepção dos riscos quanto na adoção de hábitos mais saudáveis.

Entre os entrevistados com renda mensal de até R$ 2 mil, apenas 45,5% reconhecem o sedentarismo como fator de risco para o câncer. Entre aqueles com renda superior a R$ 10 mil, esse percentual sobe para 59,6%.

A diferença também aparece nas tentativas de combater o excesso de peso. Entre os participantes de menor renda que se consideram acima do peso ideal, apenas 22,9% afirmam estar adotando medidas para mudar essa condição. Nas faixas de renda mais elevadas, esse índice supera 40%.

Para Luciana Sardinha, o debate sobre prevenção não pode ignorar as condições estruturais em que vivem milhões de brasileiros.

“A pessoa não escolhe ser sedentária se mora em um bairro sem praça, sem calçada, sem segurança. Assim como não escolhe uma alimentação inadequada quando o ultraprocessado custa menos que alimentos frescos.”

Ela destaca ainda que o câncer permanece pouco visível em comunidades mais vulneráveis.

“Muitas pessoas morrem sem diagnóstico. Diferentemente de hipertensão ou diabetes, que estão mais presentes no cotidiano, o câncer depende de acesso ao sistema de saúde para ser identificado.”

Jovens preocupam especialistas

Os dados relacionados aos mais jovens também acenderam um sinal de alerta.

Entre os entrevistados com até 24 anos, 32,3% afirmam consumir alimentos ultraprocessados sem intenção de reduzir o consumo. O mesmo comportamento é observado em relação às bebidas açucaradas por 24,4% dos participantes e à carne vermelha por 49,1%.

Segundo Maya, a questão vai além da simples conscientização.

“O jovem está inserido em um contexto de oferta abundante, baixo preço e marketing extremamente direcionado. É um ambiente obesogênico.”

Ela também chama atenção para a influência da publicidade voltada ao público jovem.

“Enquanto o poder público ainda tenta construir campanhas eficazes, a indústria fala diretamente com esse público, usando linguagem, influenciadores e estratégias de pertencimento.”

Debate sobre prevenção precisa avançar

As pesquisadoras avaliam que o país ainda enfrenta desafios regulatórios para reduzir fatores de risco associados ao câncer. Embora reconheçam avanços recentes, como mudanças nas regras de rotulagem nutricional, consideram que medidas mais abrangentes ainda são necessárias.

Maya aponta que algumas empresas conseguem adaptar produtos para evitar advertências mais severas nas embalagens.

“A indústria consegue contornar a norma. O consumidor continua exposto sem informação clara.”

Para as especialistas, o principal recado do levantamento é que a prevenção do câncer deve ser incorporada de forma mais ampla às políticas públicas e ao debate sobre saúde.

“Prevenir câncer não é apenas parar de fumar ou fazer mamografia”, diz Maya. “É reconhecer que alimentação, atividade física, álcool, peso corporal e ambiente regulatório também determinam quem adoece e quem poderia não adoecer.”

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