Trump reforça Lula ao atacar economia brasileira, aponta ‘Financial Times’

Em artigo incisivo, colunista britânico critica sanções dos EUA e alerta para efeito contrário no apoio a Bolsonaro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode estar, sem querer, fortalecendo seu principal adversário ideológico na América do Sul: Luiz Inácio Lula da Silva. A análise é do jornalista Edward Luce, editor do Financial Times, um dos jornais mais influentes do Reino Unido, em artigo publicado na última terça-feira (22). Intitulado “Trump, imperador do Brasil”, o texto critica duramente as tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros e a interferência política norte-americana no processo judicial contra Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).

Luce enxerga uma estratégia equivocada de Trump. Para o colunista, a retaliação econômica — que incluiu uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras — e a revogação de vistos de ministros do STF pelo secretário de Estado, Marco Rubio, têm alto potencial de “efeito bumerangue”. Segundo ele, tais medidas podem unir os brasileiros em torno de Lula e do Judiciário nacional. “Poucas coisas unem os eleitores em torno da bandeira nacional mais rápido do que um ataque de uma superpotência à sua economia”, escreveu.

Críticas à ingerência nos processos judiciais

Edward Luce também condenou o uso de sanções como forma de pressionar o Judiciário brasileiro. Para ele, ao tentar proteger Bolsonaro, Trump está desrespeitando a autonomia de instituições democráticas de um país soberano. “Agora, [Rubio] está punindo o sistema jurídico de uma democracia irmã por aplicar a lei”, criticou, ao comentar a decisão do governo americano de suspender os vistos de oito dos onze ministros do STF.

O jornalista classificou a política externa do republicano como movida por um impulso “imperial”, semelhante ao que já causou desgastes diplomáticos com países como Canadá e Austrália. No caso brasileiro, diz Luce, o objetivo de Trump — ajudar Bolsonaro — pode sair pela culatra, enfraquecendo o ex-presidente e reforçando o prestígio das instituições nacionais.

Comparação entre Trump e Bolsonaro

No artigo, Luce também traça paralelos entre Trump e Bolsonaro, apontando similaridades nos comportamentos autoritários e nas tentativas de desestabilizar os sistemas eleitorais de seus países. A diferença, segundo ele, é que “Bolsonaro está sendo responsabilizado”, ao contrário de Trump, que mesmo indiciado por sua atuação no ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, ainda não foi condenado.

Já no Brasil, a Procuradoria-Geral da República (PGR) acusa Bolsonaro de comandar uma tentativa de golpe que teve seu ápice na invasão dos prédios dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. A denúncia inclui oito nomes apontados como núcleo central da articulação golpista, e sugere que Bolsonaro tentou obstruir o andamento do processo com ações que afetaram diretamente as relações econômicas entre os dois países.

Para o colunista do Financial Times, o contraste institucional entre os dois países é evidente. “Se hoje existe algum farol de democracia liberal no hemisfério de Marco Rubio, ele vem de Brasília e Ottawa. Por ora, Washington está fora”, concluiu.

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