Lula critica tarifaço em artigo no Washington Post e manda recado a Trump: ‘Ninguém nos derrotará com mentiras’

Presidente pede retomada do diálogo entre Brasil e Estados Unidos, rebate acusações do governo Trump e afirma que questões internas serão decididas pelos brasileiros

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo um artigo no jornal estadunidense The Washington Post em que faz duras críticas à nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e defende a retomada do diálogo diplomático entre os dois países. No texto, o chefe do Executivo também reforça o discurso de defesa da soberania nacional, critica o que considera tentativas de interferência externa e volta a relacionar o tema ao processo eleitoral brasileiro.

A publicação ocorre em um momento de crescente tensão diplomática entre Brasília e Washington. No sábado (26), o Ministério das Relações Exteriores confirmou a negativa de vistos para dois altos funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, após avaliação de que a visita poderia ocorrer em um contexto sensível para o processo eleitoral brasileiro.

Ao longo do artigo, Lula afirma que o Brasil continuará aberto ao diálogo, mas ressalta que decisões sobre a política interna e as eleições pertencem exclusivamente aos brasileiros.

“O destino do Brasil cabe exclusivamente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência”, escreveu o presidente.

Lula publica texto com críticas a tarifaço no jornal estadunidense Washignton Post. — Foto: Reprodução

Lula atribui motivação política às tarifas

No texto publicado pelo The Washington Post, Lula relembra que a primeira rodada de tarifas anunciada pelo presidente Donald Trump, ainda no ano passado, teve, segundo ele, motivação política explícita.

O presidente brasileiro afirma que, à época, Trump relacionou a medida à situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. Lula também destaca que, após negociações entre os dois governos, as primeiras sobretaxas acabaram sendo revertidas.

Entretanto, segundo o presidente, a nova decisão da Casa Branca ignorou meses de negociações diplomáticas e técnicas entre os dois países.

“No entanto, neste mês, ignorando dezenas de reuniões entre nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil, variando de 12,5% a 37,5%”, afirma Lula.

O presidente acrescenta que, com as novas alíquotas, Brasil e Turquia passaram a ocupar a segunda posição entre os países mais atingidos pelas tarifas impostas pelos EUA. Ele também lembra que os Estados Unidos mantêm superávit comercial na relação bilateral com o Brasil.

Presidente diz que medidas prejudicam consumidores dos EUA

Ao analisar os impactos econômicos das tarifas, Lula sustenta que a medida adotada pelo governo estadunidense não prejudicará apenas empresas brasileiras.

Segundo ele, consumidores e indústrias dos próprios Estados Unidos poderão ser afetados pela interrupção de cadeias produtivas que dependem de insumos brasileiros. O presidente afirma ainda que o Brasil buscará ampliar relações comerciais com outros parceiros internacionais caso as barreiras comerciais permaneçam.

No artigo, Lula também rebate críticas feitas por autoridades dos EUA sobre liberdade de expressão, redes sociais e o sistema de pagamentos brasileiro.

“A liberdade de expressão não é um salvo-conduto para atividades criminosas em plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas da tecnologia. Nosso sistema de pagamentos, o Pix, não discrimina empresas dos EUA e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital”, escreve.

O presidente também destaca que, desde o início de seu terceiro mandato, em 2023, o governo intensificou o combate aos crimes ambientais.

Defesa da cooperação sem interferência externa

Apesar das críticas às decisões da Casa Branca, Lula afirma que o Brasil continua interessado em manter relações de cooperação com os Estados Unidos.

Segundo o presidente, áreas como investimentos, comércio e combate ao crime organizado podem servir como base para uma agenda positiva entre os dois países.

No entanto, ele faz ressalvas quanto ao que considera tentativas de utilizar a relação bilateral para influenciar o cenário político interno brasileiro.

“Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em prol de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos”, afirma.

Em outro trecho, Lula reforça que o Brasil não aceitará condicionantes políticas em sua política externa.

“Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não prosperarão. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará com mentiras”, acrescenta.

Publicação ocorre após tensão diplomática

A divulgação do artigo acontece um dia após o Itamaraty negar vistos a Riley M. Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado dos EUA, e a Samuel D. Samson, secretário-assistente adjunto do mesmo órgão.

Segundo avaliação interna do governo brasileiro, o pedido de visto, oficialmente destinado a discutir liberdade de expressão no contexto das eleições, ocorreu em um momento considerado delicado.

A decisão levou em conta o fato de o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ter feito novos questionamentos ao sistema eletrônico de votação, inclusive durante encontro com representantes diplomáticos. Integrantes do governo avaliaram existir risco de instrumentalização política da visita em pleno período pré-eleitoral.

Soberania volta ao centro do discurso do governo

Ao concluir o artigo, Lula reafirma que o Brasil continuará mantendo relações diplomáticas com todos os países que respeitem sua autonomia.

Segundo o presidente, a defesa da soberania nacional seguirá como um dos princípios centrais da política externa brasileira.

A estratégia também possui dimensão política interna. No ano passado, durante a primeira crise provocada pelo chamado “tarifaço” anunciado por Donald Trump, o discurso em defesa da soberania nacional foi apontado por aliados do governo como um dos fatores que contribuíram para a recuperação dos índices de aprovação da gestão federal.

Agora, em meio ao novo impasse comercial com os Estados Unidos e às discussões sobre o processo eleitoral brasileiro, o Palácio do Planalto volta a apostar na mesma narrativa para responder às críticas vindas do exterior e reforçar sua posição diplomática.

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