Parece até roteiro de filme de James Bond. No início dos anos 1950, em uma Alemanha ainda ocupada pelas potências aliadas e que se reconstruía da tragédia da Segunda Guerra Mundial, um militar carioca fechava, em segredo, a compra de três máquinas capazes de enriquecer urânio. A encomenda foi descoberta pelos serviços de segurança dos Estados Unidos em menos de 24 horas e apreendida antes de embarcar rumo ao Brasil. Seu nome era Álvaro Alberto da Mota e Silva, e esta é a história de como ele quase deu ao Brasil um lugar na mesa nuclear do mundo, e de como o mundo, ou quem pensa que manda nele, gentilmente, puxou a cadeira antes que ele se sentasse. 

Álvaro não era apenas um militar de nome comprido. Foi cientista, professor, pesquisador de explosivos, presidente da Academia Brasileira de Ciências, representante brasileiro na Comissão de Energia Atômica da ONU e idealizador do Conselho Nacional de Pesquisas, o CNPq. Se único defeito era ser um visionário num país que odeia visionários. 

Para ele, nenhum país fica rico primeiro para fazer ciência depois, nem se torna grande pedindo licença aos outros. Sua saga atravessou a corrida nuclear, acordos de troca de terras raras por trigo, óbvias desconfianças norte-americanas, uma demissão cercada de controvérsias, uma CPI e três máquinas que acabaram literalmente emparedadas sob camadas de concreto naquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil. Aperte os cintos, porque a odisseia atômica brasileira é mais saborosa do que qualquer obra de ficção. 

Laboratório do Centro Industrial Nuclear de Aramar (SP) (Crédito: reprodução)

Quem foi o Almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva? 

Álvaro Alberto da Mota e Silva nasceu no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1889 e faleceu na mesma cidade em 31 de janeiro de 1976. Foi vice-almirante da Marinha do Brasil, engenheiro geógrafo formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro e catedrático do Departamento de Físico-Química da Escola Naval. Além da carreira militar, foi inventor de explosivos e de tintas anti-incrustantes polivalentes, usadas para impedir a fixação de organismos no casco dos navios.  

Ao longo da carreira, acumulou títulos que hoje soariam como excesso de currículo em qualquer processo seletivo. Sua trajetória científica inclui a presidência da Academia Brasileira de Ciências em dois mandatos (1935-1937 e 1949-1951) e a representação do Brasil na Comissão de Energia Atômica da Organização das Nações Unidas. Foi o idealizador e primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, o atual CNPq, criado em 1951. Sua principal contribuição, no entanto, foi a implementação do programa nuclear brasileiro, uma visão que acabaria confrontando a geopolítica da Guerra Fria. 

Álvaro Alberto da Mota e Silva: um visionário em um país que odeia visionários (Crédito: Reprodução)

Qual foi a polêmica decisão da Comissão de Energia Atômica dos EUA em 1946? 

Em 1946, os Estados Unidos propuseram nas Nações Unidas o chamado Plano Baruch, um tratado internacional que criaria uma autoridade mundial para gerir todas as reservas de urânio do planeta. Na prática, o plano assegurava aos norte-americanos o monopólio da tecnologia nuclear e das matérias-primas no mundo ocidental. O Brasil, representado pelo almirante, e a União Soviética foram os únicos países a se opor ao plano. 

Foi nesse momento que Álvaro Alberto propôs o Princípio das Compensações Específicas: o Brasil forneceria matéria-prima nuclear em troca de preço justo e da prioridade na instalação de reatores nucleares em seu território. A proposta era uma tentativa de romper com o modelo colonial de exportação de minérios brutos, mas a posição isolada do Brasil na ONU revelava o tamanho do desafio. 

Como assim? 

A pressão norte-americana era imensa. Em 1950, o Brasil chegou a ser convocado a enviar tropas para a Guerra da Coreia e, para não fazê-lo, voltou a exportar urânio aos EUA. A política de “compensações específicas” idealizada por Álvaro Alberto acabou sendo atropelada pela realpolitik. 

E ainda fica pior. Em 1954, o Brasil, sob a presidência de Café Filho, trocou dez mil toneladas de terras raras por cem mil toneladas de trigo dos EUA. Sim, isso mesmo que você leu. E talvez não fosse nem de bom tom lembrar disso para não dar ideias a alguns entreguistas. O país já havia firmado acordos com os norte-americanos ainda nos anos 1940 para a prospecção de recursos minerais. O almirante, porém, defendia exatamente o oposto: que o Brasil não exportasse terras raras sem contrapartida tecnológica. 

O presidente Café Filho, que trocou terras raras por milho e atrasou o desenvolvimento da ciência brasileira (Crédito: Reprodução)

Como foi a criação do CNPq, em 1951? 

A criação do Conselho Nacional de Pesquisas remonta a 1948, quando Álvaro Alberto, de volta ao Brasil após seu mandato na Comissão de Energia Atômica da ONU, assumiu a chefia da comissão encarregada pelo presidente Eurico Gaspar Dutra de redigir o anteprojeto de criação do órgão. O projeto tramitou por três anos até ser sancionado em 1951, já sob o segundo governo de Getúlio Vargas, criando o Conselho Nacional de Pesquisas, hoje CNPq, com Álvaro como primeiro presidente, cargo que ocupou até 1955. 

A articulação para a aprovação do CNPq contou com apoio de um grupo relevante de militares, cientistas e professores ligados à Academia Brasileira de Ciências, além do industrial e deputado mineiro Euvaldo Lodi, representante de um segmento mais progressista do empresariado da época. 

Sob a presidência de Álvaro Alberto, o CNPq não se limitou à questão nuclear: também esteve por trás da criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), em 1949, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e do Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA), ambos em 1952. 

Sede do CNPq em Brasília (Crédito: Reprodução)

O Brasil vai à luta, ou melhor à Alemanha 

Aqui a história ganha contornos hollywoodianos. Diante da resistência norte-americana em aceitar os termos que o CNPq impunha à exploração de terras raras, o Brasil passou a diversificar seus contatos internacionais, e Álvaro Alberto obteve, por meio desses entendimentos secretos, a compra de três ultracentrífugas destinadas à produção de urânio enriquecido, além da formação de uma comissão de cientistas e industriais alemães da Universidade de Bonn para estudar a hipótese de fabricar esses aparelhos aqui em solo nacional. 

O acordo foi fechado por 80 mil dólares, em novembro de 1953. Com o projeto tratado como segredo de Estado, um grupo restrito de brasileiros e alemães passou a acompanhar a operação. Químicos brasileiros foram enviados à Europa para treinamento no manuseio de gases pesados, enquanto em Petrópolis, o governo do estado já havia escolhido um espaço para a instalação do laboratório. 

Mas a inteligência norte-americana estava alerta. E o vazamento da informação provocou a mobilização de forças de segurança estacionadas na Alemanha, que impediram o embarque dos equipamentos. As máquinas foram apreendidas nas cidades de Göttingen e Hamburgo pelo Military Board of Security dos Estados Unidos, cerca de 24 horas antes do embarque programado rumo ao Brasil. Elas permaneceriam retidas na Alemanha até o fim da ocupação no país, em 1956, quando finalmente foram enviadas ao Brasil. 

Uma vez em território nacional, os equipamentos foram levados para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, onde chegaram a produzir urânio puro. Depois desse uso inicial, no entanto, as máquinas ficaram efetivamente abandonadas e foram, ao pé da letra, emparedadas sob camadas de concreto durante uma reforma nas instalações do próprio IPT.

Campus da Universidade de Bonn (Crédito: Reprodução)

Mas o que é uma ultracentrífuga? 

Um equipamento de altíssima rotação (que pode ultrapassar dezenas de milhares de rotações por minuto) projetado para separar compostos químicos de massas ligeiramente diferentes por força centrífuga. No contexto nuclear, ela serve para processar o gás hexafluoreto de urânio e separar o isótopo leve (Urânio-235) do isótopo pesado (Urânio-238), elevando o teor do isótopo físsil (o famoso processo conhecido como enriquecimento de urânio). 

A tecnologia de ultracentrifugação a gás para enriquecimento foi desenvolvida principalmente durante e após a Segunda Guerra Mundial por pesquisadores alemães e austríacos, sob a liderança marcante do físico e engenheiro Paul Harteck e, posteriormente, desenvolvida e aprimorada por Gernot Zippe. 

Essa tecnologia era mais avançada que a dos norte-americanos? 

Não era necessariamente mais potente no curto prazo, mas era conceitualmente muito mais moderna, eficiente e promissora. Os EUA dependiam do método de difusão gasosa, que exigia instalações gigantescas e consumia quantidades colossais de energia elétrica. 

O método mecânico das ultracentrífugas alemãs consumia uma fração mínima dessa energia e requeria instalações muito menores. Décadas depois, a ultracentrifugação tornou-se o padrão mundial absoluto para o enriquecimento de urânio. 

Atualmente, apenas 12 países no mundo dominam o ciclo completo de enriquecimento de urânio em escala industrial ou de pesquisa avançada. Entre eles estão Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China, Alemanha, Holanda, Japão, Brasil, Irã, Paquistão e Índia. 

Pastilhas de urânio enriquecido produzidas no Brasil (Crédito: Reprodução)

Por que o almirante foi demitido do CNPq em 1955? 

O episódio das ultracentrífugas apreendidas na Alemanha ganhou enorme repercussão no Brasil e alimentou um intenso debate parlamentar, no qual surgiram denúncias de interferência estrangeira nos negócios internos do país e até acusações de que funcionários do Estado teriam sido subornados para facilitar acordos contrários aos interesses nacionais. Pois é. 

Em 2 de março de 1955, em pleno curso dessa crise, Álvaro pediu demissão da presidência do CNPq. Sua saída de Álvaro Alberto precisa ser lida à luz da instabilidade política que marcou o breve governo de Café Filho, menos disposto do que Vargas a bancar publicamente uma política nuclear de confronto com os Estados Unidos. 

O almirante sofreu derrotas pessoais significativas durante a administração Café Filho, entre 1954 e 1955, período em que, além de ser afastado do CNPq, viu sua política nuclear ser barrada pelo próprio governo, que ainda assinaria com os EUA o programa “Átomos para a Paz”, que estabeleceu o pano de fundo ideológico para a criação da Agência Internacional de Energia Atômica e do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, mas também deu cobertura política ao desenvolvimento de armas nucleares nos EUA e o pano de fundo para a corrida armamentista da Guerra Fria. 

A vitória na derrota 

Em 10 de fevereiro de 1956, a Câmara dos Deputados instaurou uma CPI para investigar o problema da energia atômica no Brasil. A primeira sessão foi em 12 de abril de 1956, justamente com o depoimento do já ex-presidente do CNPq, Álvaro Alberto. 

Os trabalhos da comissão se arrastaram por mais de dois anos e trataram de temas como a demissão de Álvaro Alberto do CNPq, a exportação de minérios por empresas privadas e documentos anônimos que denunciavam pressão americana sobre a política nuclear brasileira 

O relatório final, assinado pelo deputado Dagoberto Salles, acabou por validar boa parte das teses defendidas por Álvaro Alberto, o que ajuda a explicar por que o episódio ficou conhecido como uma “vitória na derrota”: o almirante perdeu o cargo, mas viu sua política ser reconhecida pelo Congresso pouco tempo depois. 

No fim dos anos 1970 a Marinha do Brasil finalmente desenvolveu a tecnologia de enriquecimento de urânio? 

Em 1979, durante o regime militar, a Marinha do Brasil iniciou o chamado Programa Paralelo Nuclear, voltado à autonomia tecnológica no campo da energia atômica. O objetivo era desenvolver internamente a tecnologia de separação isotópica por ultracentrifugação. A Marinha assumiu a liderança do projeto, em parceria com o IPEN e o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP). 

O desenvolvimento da ultracentrífuga brasileira ocorreu entre 1979 e 2004. A equipe foi liderada pelo físico Ronaldo Schaeffer e pelo engenheiro Othon Luiz Pinheiro da Silva. O Brasil desenvolveu rotores de liga metálica especial e sistemas de levitação magnética, criando um modelo vertical, compacto e modular, diferente dos estrangeiros. O país finalmente dominou o ciclo completo do urânio _ do minério à geração de energia elétrica _ exatamente como Álvaro Alberto havia sonhado nos anos 1950. 

E nessa vai da valsa, o Brasil perdeu 30 anos de desenvolvimento tecnológico. 

Detalhes do primeiro submarino nuclear brasileiro (Crédito: Reprodução)

O Almirante recebeu alguma homenagem por seus serviços? 

Sim. Álvaro Alberto é reconhecido como o Patrono da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. A Marinha do Brasil batizou um navio oceanográfico com seu nome — o NOc Almirante Álvaro Alberto (H-43). O complexo nuclear de Angra dos Reis também leva seu nome. Há ainda o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, concedido pelo governo federal a pesquisadores de destaque. E em 2026, a Marinha realizou uma cerimônia em homenagem aos 50 anos de seu falecimento, no Museu Catavento, em São Paulo. 

Mas o ponto mais importante das homenagens será o lançamento do submarino nuclear brasileiro Álvaro Alberto, colocará o Brasil em um seleto grupo de apenas seis nações que dominam a tecnologia de propulsão nuclear naval. 

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