Em Taguatinga, no Distrito Federal, um Boeing 767 da antiga Transbrasil repousa há anos em um terreno próximo ao Parque Ecológico Saburo Onoyama, transformado em uma das cenas mais improváveis da paisagem urbana brasiliense. O avião, que um dia cruzou rotas internacionais, foi adquirido por um grupo empresarial local, transportado por dezenas de quilômetros desde o Aeroporto Internacional de Brasília e instalado sobre estruturas elevadas, onde deveria se tornar um complexo temático com restaurante, lojas e atrações culturais. Mas, como diz Caetano, aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína. O projeto nunca foi concluído, e o gigante acabou convertido em monumento involuntário da persistência, da burocracia e dos sonhos que pousam antes da hora.
A Transbrasil foi uma companhia que colecionava recordes de pontualidade e um arco-íris pintado na cauda de seus aviões, que quebrou em 2001 depois de décadas de percalços financeiros e uma gestão que, até hoje, ainda rende processos judiciais, tendo sido, durante a maior parte de sua história, controlada pelo empresário catarinense Omar Fontana. Gozadores de plantão até hoje imaginam como seria a relação do governo Bolsonaro com uma empresa chamada “Trans”.
O que era para ser um restaurante voador nunca serviu um prato sequer. O que era para ser um marco gastronômico virou um marco de resistência ao mato alto e, ocasionalmente, à pichação. E é essa contradição, entre o sonho aeronáutico e a realidade do terreno baldio, que esta história tenta desmontar, peça por peça, como aliás já fizeram com o coitado do próprio avião.

Qual é a história da Transbrasil?
A Transbrasil nasceu em Santa Catarina, em 1955, como uma costela da Sadia. Isso mesmo. Foi o empresário Omar Fontana, filho do fundador da Sadia, Attilio Santana, quem teve a ideia de fretar um avião parado havia dias em um aeroporto para transportar produtos da empresa de Santa Catarina até São Paulo.
Dali nasceu a Sadia S/A Transportes Aéreos, com apenas três Douglas DC-3 e dois Curtiss C-46 e 35 funcionários. Em 1972, a empresa passou a se chamar Transbrasil e iniciou uma fase de forte expansão, tornando-se uma das grandes companhias nacionais ao lado de Varig e VASP.
Durante as décadas de 1970, 1980 e parte da década de 1990, a Transbrasil operou rotas nacionais e internacionais, utilizando aeronaves como Boeing 727, Boeing 767 e outros modelos de grande porte. A empresa destacou-se pela identidade visual marcante, pelos serviços considerados sofisticados para a época e pela forte presença no mercado brasileiro. Ela chegou a se tornar a segunda maior voadora do país.
Mas o sucesso comercial nunca resolveu os problemas de gestão: em 1987 o governo chegou a intervir na empresa, e a Transbrasil jamais se recuperou totalmente, sucumbindo em dezembro de 2001, quando a Shell se recusou a fornecer mais combustível sem pagamento e a frota ficou definitivamente em solo. A falência foi decretada em 2003, a pedido dos credores.

Quem comprou o Boeing que está hoje perto do Parque Saburo Onayama?
O avião de matrícula PT-TAC, um dos Boeing 767-200 que operou na frota da Transbrasil a partir de 1983, ficou abandonado no antigo hangar da companhia no Aeroporto de Brasília por mais de uma década após a falência. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça decidiu leiloar três aeronaves da Transbrasil que estavam largadas havia anos em aeroportos do país, entre elas a que hoje está em Taguatinga, vendida por cerca de R$ 100 mil para um grupo de empresários que pretendia usá-lo como um restaurante temático. Um projeto que jamais saiu do papel.
Os compradores foram os empresários Almir Lopes, Charles Maryoshi e João Batista de Souza, trio responsável por levar o avião ao terreno em 2014 com a intenção de abrir um restaurante. Atualmente, o avião pertence à Transplantas Imobiliária, comandada pelos empresários Leonardo e Charles Tinen, que dizem ter arrematado a aeronave em leilão em 2012 e a transferido para o terreno dois anos depois. A empresa opera megalojas de floricultura no Distrito Federal e mantém o avião no jardim de uma delas.
Como e ele foi transportado para onde está hoje?
Foi complexo e nada barato em esforço logístico. A distância rodoviária entre o aeroporto Internacional de Brasília e o terreno em Taguatinga é de aproximadamente 25 a 28 quilômetros. Embora pareça um percurso curto para quem viaja de carro, cobrir esse trecho transportando as dimensões e o peso da fuselagem de um Boeing representou um feito logístico extraordinário.
Em mais uma grande atuação do jeitinho brasileiro, para baratear os custos, a carcaça de 82 toneladas foi fatiada, e não desmontada da maneira tradicional. Reportagens especializadas em aviação notaram que ainda é possível ver na fuselagem os reforços soldados usados para fixar as partes cortadas depois desse processo pouco ortodoxo de desmonte.
O deslocamento até o terreno definitivo exigiu treze viagens de carreta, que transitaram em velocidade reduzida durante madrugadas, sob escolta de batedores e com apoio de equipes de concessionárias de energia para erguer a fiação elétrica ao longo do trajeto. Ao chegar ao terreno em Taguatinga, guindastes de alta capacidade remontaram a estrutura sobre o solo.

O que os novos donos queriam fazer com o avião?
A intenção inicial dos empresários era novamente de transformar o Boeing em um restaurante temático, que atrairia visitantes e movimentaria a região. Na época, um contrato de aluguel foi firmado com um restauranteur interessado no negócio, mas a sociedade acabou sendo desfeita em 2019 devido a problemas financeiros.
Desde então, a aeronave permaneceu abandonada, sofrendo com a ação do tempo, vandalismo e oxidação. Os proprietários, no entanto, não descartam buscar novos parceiros para dar um destino ao avião no futuro. “Nós ainda temos a ideia de tornar o local mais comercial, mas ainda não temos nada fechado”, afirmou Leonardo Tinen.
Ele foi mesmo colocado sobre pilotis para simular que estava voando?
Sim, e essa é talvez a decisão mais poeticamente exagerada de toda a saga. A estrutura foi montada sobre pilotis justamente para criar a sensação de que o avião estaria suspenso, como se estivesse em pleno voo, ainda que fixado permanentemente ao solo de um terreno comercial.
É um detalhe que resume bem o espírito do projeto original: mesmo sem condições de voar novamente, o avião deveria ao menos parecer que estava prestes a decolar, um gesto cenográfico tão ambicioso quanto o restaurante que nunca abriu as portas ao seu redor. Sobrou a ilusão da suspensão no ar; faltou, como em quase tudo nessa história, um plano de negócios sólido que justificasse toda essa encenação.

Restaurações com muito marketing
Em 2025, o empresário Ricardo Farias, dono da Autotek, uma empresa especializada em estética automotiva, passava pelo local quando viu o avião pichado e teve a ideia de lavá-lo. Na sequência ele promoveu um encontro que reuniu diversos profissionais especialistas em polimento, limpeza técnica e detalhamento de veículos que acabou batizado pela imprensa de “A Batalha dos Detalhes”.
O resultado desse encontro foi o planejamento de uma grande ação publicitária e comunitária realizada em setembro de 2025 para revitalizar voluntariamente a fuselagem do Boeing, que foi batizada de “O Legado do Brilho”. Fruto da parceria entre a AutoTek e a Transplantas, o projeto mobilizou cerca de 30 profissionais e influenciadores do setor de estética automotiva vindos de várias partes do país.
Durante o mutirão, foram utilizados aproximadamente 10 mil litros de água e produtos especiais para remover anos de pichações, poeira e fuligem acumulados na carcaça de alumínio. A iniciativa buscou resgatar o valor estético do monumento e afastar a percepção de total abandono do local.

Como o avião está hoje?
Atualmente, o Boeing 767 ostenta uma fuselagem limpa e preservada em relação aos anos anteriores, graças aos trabalhos de revitalização recente. No entanto, por dentro, a estrutura física permanece praticamente vazia, apresentando desgaste nos revestimentos e a ausência dos assentos originais e de motores.
Mesmo sem ter virado o restaurante dos sonhos, o gigante metálico virou um monumento informal de Taguatinga. O local atrai de maneira constante ciclistas, curiosos e fotógrafos amadores que param na margem da avenida para registrar a curiosa cena de um jato comercial estacionado no meio da paisagem urbana.


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