Sem legislação clara, cogumelos alucinógenos ganham espaço nas ruas do Rio

Venda de fungos psicodélicos cresce em bares, redes sociais e até nas ruas da cidade, impulsionada por lacuna na legislação e pelo interesse científico em seus efeitos

O consumo de cogumelos alucinógenos vem ganhando visibilidade no Rio de Janeiro, impulsionado por vendas em redes sociais, sites de produtos naturais e até nas ruas da cidade. A substância psilocibina, presente em espécies como o Psilocybe cubensis, tornou-se popular entre consumidores que buscam experiências psicodélicas e, ao mesmo tempo, acreditam estar diante de um produto de legalidade ambígua.

A comercialização costuma vir acompanhada de um aviso nas embalagens: “Produto destinado a pesquisa e contraindicado ao consumo humano”. Apesar do alerta, usuários relatam consumir o produto com frequência. O analista de pesquisa Mathias Ribeiro, de 33 anos, afirma que passou a utilizar os chamados “cogumelos mágicos” após deixar de consumir maconha.

Segundo ele, a decisão também foi motivada pela percepção de que o produto não estaria diretamente ligado ao tráfico de drogas. O consumo, relata, também aparece em viagens e encontros sociais, com grupos inteiros experimentando os fungos psicodélicos.

Venda nas ruas expõe lacuna na legislação

Em áreas movimentadas da cidade, como parques e regiões boêmias, anúncios improvisados chegaram a oferecer cogumelos alucinógenos ao público. No Parque Guinle, em Laranjeiras, na Zona Sul, um cartaz chegou a divulgar a venda do produto, enquanto durante o carnaval ambulantes também passaram a oferecer os fungos ao lado de bebidas e doces alcoólicos.

O aumento da circulação ocorre em meio a uma lacuna jurídica que gera diferentes interpretações sobre a legalidade do produto. A psilocibina, substância responsável pelo efeito alucinógeno, está na lista de psicotrópicos proibidos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

No entanto, as espécies de cogumelos que contêm naturalmente essa substância não aparecem explicitamente na lista de plantas e fungos proibidos, o que abre espaço para interpretações divergentes sobre o porte ou a venda do produto em estado natural.

Especialistas alertam para riscos à saúde mental

Para pesquisadores da área de química e farmacologia, o consumo sem controle pode representar riscos importantes. A farmacêutica Eliani Spinelli, do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que a psilocibina é considerada uma substância proscrita e pode provocar efeitos mentais intensos.

De acordo com ela, além da ilegalidade do composto isolado, existe o perigo de confusão entre espécies de cogumelos semelhantes, o que pode provocar intoxicações graves e até fatais.

Outro ponto de preocupação é o impacto psicológico. Embora os efeitos físicos possam ser considerados leves em alguns casos, especialistas alertam que os efeitos mentais podem ser duradouros e até irreversíveis, dependendo da condição psicológica do usuário.

Pesquisas científicas investigam possíveis aplicações

Apesar dos riscos, a ciência tem retomado estudos sobre o potencial terapêutico da psilocibina. Pesquisas internacionais analisam a substância como possível ferramenta no tratamento de transtornos mentais e dependências químicas.

Um estudo publicado na revista científica JAMA Network Open aponta que a psilocibina pode ajudar no tratamento do tabagismo. Segundo dados do Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária, o cigarro provoca cerca de 477 mortes por dia no Brasil.

Pesquisadores brasileiros também acompanham a evolução desse campo científico. O Núcleo de Estudos em Uso de Drogas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) observa o avanço de pesquisas clínicas internacionais e avalia possíveis estudos futuros dentro de protocolos científicos rigorosos.

Debate cresce com projetos culturais e novos produtos

Enquanto o debate científico avança, iniciativas culturais também surgem na cidade. Um projeto em desenvolvimento na região da Gamboa pretende criar uma “Central de Cogumelos”, espaço voltado para palestras, exposições e divulgação científica sobre fungos e sustentabilidade.

A proposta inclui atividades educativas e culinárias com espécies utilizadas na gastronomia, como shiitake e shimeji, e levanta a possibilidade de abordar também cogumelos psicodélicos caso a legislação permita.

Paralelamente, autoridades sanitárias seguem monitorando novos produtos derivados. Em 2025, o Sistema de Alerta Rápido sobre Drogas identificou no Brasil balas importadas com extratos de cogumelos contaminadas com um opioide sintético altamente tóxico, reforçando os riscos associados ao mercado informal.

Com a venda cada vez mais visível nas ruas e a ciência investigando seus possíveis usos terapêuticos, os cogumelos alucinógenos se tornam um tema crescente no debate público — especialmente diante da ausência de uma legislação clara sobre sua comercialização e consumo no país.

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