* Paulo Baía
A nova pesquisa Genial Quaest divulgada em 13 de maio de 2026 não oferece apenas números eleitorais. Ela apresenta um retrato emocional, social e político de um país que vive uma longa travessia histórica entre memória e fadiga, esperança e ressentimento, estabilidade e vertigem. O Brasil que emerge desta pesquisa não é somente um território dividido entre Lula e Flávio Bolsonaro. É uma sociedade que parece caminhar sobre um chão instável, onde o eleitor vota menos por encantamento e mais pela necessidade de proteger sua própria visão de mundo diante da ameaça representada pelo adversário.
Os números são eloquentes. Lula lidera o primeiro turno com 39%, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 33%. Ronaldo Caiado aparece com 5%, Romeu Zema com 4%, Simone Tebet com 3% e outros nomes surgem abaixo disso. A margem de erro é de dois pontos percentuais. No segundo turno, o cenário é de empate técnico absoluto. Lula aparece com 42%, Flávio Bolsonaro com 41%. Em abril, Flávio havia aparecido numericamente à frente pela primeira vez dentro da margem de erro. Agora, Lula retoma uma vantagem numérica mínima, mas insuficiente para alterar o quadro estrutural de equilíbrio conflitivo que domina o país.
O dado central não está apenas na proximidade estatística. Está no fato de que a sociedade brasileira chegou a um estágio no qual amor e rejeição convivem de forma quase simétrica. Lula e Flávio carregam rejeições superiores a 50%. O petista permanece fortemente rejeitado por parcelas conservadoras, enquanto Flávio Bolsonaro continua despertando resistência elevada entre setores progressistas e moderados. A política brasileira tornou-se uma arena de afetos negativos intensos. O eleitor brasileiro parece viver uma espécie de cidadania defensiva. Cada voto é um gesto de contenção contra o medo do outro.
Há algo sociologicamente decisivo neste quadro. O Brasil deixou de viver apenas uma polarização eleitoral. O país passou a experimentar uma polarização identitária. Lula e o bolsonarismo já não representam somente candidaturas. Representam modos de existência social, linguagens morais, estilos de percepção do mundo, experiências afetivas e sentimentos de pertencimento coletivo.
Entretanto, existe um elemento particularmente importante nesta conjuntura que precisa ser observado com rigor analítico. Muitos segmentos do lulismo recusam a própria ideia de polarização. Para esses grupos, não existe uma disputa simétrica entre dois polos legítimos da democracia brasileira. O que existiria, segundo essa interpretação, seria um confronto entre civilização e barbárie. Entre democracia e autoritarismo. Entre valores humanistas e práticas políticas associadas ao extremismo, à violência simbólica e ao negacionismo institucional. Dentro desta percepção, o bolsonarismo não aparece como um adversário político convencional, mas como uma ameaça histórica à própria ordem democrática construída após a Constituição de 1988.
Do outro lado, segmentos expressivos do bolsonarismo também recusam a ideia de polarização nos termos tradicionais. Para muitos bolsonaristas, o que está em curso não é uma divisão equilibrada entre dois projetos legítimos de sociedade. O que existiria seria um confronto entre a democracia, que dizem representar, e uma suposta ditadura das instituições contra a população. Nesta visão, setores do Judiciário, da imprensa, das universidades, do sistema político tradicional e das elites culturais teriam formado uma estrutura de poder destinada a limitar a vontade popular conservadora. O bolsonarismo se percebe, portanto, como um movimento de resistência moral e política diante daquilo que seus apoiadores chamam de perseguição institucional.
Mas é precisamente aí que as pesquisas da Quaest se tornam sociologicamente decisivas. Todas as rodadas recentes identificam de maneira consistente a existência concreta da polarização. Não apenas uma polarização eleitoral simples, limitada à escolha entre dois candidatos, mas uma polarização profunda, multicamadas, emocionalmente intensa e socialmente disseminada. Uma polarização que atravessa classes sociais, religiões, territórios urbanos, gerações, ambientes digitais e formas distintas de imaginar o futuro do país.
A Quaest revela um Brasil dividido por sentimentos diferentes, humores distintos, medos específicos e expectativas contraditórias. Há polarizações econômicas, culturais, religiosas, morais e institucionais convivendo simultaneamente. Em alguns segmentos populares, Lula continua associado à memória da inclusão social e da ascensão econômica. Em outros setores, especialmente conservadores e religiosos, o bolsonarismo aparece como defesa moral da família, da autoridade e da ordem. Em certos grupos urbanos de classe média, o voto é movido pela exaustão institucional. Em parcelas periféricas, pela sobrevivência econômica cotidiana. O país vive múltiplas polarizações dentro de uma grande polarização nacional.
Lula continua sendo, para milhões de brasileiros, a memória viva da ascensão social, do consumo popular, da dignidade cotidiana e da presença protetora do Estado. Seu eleitorado não vota apenas em um líder político. Vota em uma lembrança concreta de estabilidade material, de comida mais barata, de emprego, de universidade para os filhos e de reconhecimento simbólico das camadas populares. Lula permanece associado à ideia de inclusão social em um país historicamente marcado pela brutalidade da desigualdade.
Mas existe outro Brasil diante dele. Um Brasil que encontrou no bolsonarismo não apenas uma candidatura conservadora, mas uma identidade emocional organizada em torno da família, da autoridade, da religião, da segurança e da recusa das elites culturais e políticas tradicionais. Flávio Bolsonaro herda este patrimônio simbólico. Seu desempenho demonstra que o bolsonarismo deixou de ser um fenômeno dependente apenas da figura de Jair Bolsonaro. Tornou-se uma cultura política enraizada na vida cotidiana de parcelas importantes da sociedade brasileira.
É precisamente isso que torna a pesquisa tão relevante. Ela revela que o bolsonarismo atravessou o tempo, as crises institucionais, as investigações judiciais e os escândalos sem desaparecer como força social. O bolsonarismo sobrevive porque fala com sentimentos reais presentes na sociedade brasileira. Medo da violência, insegurança econômica, desconfiança em relação às instituições, ressentimento social, angústia diante das mudanças culturais e desejo de pertencimento moral. A própria pesquisa mostra que segurança pública e violência continuam liderando as preocupações nacionais dos brasileiros, seguidas pela corrupção e pelas inquietações econômicas. Ignorar isso seria um erro analítico monumental.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que Lula recupera terreno político num momento em que o governo apresenta melhora relativa nos índices de aprovação e percepção econômica. Há redução parcial da percepção negativa da economia e leve recuperação da confiança em alguns indicadores sociais. Isso ajuda Lula a retomar fôlego eleitoral depois de meses de desgaste. O presidente volta a ocupar o centro do tabuleiro político como figura competitiva e resiliente. Sua experiência histórica e sua capacidade narrativa continuam funcionando como ativos relevantes.
Ainda assim, a pesquisa contém um alerta poderoso para o governo. Lula melhora, mas não pacifica o país. O empate técnico com Flávio Bolsonaro indica que existe um limite estrutural para a reconstrução da hegemonia lulista. O lulismo permanece forte, mas enfrenta uma sociedade mais fragmentada, mais digitalizada, mais desconfiada e mais emocionalmente saturada do que aquela dos anos 2000.
O dado mais impressionante talvez seja o percentual de indefinição e volatilidade eleitoral identificado pela Quaest. Embora muitos eleitores já manifestem preferência, a pesquisa mostra que parte significativa admite possibilidade de mudança de voto ao longo da campanha. Isso revela um eleitorado emocionalmente cansado, menos ideológico do que aparenta e profundamente influenciado pelas circunstâncias da conjuntura.
O fato sociológico central do Brasil de 13 de maio de 2026 é que o cotidiano nacional tornou-se profundamente tensionado. Não apenas tensionado. Estressado, acirrado e, em muitos contextos, violentamente conflitivo. A polarização deixou de habitar somente o debate político institucional e passou a invadir os espaços íntimos da vida social. Famílias foram atravessadas por rupturas silenciosas. Amigos deixaram de se falar. Relações religiosas passaram a carregar desconfianças ideológicas. Ambientes de trabalho tornaram-se zonas de autocensura e vigilância emocional. Há brasileiros que evitam comentar política para preservar vínculos afetivos básicos.
Existem relatos crescentes de exclusões simbólicas e afastamentos concretos entre pessoas da mesma família, da mesma religião, da mesma vizinhança e dos mesmos círculos profissionais. O conflito político brasileiro tornou-se também um conflito afetivo. Muitas vezes, o adversário político deixou de ser percebido apenas como alguém que pensa diferente. Passou a ser visto como alguém moralmente perigoso, ameaçador ou incompatível com a convivência cotidiana.
Do ponto de vista antropológico, o Brasil contemporâneo tornou-se um território de tribos políticas altamente emocionalizadas. As redes sociais aceleraram este processo. A política deixou de ocupar apenas o espaço institucional e passou a organizar relações familiares, amizades, práticas religiosas, formas de consumo cultural e percepções éticas. O voto tornou-se um marcador identitário comparável à religião ou à pertença regional.
Essa transformação alterou radicalmente o sentido das campanhas eleitorais. As eleições deixaram de ser apenas competições programáticas. Tornaram-se disputas simbólicas sobre quem possui legitimidade moral para representar o país. O eleitor já não busca somente propostas administrativas. Busca reconhecimento existencial.
É por isso que as rejeições de Lula e Flávio Bolsonaro são tão altas. Ambos mobilizam paixões intensas e antagonismos igualmente intensos. Cada um deles desperta esperança em um grupo social e temor em outro. O resultado é uma democracia marcada pela convivência simultânea entre mobilização e desgaste.
Politicamente, a fragilidade do chamado centro também merece atenção. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros nomes testados permanecem incapazes de romper a muralha simbólica da polarização. Mesmo quando aparecem competitivos em nichos regionais, não conseguem transformar desempenho localizado em densidade nacional. A pesquisa mostra que o eleitor parece procurar menos moderação e mais pertencimento emocional.
Isso produz um paradoxo curioso. O Brasil deseja estabilidade, mas se organiza politicamente por meio de antagonismos permanentes. O país busca pacificação, mas consome diariamente discursos de confronto. Existe uma tensão contínua entre o desejo de normalidade e a atração pela guerra simbólica.
A pesquisa Quaest mostra também como a democracia brasileira entrou em uma fase de maturidade conflitiva. As instituições continuam funcionando. As eleições seguem competitivas. A alternância de poder permanece possível. Contudo, o tecido social demonstra sinais visíveis de fadiga emocional. A democracia resiste, mas resiste cansada.
Há ainda um elemento psicológico importante. O eleitorado brasileiro parece viver uma relação ambivalente com o futuro. Parte da sociedade teme a continuidade do governo Lula. Outra parte teme o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto. Pesquisas recentes mostram inclusive que muitos brasileiros afirmam sentir medo tanto da permanência do lulismo quanto da volta do bolsonarismo. O voto torna-se então um mecanismo de proteção diante do medo coletivo. A eleição presidencial de 2026 tende a ser decidida menos pelo entusiasmo e mais pela administração social da insegurança.
Nesse cenário, Lula possui vantagens relevantes. Sua experiência política, sua memória afetiva junto às classes populares e a recuperação parcial da aprovação do governo o colocam em posição competitiva. Além disso, Lula mantém capacidade singular de construir linguagem popular e conexão simbólica com amplos setores da sociedade.
Mas suas desvantagens também são evidentes. A rejeição elevada demonstra desgaste acumulado. O governo enfrenta dificuldades econômicas persistentes, sensação de insegurança urbana e desgaste comunicacional. Há também uma fadiga natural provocada pela longa permanência de Lula na vida política brasileira.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, carrega a força do capital simbólico bolsonarista. Representa continuidade ideológica, fidelidade ao núcleo conservador e capacidade de mobilização digital. Sua presença competitiva indica que a direita brasileira consolidou musculatura social consistente. A pesquisa mostra inclusive desempenho expressivo do bolsonarismo em estados do Sul e Sudeste, enquanto Lula preserva ampla vantagem no Nordeste, reproduzindo geograficamente a divisão política nacional observada desde 2018.
Entretanto, Flávio também enfrenta limites importantes. Sua rejeição continua elevada. Sua imagem permanece fortemente vinculada ao conflito permanente associado ao bolsonarismo. Além disso, ainda precisa demonstrar capacidade de expansão eleitoral para além do núcleo ideológico mais fiel.
A pesquisa divulgada em 13 de maio de 2026 talvez seja menos uma fotografia eleitoral e mais uma radiografia emocional da República. O Brasil aparece como uma nação cansada, dividida, inquieta e ao mesmo tempo intensamente politizada. Uma sociedade onde a democracia segue viva, mas atravessada por medos, ressentimentos e expectativas contraditórias.
No fundo, o que esta pesquisa revela é que o Brasil continua procurando uma narrativa capaz de reconciliar desenvolvimento econômico, pertencimento social, estabilidade institucional e reconhecimento simbólico. Enquanto essa narrativa não surgir com força suficiente para ultrapassar as fronteiras da polarização, o país continuará vivendo eleições que funcionam como batalhas existenciais entre projetos inconciliáveis de nação.
A Quaest de maio de 2026 não anuncia uma vitória definitiva de ninguém. Ela anuncia algo mais complexo. O Brasil entrou em uma era de incerteza permanente, onde cada eleição se transforma em um teste dramático sobre a capacidade da sociedade de continuar convivendo consigo mesma.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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