Saquarema lidera PIB per capita do Brasil com royalties do petróleo, mas renda local segue baixa

Cidade com maior PIB per capita do país convive com renda média baixa, pressão por serviços públicos e debate sobre o futuro após o petróleo

Ao desembarcar em Saquarema, conhecida internacionalmente pelas ondas perfeitas para o surfe, o visitante encontra hoje um cenário que vai além das praias. A cidade da Região dos Lagos se transformou em um vasto canteiro de obras, impulsionado por um volume sem precedentes de recursos oriundos dos royalties do petróleo, informa reportagem do jornal Extra.

A abundância de dinheiro colocou o município no topo de um ranking inusitado: segundo o IBGE, Saquarema teve, em 2023, o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil, equivalente a R$ 722.441,52 por habitante ao ano.

O número contrasta de forma contundente com a realidade cotidiana da maior parte da população. De acordo com o Censo 2022, o rendimento médio mensal dos moradores é de R$ 2.310, o que representa menos de R$ 28 mil por ano, abaixo das médias do Estado do Rio e do país.

Essa disparidade ajuda a explicar o sentimento ambíguo que atravessa a cidade: orgulho pela riqueza inédita, mas também inquietação sobre prioridades, planejamento urbano e sustentabilidade de longo prazo.

Entre obras, benefícios sociais e queixas da população

Entre os moradores, as opiniões se dividem. Há críticas recorrentes ao crescimento acelerado de bairros periféricos, à precariedade do saneamento, à quantidade de ruas ainda sem asfalto e à falta de profissionais suficientes para colocar em pleno funcionamento novas unidades de educação e saúde.

Por outro lado, há relatos de quem conseguiu se qualificar e empreender a partir de cursos financiados com recursos do petróleo, além do impacto de programas sociais como as moedas Educa Saquá e Social Saquá.

PIB em disparada e empregos frágeis

Um retrato econômico do município elaborado pelo economista Mauro Osório e pelo mestre em desenvolvimento regional Henrique Rabelo, ambos do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro, mostra que o PIB per capita de Saquarema cresceu 1.398% entre 2010 e 2023. No mesmo período, o aumento foi de 6,2% no Estado do Rio e de 8,2% no Brasil.

A população também avançou de forma acelerada. Em 15 anos, o crescimento foi de 28,3%, alcançando mais de 95 mil moradores em 2025, segundo estimativa do IBGE. O estudo aponta ainda que quase metade dos postos de trabalho no município está na informalidade.

“Há poucos empregos e boa parte deles são na informalidade. Falta atividade produtiva”, resume Rabelo.

Na educação básica, houve avanços. Em 2005, Saquarema tinha o pior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica entre os municípios da Região dos Lagos no ensino fundamental inicial, com nota 3,3. Em 2023, o índice chegou a 6, embora ainda fique atrás de cidades como Iguaba Grande, Casimiro de Abreu e Rio das Ostras.

O alerta sobre a dependência do petróleo

A arrecadação com royalties atingiu R$ 2 bilhões em 2024, um salto expressivo em relação aos R$ 5,8 milhões registrados em 2010. Para Mauro Osório, o volume impressiona, mas traz riscos.

“Um dia o petróleo vai acabar. O município precisa ter estratégia econômica, construir uma estrutura produtiva, atraindo empresas. Assim, consegue aumentar suas receitas próprias e gerar sustentabilidade”, disse.

Segundo a prefeitura, 79,37% das despesas executadas em 2024, que somaram R$ 2,49 bilhões, tiveram origem nos royalties. Para este ano, a previsão é reduzir essa dependência para 71,71%.

Pressão sobre a saúde e promessa de concurso

Mesmo com investimentos, a rede de saúde ainda sofre com a alta demanda. O Hospital Municipal Porphírio Nunes de Azeredo, no Bacaxá, ganhou um anexo e passa por reformas, mas segue sobrecarregado.

A prefeitura sinaliza a abertura de um concurso público ainda neste semestre, com 1.794 vagas nas áreas de educação, saúde e segurança, como tentativa de suprir a carência de profissionais.

Saneamento e conflitos urbanos

A questão do saneamento é uma das mais sensíveis na cidade. Presidente da Associação Profissional de Artesãos Autônomos de Saquarema, Kamira Congatelli critica a poluição do canal que liga a lagoa ao mar e o que chama de obras feitas sem diálogo com a população.

O abastecimento de água e esgoto é dividido entre duas concessionárias. A Águas de Juturnaíba, do Grupo Águas do Brasil, atende Saquarema Sede e Bacaxá e afirma fornecer água a 100% da população, com cobertura de esgoto de 78%, prevista para chegar a 90% até 2038. Já a Águas do Rio, do Grupo Aegea, responsável por Sampaio Correia e Jaconé, diz atender 96% da área com água, mas ainda não iniciou obras de esgotamento sanitário, cuja universalização está prevista para 2033.

Além do saneamento, Kamira aponta o avanço de construções irregulares, especialmente em áreas próximas a reservas florestais. A prefeitura informa que lavrou cerca de 2.500 autos de embargo em 2024 e 2025 e que utiliza a plataforma GeoSaquá, que cruza dados de licenciamento com imagens de satélite, para coibir irregularidades.

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