Rio terá áreas reconhecidas internacionalmente para conservação de tubarões e raias; entenda

Primeiras áreas da América do Sul recebem reconhecimento internacional por abrigarem espécies de raias e tubarões ameaçadas

O Rio de Janeiro passou a contar com duas áreas da sua costa reconhecidas internacionalmente como Áreas Importantes para Tubarões e Raias (ISRA, na sigla em inglês). As novas ISRAs abrangem a Baía de Guanabara e um trecho da costa entre Niterói e o Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio, passando por ilhas e arquipélagos que concentram alta diversidade marinha.

A classificação foi feita pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e marca a primeira vez que regiões da América do Sul recebem esse status.

O que são as ISRAs?

Segundo o biólogo marinho Sérgio Ricardo Santos, um dos responsáveis pela proposta, o processo de avaliação levou dois anos e envolveu pesquisas que comprovaram a relevância ecológica da costa fluminense.

“As ISRAs são áreas de reconhecido interesse para a conservação das espécies de tubarões, quimeras e raias de uma região. A seleção foi feita por um colegiado mundial voltado para esse tema”, explica. 

No caso da Baía de Guanabara, o reconhecimento se baseou em estudos que mostram sua importância para a raia-borboleta, espécie criticamente ameaçada de extinção.

“Os trabalhos científicos apontam que a baía funciona como berçário dessa espécie e ainda abriga uma das maiores diversidades de peixes do Brasil”, destaca Sérgio. Mesmo com a degradação ambiental, a região ainda desempenha papel crucial para a manutenção da vida marinha no Sudeste, afirma.

Já a área que vai das ilhas Pai, Mãe e Filha, em Niterói, até o Pontal do Recreio, é caracterizada por lajes, arquipélagos e um fenômeno natural conhecido como ressurgência — quando águas frias e ricas em nutrientes sobem à superfície. Esse evento é observado, principalmente, em Cabo Frio, na Região dos Lagos. 

“Essas águas fertilizam boa parte das águas da costa fluminense e as condições favorecem uma concentração alta de espécies de tubarões e raias que usam a costa da área metropolitana para se alimentar e reproduzir. Conseguimos comprovar 25 espécies junto ao colegiado, mas a riqueza da costa do Rio é ainda maior”, afirma o biólogo.

Tubarões auxiliam no controle do equilíbrio pesqueiro – Crédito: Reprodução Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO)

Cada um no seu quadrado 

A imagem de perigo que cerca os tubarões é, em grande parte, um mito influenciado pela combinação entre a mídia e o cinema, como o famoso ”Tubarão” (1985), ”Megatubarão” (2018). Filmes que exploram e reforçam o animal como figura assassina. Mas no fim, são poucas as espécies associadas a ataques, explica Sérgio. 

A maioria delas é do cabeça-chata, tubarão-tigre e tubarão-branco, as centenas de outras espécies que existem são muito pequenas para representar qualquer perigo.  Mesmo as de maior porte, na maioria das vezes fogem da presença humana. Fora que muitos tubarões e raias vivem bem afastados da costa, em áreas oceânicas ou regiões muito profundas, explica Sérgio

Mesmo em casos com registros de acidentes com tubarões, os eventos estão relacionados com condições adversas na região, explica o biólogo. É o caso de Recife, no Nordeste brasileiro. O cabeça-chata, comuns na região, também estão presentes na costa do Sudeste, mas sem registros de ataques. 

Além de desmistificar o medo, os tubarões têm papel essencial nos ecossistemas marinhos e controlam a população de outros predadores, removendo indivíduos doentes das populações de presas antes que contaminem outros.

”Muitas espécies pescadas na nossa costa também precisam desse controle feito pelos tubarões para manter suas populações sadias. Se isso não ocorrer, e digamos que um indivíduo doente permaneça na população, podemos ter uma queda na produção pesqueira em anos seguintes, logo a pesca artesanal e industrial podem ser afetadas diretamente pela ausência de predadores como os tubarões’’, explica. 

Ação do projeto SALVAR – Ciência para Conservação de Tubarões e Raias do Sudeste Sul do Brasil – Crédito: FUNBIO

Projeto Tubarões e Raias Cariocas

Para avançar nesse levantamento, o projeto ‘Tubarões e Raias Cariocas’ aposta no engajamento da população. A ideia é criar um banco de dados colaborativo, alimentado por mergulhadores, pescadores, caçadores submarinos e banhistas.

Vale lembrar que, apesar do reconhecimento, as ISRAs não têm o mesmo status legal das Unidades de Conservação brasileiras. Sua principal função é de apontar quais são os lugares mais indicados para a manutenção da sobrevivência dessas espécies.

“Um ponto importante é salientar que as ISRAs não são UCs, apesar de ter várias delas no seu interior. A função é apontar quais locais são essenciais para a sobrevivência de tubarões e raias sob risco de extinção e chamar a sociedade, o Estado e a academia a lidar com o problema de forma eficiente”, conclui o biólogo.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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