A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras divulgou nesta terça-feira (28) um relatório que aponta a utilização do acesso à água, saneamento e higiene como elemento de pressão durante os ataques à Faixa de Gaza. Intitulado “Água como Arma”, o documento reúne dados e relatos que indicam impactos severos sobre a população civil no território palestino.
Segundo a ONG, as ações atribuídas a Israel colocaram em risco “toda a população em Gaza”, a partir de três fatores principais: destruição de infraestrutura, restrições ao acesso humanitário e bloqueio ou atraso no fornecimento de insumos essenciais.
Infraestrutura destruída e colapso dos sistemas
O relatório destaca que grande parte dos sistemas de abastecimento e tratamento de água foi comprometida ao longo do conflito.
“Grande parte da rede de abastecimento e tratamento de água, incluindo poços e instalações de dessalinização, foi destruída ou ficou inacessível”, afirma o documento.
Dados do Banco Mundial, da União Europeia e da ONU indicam que ao menos 89% dessas infraestruturas foram destruídas ou danificadas, agravando a crise humanitária.
Antes do início da guerra, Gaza contava com uma rede estruturada para produção de água potável, incluindo sistemas de osmose reversa. Com a destruição dessas instalações, o acesso à água tratada se tornou limitado.
Restrição de ajuda e deslocamentos forçados
A MSF também aponta que a restrição à circulação e os deslocamentos forçados dificultaram a atuação de equipes humanitárias e o acesso da população a serviços básicos.
A organização afirma que houve casos em que equipamentos essenciais foram impedidos de entrar no território ou tiveram sua entrada atrasada sem justificativas claras. Em outros episódios, estruturas identificadas como pertencentes à ONG teriam sido atingidas.
“Imagens de satélite mostram que a infraestrutura hídrica da MSF foi completamente destruída, e a região, devastada”, descreve o relatório.
A crise se intensificou com o deslocamento em massa da população. Segundo a organização, milhões de pessoas foram concentradas em áreas reduzidas, com densidade populacional extremamente elevada, o que agravou ainda mais as condições sanitárias.
Impactos na saúde da população
Com o colapso dos sistemas de saneamento, a contaminação da água se tornou um problema generalizado. O relatório aponta que resíduos humanos passaram a infiltrar nas águas subterrâneas, tornando poços impróprios para consumo.
A partir de entrevistas realizadas entre maio e agosto de 2025, a MSF identificou que pelo menos 23% das pessoas haviam sofrido doenças gastrointestinais no período anterior ao levantamento. Também foram registrados altos índices de infecções respiratórias.
Além disso, desde outubro de 2025, quando entrou em vigor o atual cessar-fogo, a organização afirma ter atendido cerca de 15 mil casos de trauma físico em seus hospitais de campanha, com mais de 40 mil curativos realizados em vítimas de violência.
Posicionamento e controvérsias
O relatório classifica a situação como uma forma de “punição coletiva da população de Gaza”, destacando os efeitos diretos na saúde, dignidade e segurança dos civis.
Por outro lado, as forças armadas de Israel afirmam, em posicionamentos anteriores, que suas ações têm como alvo estruturas ligadas ao grupo militante Hamas e negam atacar deliberadamente instalações civis.
A guerra na região teve início após os ataques do Hamas em outubro de 2023, que desencadearam a ofensiva israelense.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, já havia manifestado preocupação com a escalada do conflito, classificando determinadas ações como potencialmente agravantes das consequências humanitárias.
Apelos por medidas urgentes
Diante do cenário, a MSF pede a suspensão de restrições à entrada de equipamentos e a facilitação do trabalho de organizações humanitárias. A entidade também cobra o fim dos deslocamentos forçados e reforça a necessidade de proteção à infraestrutura civil.
O relatório destaca ainda que “Israel é obrigado, nos termos do direito internacional humanitário, na qualidade de potência ocupante, a garantir que as necessidades básicas da população sejam atendidas e a proteger a infraestrutura civil”.
A organização também solicita apoio dos países membros da ONU para ampliar a ajuda humanitária e contribuir com a reconstrução de serviços essenciais na região.






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