Apesar do avanço dos debates públicos e das campanhas de conscientização, a sociedade brasileira ainda enfrenta grandes desafios para identificar e lidar com a violência contra mulheres. É o que revela o novo Índice de Conscientização sobre Violência contra as Mulheres, lançado neste mês de novembro pelo Instituto Natura e pela Avon e reportado pela Folha de S. Paulo.
O levantamento mostra que quatro em cada dez brasileiras não reconhecem, de forma espontânea, agressões que elas próprias sofreram como violência de gênero. Além disso, 62% das pessoas entrevistadas afirmam não ter informações suficientes para ajudar uma vítima. O índice, que será atualizado periodicamente, pretende medir o nível de compreensão e conscientização da população sobre o tema.
Desinformação e subnotificação
A pesquisa ouviu 4.224 pessoas, homens e mulheres com mais de 18 anos, em entrevistas presenciais e online realizadas entre junho e agosto de 2025. O estudo considerou recortes de região, gênero, renda e escolaridade, seguindo metodologia do IBGE.
Entre as mulheres entrevistadas, 98% disseram que tomariam alguma atitude, como chamar a polícia, caso sofressem violência. Na prática, porém, apenas 73% das que relataram já terem sido vítimas buscaram ajuda — e a maioria recorreu a familiares ou amigos, sem acionar as autoridades ou registrar denúncia formal.
“Violência ainda é vista só como agressão física”
Para Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres no Instituto Natura, o dado mais preocupante é a dificuldade em reconhecer o que é violência.
“A gente ainda tem no Brasil uma compreensão de violência muito atrelada à física, ao olho roxo”, afirma. Segundo ela, agressões psicológicas, morais e patrimoniais ainda são pouco compreendidas. Quando esses tipos são explicados, muitas mulheres passam a reconhecer que já viveram tais situações.
Accioly destaca que reconhecer a violência é apenas o primeiro passo: “Conscientização é quando o conhecimento, os valores e as atitudes se alinham. E é só assim que transformamos a sociedade.”
Contradições e cultura de naturalização
O estudo também aponta contradições: 96% dos entrevistados afirmam que têm responsabilidade no enfrentamento da violência, mas 60% dizem que problemas do casal devem ser resolvidos em casa, e 15% afirmam que não ajudariam uma mulher por considerar que “não é da sua conta”.
Segundo Accioly, essa postura reflete um traço cultural enraizado. “Ainda percebemos muito uma naturalização da violência e, mais do que isso, um processo social de legitimação. Isso mostra a resistência à ideia de que a violência contra a mulher é um crime que deve ser tratado pelo Estado, com gravidade”, afirma.
Ela alerta que a dificuldade de nomear o problema impede o avanço no enfrentamento. “Enquanto comportamentos de controle forem vistos como ciúme e agressões como ‘perda de cabeça’, a violência não receberá o tratamento que merece. Como é que as pessoas vão pedir ajuda e proteção para uma sociedade que não sabe apoiar e proteger?”, questiona.
Campanhas e ações regionais
Entre as pessoas que afirmaram lembrar de campanhas de conscientização (62%), 42% disseram que as ações ajudaram a compreender o que é violência de gênero e 37% aprenderam onde denunciar.
A pesquisa também mostra diferenças regionais. A Amazônia Legal apresentou o menor nível de conscientização, o que, segundo Accioly, exige políticas específicas. “Não adianta a gente falar para as mulheres buscarem ajuda e as políticas públicas ficarem inexistentes ou ineficientes. Este ano, por exemplo, lançamos em Alagoas a primeira política estadual totalmente dedicada a articular e qualificar a rede de atendimento a mulheres em situação de violência, o Alagoas Lilás, e desejamos que isso se replique pelo Brasil.”
Como buscar ajuda
- Emergência: ligue 190
- Denúncias: ligue 180
- Atendimento 24h em São Paulo: Casa da Mulher Brasileira (Rua Vieira Ravasco, 26, Cambuci, tel.: 3275-8000)
- Ouvidoria das Mulheres: formulário online disponível no site oficial
- Apoio jurídico e psicológico: projetos Justiça de Saia, MeTooBrasil e Instituto Survivor oferecem acolhimento e orientação a vítimas






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