Uma ilha de praias paradisíacas, mata atlântica intocada e silêncio de fim do mundo fica a menos de cem quilômetros do Cristo Redentor, mas você não pode entrar. A Ilha de Marambaia, entre os municípios de Rio, Itaguaí e Mangaratiba, é uma área militar sob controle da Marinha do Brasil desde o início do século XX, e seu acesso é restrito a militares, pesquisadores credenciados e às cerca de 270 famílias quilombolas que lá vivem há mais de 150 anos, descendentes dos africanos escravizados que foram engordados naquelas praias como gado. A União adquiriu a ilha em dezembro de 1904, conforme registra o Arquivo da Marinha do Brasil, e ali instalou, desde então, uma sucessão de instituições que vão da escola de pesca ao centro de adestramento de fuzileiros navais _ cada capítulo mais curioso que o anterior.
É o tipo de lugar que, quanto mais se conhece, mais se suspeita de que a restrição de acesso não protege apenas a soberania nacional. Protege também memórias. Sob as copas da floresta preservada jazem as ruínas de uma senzala. Nas pedras da ilha existem grutas que os moradores mais velhos conhecem pelo nome de “Salão dos Ratos” ou “Toca dos Ratos” sobre as quais, a Marinha jura que não existem.
Há quem diga que a ilha é amaldiçoada. Que as almas dos escravizados mortos no local não partem. Que soldados somem em grutas e reaparecem com marcas inexplicáveis. São lendas? Talvez. Mas a Marambaia tem o hábito irritante de tornar plausível o que deveria ser folclore: afinal, entre 1847 e 1888, naquelas praias idílicas, foram confinados, engordados e redistribuídos para fazendas milhares de africanos traficados ilegalmente _ incluindo mais de 900 apreendidos de uma só vez pela própria Marinha Imperial entre dezembro de 1850 e fevereiro de 1851, conforme registrado pelo Observatório Quilombola. O passado aqui não é metáfora. É arqueologia.
Dois mundos, uma só proibição
Antes de começarmos essa história, é preciso fazer um esclarecimento geográfico. Embora muitos cariocas e simpatizantes achem que tudo é a mesma coisa, elas são áreas distintas que compõem um mesmo território proibido.
A restinga é uma faixa arenosa de aproximadamente 43 quilômetros de extensão que separa o mar aberto da Baía de Sepetiba, com largura tão estreita que, em alguns trechos, chega a apenas 19 metros. A largura de uma rua de bairro. Mas ela não é apenas uma faixa de areia bonita; ela protege toda a orla interna da erosão marinha. Sem ela, as correntes do Atlântico redesenhariam a costa de Itaguaí e Sepetiba com uma violência que nenhum muro de contenção conseguiria segurar.
Já a ilha propriamente dita é o promontório montanhoso, triangular, na extremidade oeste desse cordão de areia: tem 42 km² de área e seu pico mais alto, o Pico da Marambaia, alcança cerca de 650 metros de altitude, segundo o Arquivo da Marinha.
O acesso proibido tem uma explicação simples. A área está sob jurisdição das Forças Armadas. A ilha pertence à Marinha, que instalou ali o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM); a porção leste da restinga, mais próxima a Barra de Guaratiba, cabe ao Exército, onde funciona um campo de provas balístico para armas; a área central é da Aeronáutica, usada como campo de tiro para aeronaves de ataque.
E do outro lado das cercas militares, vivem gerações de quilombolas cujos antepassados construíram aquelas terras com o suor da escravidão.

Por que dizem que ela é amaldiçoada?
Basicamente devido aos sofrimentos dos milhares de escravizados que passaram pelas Marambaia e das milhares de almas que nunca saíram de lá. Estima-se que quase cinco mil africanos foram desembarcados ilegalmente e submetidos a um processo de “engorda” degradante. Alguns eram vendidos na Guanabara e outros destinados a uma vida de trabalho forçado nas plantações de café da família Breves.
Para entender Marambaia, é preciso entender Joaquim José de Souza Breves, e para entendê-lo, é preciso esvaziar o estômago. Ele foi o mais opulento fazendeiro de café do Brasil Imperial, plantou cinco milhões de pés de café e era proprietário de mais de seis mil escravizados. Dizia-se, na época, que se podia ir do Oceano Atlântico até Minas Gerais sem sair de suas mais de 70 fazendas.

No imaginário dos militares que servem na ilha, as histórias de aparições e sons inexplicáveis na calada da noite são tão comuns quanto o almoço de cada dia, alimentando uma mística de que a terra cobra o preço do seu passado. E faz um certo sentido. A gente não torce pela morte de ninguém, mas gosta de ler alguns obituários. O comendador Breves morreu exatamente um ano após a sanção da Lei Áurea. Sua fortuna, edificada sobre os ombros de milhares de pessoas exploradas de maneira vil, evaporou com uma canetada da Princesa Isabel.
Ruínas da senzala ainda existem na Praia da Armação e são consideradas sítio histórico pelos próprios quilombolas, que pedem sua preservação. Segundo o Relatório Técnico-Científico sobre a Comunidade Remanescente de Quilombos da Ilha da Marambaia, coordenado pelo antropólogo José Maurício Arruti, em 2003, os descendentes desses africanos são os mesmos que vivem ali hoje enquanto o Estado Brasileiro debate, há décadas, se eles têm direito de permanecer.
O sinistro mistério do sargento no Salão dos Ratos
Essa história é o ápice das lendas urbanas de Marambaia e poderia figurar no Top 10 das mais assustadoras do Rio de Janeiro. De acordo com relatos de militares da Segunda Companhia de Ações e Comandos, durante buscas por um militar desaparecido nos anos 80, ele teria sido encontrado em uma gruta de acesso dificílimo chamada de Salão dos Ratos.
O cenário descrito é digno de um filme de terror. Sobre a entrada da gruta, os militares afirmam que há uma grande figueira (árvore cheia de simbolismos no mundo esotérico), cujas raízes circundam e formam uma espécie de grade na entrada da caverna. Lá dentro, o tal sargento desaparecido foi encontrado sentado, com seu fuzil em punho, mas sem os olhos nem os dedos.
A Marinha não comenta lendas locais, não confirma nem nega as histórias, e trata a gruta como inexistente. O que os quilombolas sabem, os militares fingem não saber. O que os militares sabem, não aparece em nenhum relatório público. Marambaia funciona como uma espécie de Triângulo das Bermudas tupiniquim: não faltam histórias, faltam boletins de ocorrência.

A Marinha chega na área
Depois que os Breves foram à breca, o terreno acabou nas mãos da Viúva. E em 6 de junho de 1908, a Marinha do Brasil instalou na ilha a Escola de Aprendizes de Marinheiros do Estado do Rio de Janeiro, para funcionar na antiga sede da propriedade, na Praia da Armação.
Dois anos depois, em 9 de junho de 1910, a escola foi transferida para a cidade de Campos. A ilha ficou, portanto, sem uso militar por mais de uma década. Um período em que os quilombolas, descendentes dos escravizados de Breves, viveram relativamente em paz, pescando e cultivando suas roças.
A partir de 1924, conforme o Arquivo da Marinha, a ilha foi colocada à disposição da Diretoria de Portos e Costas para instalação de um serviço de pesca, o que levaria, em 1931, à fundação da Colônia de Pescadores Z-23.
O breve capítulo da Escola de Aprendizes é também um retrato da burocracia imperial tardia: a Marinha chegou, usou a infraestrutura da antiga fazenda escravocrata por apenas dois anos, e depois foi embora. O que é notável, neste ponto da história, é que ninguém ainda havia expulsado ninguém. Os conflitos vieram depois.
1948: quando Marambaia virou laboratório de guerra
Em 1927, o Ministério da Guerra solicitou a entrega da Restinga para a construção de um Polígono de Tiro de Artilharia _ um espaço para exercícios de tiro cercado por medidas de segurança. O Ministério da Marinha concordou, conservando, porém, sob sua jurisdição, a Ilha da Marambaia, para a instalação de uma estação de piscicultura.
O campo de provas balístico do Exército, onde até hoje são testadas armas convencionais, ocupa a parte da restinga mais próxima ao continente. O arranjo tripartite (Marinha, Exército, Aeronáutica) que divide o território é resultado de negociações burocráticas entre ministérios desde os anos 1930-1940, sem que ninguém, ao que tudo indica, tenha pensado em consultar as famílias quilombolas que já viviam lá havia décadas. Esse detalhe é um resumo eficiente da história do Brasil.

Treinamentos e conflitos nos anos 1970
Durante a década de 1970, em plena Ditadura Militar, a Marambaia tornou-se o palco predileto para treinamentos de manobras de contraguerrilha e atividades do Corpo de Fuzileiros Navais na restinga. E não é preciso ser gênio para imaginar que os descendentes dos escravizados não gostaram nada de ver suas moradias e sobrevivência ameaçadas por bombardeios e manobras militares.
O resultado foi um conflito fundiário de quatro décadas entre a Marinha e as comunidades quilombolas que ocupavam a região. As ações de despejo e a pressão para que deixassem o local geraram uma resistência organizada, que, em 1998, culminou na fundação de uma associação para defender seus direitos.
Em 2006, a comunidade remanescente de quilombo da Ilha de Marambaia obteve o reconhecimento oficial e o título de posse de parte das terras. Foi um marco jurídico que pôs fim a um processo de invisibilidade que durava um século.
Mas graças ao acesso restrito, a Marambaia tornou-se um refúgio ecológico sem paralelos. Com 650 espécies de plantas catalogadas, incluindo 40 tipos de orquídeas, o local é um laboratório vivo. Segundo pesquisas da UFRJ e do Jardim Botânico, a biodiversidade ali é tão rica que faz qualquer Jardim Botânico parecer um vaso de samambaia de apartamento.


Deixe um comentário