Oportunidade imperdível! Vista eterna para as praias de Ipanema e Leblon. Conjunto composto por sete ilhas, ilhotas e rochedos, totalizando 91,23 hectares de área de natureza nativa, com piscinas naturais, farol e inúmeros points para a prática do mergulho. Localização: Avenida Vieira Souto, S/N, lado ímpar. Maiores informações no local.

Calma pessoal. O hipotético classificado anterior é apenas uma brincadeira, afinal, como todo carioca e simpatizante sabe, ele se refere ao lado oceânico da Vieira Souto. E se alguém um dia tentasse calcular seu valor, não conseguiria nem chegar perto de um número razoável. Não só pela localização, de frente para um dos endereços famosos por ser um dos metros quadrados mais caros do mundo, mas por uma verdadeira joia carioca: o Monumento Natural do Arquipélago das Cagarras, a cerca de cinco quilômetros de distância das areias escaldantes de Ipanema.

Há até moradores neste lado ímpar da Vieira Souto. São os cinco militares da Marinha (fora quatro cachorros e dois bodes) que se revezam em turnos de 90 dias para cuidar da operação e manutenção do Farol da Ilha Rasa, que, apesar da proximidade, como unidade militar   fundamental para o tráfego dos navios de carga, não faz parte oficialmente do arquipélago _   formado pelas ilhas Palmas, Comprida, Cagarra e Redonda; e duas ilhotas: Filhote da Cagarra e Filhote da Redonda.

O nome do arquipélago, sim, é exatamente pelos motivos que você está pensando. “O primeiro registro oficial da maior das ilhas, a Cagarra, apareceu numa carta náutica francesa de 1730 com o nome já tropicalizado de “Ilha Cagade”. Exatos 37 anos depois, os portugueses fizeram um novo mapa da região, e não tiveram dó ao nomear a mesma ilha de “Ilha Cagado””, conta o pesquisador Dilson Gomes. Ao que tudo indica, impressionava os navegantes europeus a sujeirada branca que escorre pelos paredões de rocha por obra das aves-marinhas que fazem seus ninhos nas matas das ilhas.

As Cagarras são o único Hope Spot (Ponto de Esperança) do litoral carioca. Este é um reconhecimento concedido pela ONG Mission Blue, uma aliança mundial de oceanógrafos que listou 120 destes locais em todo o mundo. Esta certificação sinaliza os ambientes marinhos com alta biodiversidade, mas que estão com seu equilíbrio ameaçado e precisam de proteção. No Brasil, além das Cagarras, só o Banco dos Abrolhos, na Bahia, possui essa classificação de Hope Spot.

Um passeio por lá é daquelas coisas que todo guanabarino  deveria fazer uma vez na vida.  Na Ilha Redonda, por exemplo, fica o maior ninhal de fragatas do Brasil.  Se você estiver de barco, vai chegar o momento que sua embarcação será acompanhada por centenas, sim, centenas, dessas aves (que chegam a medir 2,3 metros de uma ponta da asa a outra). Segundo os pesquisadores, dez mil delas moram na ilha, superando o recorde que pertencia ao Arquipélago das Alcatrazes, no litoral de São Paulo. “Um dado a se comemorar já que estamos falando de uma ilha litorânea que sofre impacto direto devido à proximidade com a cidade”, diz a pesquisadora Larissa Cunha, do projeto Ilhas do Rio.

Essa proximidade faz com que os mais valentes entre a juventude dourada da Zona Sul carioca atrevam-se a chegar a nado até as Cagarras.  Quem já fez essa travessia garante que é uma nadada puxada de duas horas a duas horas e meia. O que  causa sobressaltos nas autoridades. Mas há também quem vá remando sobre pranchas de surfe, stand up paddles ou canoas havaianas. Naturalmente o mais prudente é ir de barco e, se possível, ter alguma experiência em mergulho para curtir outra das mais bacanas atrações no lado ímpar da Vieira Souto: o “Buff da Redonda”.

MERGULHO NO “BUFF DA REDONDA”

O tal “Buff da Redonda” refere-se a uma caverna submersa localizada na Filhote da Redonda, uma pequena ilhota próxima à Ilha Redonda, conhecida por mergulhadores.  Sua entrada fica a cerca de 12 metros de profundidade e lá dentro há espaço para até seis pessoas e uma bolha de ar permanente, onde se pode até tirar o equipamento. O barato é quando as ondulações marítimas batem na ilha e do ponto de entrada da caverna emerge o tal Buff, uma grande torre de espuma.  Se quiser encarar, existem hoje cerca de 40 empresas credenciadas para a condução de mergulhos.

“Temos aqui até uma piscina natural na Ilha Redonda”, conta Leonardo Machado, agente do Monumento Natural do Arquipélago das Ilhas Cagarras (MONA Cagarras): “é o que chamamos de piscina de maré. Quando ela sobe, invade um pedaço da ilha e forma essa piscina.  Dá até pra ver peixes por lá. Mas o pessoal prefere mesmo escalar as pedras pra mergulhar do alto”, diz ele. E se o mar quando quebra nas Cagarras é bonito, tem mais coisa boa vindo por aí. O ICM-Bio está finalizando uma trilha na Ilha Comprida, que oferecerá uma vista privilegiada do lado par de Ipanema e Leblon. Nos meses de junho e julho, o point permite avistamentos de orcas, golfinhos e jubartes que cruzam as águas do Rio.

A caminhada será sobre o costão rochoso e em pequenas áreas da Mata Atlântica insular. Estão sendo finalizados alguns ajustes, como, por exemplo, no modelo de visitação a ser adotado.

“A ideia é que seja um modelo autoguiado, onde o visitante possa, por exemplo, contratar um guia na colônia Z13 (Copacabana) ou escolher uma das empresas que já operam o turismo e são credenciadas pelo MONA Cagarras para transportar os visitantes. A partir daí, a pessoa chega até a Ilha Comprida, faz o desembarque e se conecta com toda a sinalização que já estamos instalando”, detalhou Breno Herrera, gerente Sudeste do ICMBio.

OS INVASORES

Evidentemente nem tudo são peixinhos coloridos por aqui. O arquipélago sofre com a invasão de um inimigo estrangeiro formalmente conhecido como Tubastraea Lesson 1829, ou, no popular, Coral-Sol. Ele é originário dos oceanos Pacífico e Índico e chegou até aqui preso ao casco dos navios. “Se não for controlado, ele pode matar ou deslocar espécies nativas do mar carioca, como mariscos, esponjas, algas e corais endêmicos da região”, explica Tatiana Ribeiro, chefe da unidade de conservação. Semanalmente mergulhadores tentam arrancar esses corais das ilhas. E no início dos anos 2020, outro perigo foi identificado: espécimes de peixe-leão, vindas do Caribe. “O peixe-leão é uma ameaça ao ecossistema marinho porque é voraz, se reproduz rapidamente e não tem predadores naturais no Brasil. Ele também é venenoso e pode causar problemas de saúde em humanos”, explica Tatiana.

No último domingo (13/4), a unidade de conservação do Monumento Natural do Arquipélago das Cagarras comemorou seus primeiros 15 anos de existência. Teve festa na Colônia de Pescadores Z-13, com direito a bolo, atriz vestida de sereia, e até presente, na forma de uma nova lancha para operações, mais moderna e três vezes mais rápida que os antigos modelos arrendados pelo ICMBIO.  Mas, ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Hoje apenas sete funcionários do ICMBIO são formalmente responsáveis pelo manejo dessa maravilha da natureza. Praticamente um por ilha. Que Netuno os proteja.

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