Você está em uma festa de rua, bebendo alguns drinks que acabam não caindo muito bem. Se afasta da multidão para tomar um ar, mas a pressão baixa e a bebida querendo voltar impossibilitam continuar. Decide ir para casa. No dia seguinte, descobre que sua imagem foi registrada e compartilhada em uma rede social por uma amiga — o pedido para que o vídeo seja retirado é respondido com deboche, como se aquilo fosse algo descontraído.
Essa foi a experiência de Nina Bassetti, estudante de 19 anos, que se viu vítima do que especialistas chamam de “cultura do registro”: a priorização do ato de filmar ou fotografar antes de oferecer ajuda.
Com a popularização dos aparelhos digitais e smartphones, é possível gravar ou fotografar um acontecimento em um ou dois cliques. A imagem, em muitos casos, pode expor uma situação, mas também pode servir como prova, registro e documentação. Para Nina, ver o registro significou traição e a situação também provocou um corte definitivo na amizade.
“A gravação foi feita justamente pela amiga que esteve comigo naquele momento, com a questão de mostrar o quão mal eu estava, expondo meu estado de vulnerabilidade. Eu pedi que ela retirasse o vídeo das redes, já que não tinha gostado nem um pouco, mas fui tratada com desfeita, como se aquilo não fosse nada de mais”, desabafa.
A câmera como extensão do olhar humano
Antes de falar sobre a cultura do registro, é preciso compreender os papéis historicamente associados à câmera. Inicialmente, o dispositivo era visto como uma extensão do olhar humano, funcionando como ferramenta de registro documental, memória coletiva e expressão artística, explica o professor e pesquisador Michele Pucarelli, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Essas transformações deslocaram a câmera de um papel passivo para um papel ativo na construção de narrativas visuais, pois ela não apenas observa, mas também intervém”, conta. Neste sentido, a câmera pode servir de três formas: símbolo, espelho e escudo.
• Símbolo: representa o poder de ver e mostrar, mas também de nos proteger emocionalmente da cena.
• Escudo: em vez de agir diante da dor, muitos escolhem filmar. O registro se torna uma forma de se sentir presente, buscar validação ou se proteger do impacto real. A repetição de imagens violentas pode anestesiar e quanto mais vemos, menos sentimos.
• Espelho: a imagem reflete mais sobre quem a registra do que sobre o que é registrado.
Essa sobreposição revela um paradoxo contemporâneo: o ato de registrar pode ser tanto um gesto de denúncia quanto um gesto de omissão, uma ferramenta de transformação social ou um mecanismo de anestesia diante do sofrimento alheio.
“Hoje, qualquer pessoa com um celular pode produzir imagens com potencial de denúncia, mobilização ou preservação da memória. Isso ampliou significativamente o acesso à produção simbólica”, diz.
Uma das reações desse efeito é a fragmentação das autoridades, como o próprio jornalismo, afirma Pucarelli: “O monopólio da imagem jornalística foi quebrado. O cidadão comum pode atuar como fonte, produtor e difusor de conteúdo. O problema dessa situação é a ambivalência ética”, afirma.
Nesse sentido, a imagem deixa de se tornar um retrato da realidade para servir como um dispositivo político:
“Ao mesmo tempo que essa democratização empodera, ela também gera dilemas sérios, como o uso irresponsável da imagem, a exposição indevida de vítimas e a espetacularização da dor. Logo, nesse novo contexto, a imagem não é apenas um registro ou documento; ela se torna um dispositivo político, capaz de gerar ação ou inércia, empatia, indiferença ou revolta”, detalha o pesquisador.

Gravação como prova
No último dia 7, um trio de mulheres que aplicou o golpe “Boa Noite, Cinderela” em dois turistas, foram gravadas entrando em um táxi logo após o crime em Ipanema, na Zona Sul do Rio.
Uma das vítimas, um turista britânico, acabou caindo na areia desnorteado, ficando pelo menos dez minutos desacordado até ser ajudado por um motoboy de 19 anos que gravou o crime. A gravação, divulgada nas redes sociais, auxiliou a investigação realizada pela Delegacia de Atendimento ao Turista (Deat).
Na quarta-feira (13), o Ministério Público do Rio de Janeiro pediu pela prisão preventiva das três acusadas — que roubaram R$ 14 mil das vítimas, além dos celulares deles.
Neste caso em específico e outros parecidos, a gravação serve como prova, registro documental. Muitas vezes, a gravação é a única reação possível, seja para documentar e garantir justiça posterior, seja para tentar impedir a continuidade de uma ação violenta.
É o que explica o antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Lenin Pires: “A pessoa, na condição de vítima, não tem muito o que fazer. Talvez, no máximo, pegar o celular. Mas tudo depende do nível de proximidade e também do nível de coragem da pessoa. Depende do quanto ela, dependendo das circunstâncias, consegue reagir”.
Ainda assim, há pessoas que registram o momento por curiosidade ou engajamento. Esses atos carregam dimensões morais e éticas complexas.
“O filmar, nesse caso, não tem muito ‘se’. A tecnologia, agora, pode ser percebida como a única reação possível, a de fazer o registro para que se faça justiça a posteriori ou para tentar dissuadir a pessoa de continuar a ação. Mas também existem pessoas que são curiosas ou que querem produzir engajamento, nesse ponto, sim, podemos ter elementos de natureza moral ou, se preferir, até mesmo ética”, exemplifica Lenin.

Memória acelerada e visibilidade digital
Desde cartazes e outdoors até a produção cinematográfica caseira, a presença da imagem se tornou central. Com os smartphones, a memória digital muitas vezes se sobrepõe à experiência direta: é comum ver pessoas filmando museus ou shows mais preocupadas com a tela do celular do que com a experiência em si.
Neste sentido, a visualidade se intensifica pela aceleração da vida contemporânea, aponta o professor de Psicologia Clínica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Rodolfo Rodrigues de Souza.
“As redes sociais não são o início desse processo, mas, até esse momento, são o ponto de convergência de uma lógica em que é preciso registrar para ter vivido, para se resgatar a memória desse vivido. Além disso, para poder deixar evidente para as demais pessoas que aquilo foi vivido por mim, que eu estava lá”.
Registrar se tornou também uma forma de afirmação social. Quando publicada nas redes, a gravação é medida em likes, visualizações e compartilhamentos.
Além disso, a possibilidade de monetização cria incentivos para buscar o vídeo perfeito, que atraia engajamento e validação imediata. Essa lógica transforma o registro em um ato competitivo, em que o valor da experiência é medido pelo impacto digital, não pela vivência.
“O ‘eu fui’ de hoje em dia me permite saber quantas pessoas sabem que ‘eu fui’. Além do like, os aplicativos me dizem quantas pessoas viram a imagem, mesmo sem curti-la, quantas curtiram, quantos perfis foram impactados pela minha imagem, quantos são de pessoas que não me seguem e quantos são de pessoas que já me acompanham. Isso tudo participa de uma lógica que nos convoca a uma nova postagem para que essas métricas possam ser melhores”, afirma.

O fascínio pela tragédia
O fetiche com a violência e a destruição não é exclusivo do contemporâneo. O professor recorda Pompeia, onde visitantes antigos eram atraídos pelos corpos retorcidos das vítimas da erupção do Monte Vesúvio.
Hoje, a mesma lógica se repete com fotos de acidentes, tragédias e desastres naturais, mas em escala ampliada pelo volume e velocidade das redes sociais. A imagem participa da tentativa de desvendar o mistério da morte e da destruição e acaba refletindo um fascínio histórico, cultural e psicológico.
“A morte é o mistério, a destruição é o mistério. Ficamos tentando desvendar esse mistério que é também o nosso. A imagem participa dessa tentativa, desse fascínio”, analisa Souza.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


Deixe um comentário