Qual é o bairro mais musical do Rio?
Reportagem Especial

Qual é o bairro mais musical do Rio?

Ele é a mais ativa e fervilhante usina atômica de gênios da história musical carioca. Foi local de nascimento de lendas como Noel Rosa, Tom Jobim, Mário Reis, Erasmo Carlos, Tim Maia e Jorge Ben Jor, acompanhado do acolhimento formador da imigração de titãs inigualáveis como…

Se você sempre acreditou piamente que o charme de Copacabana e os versos dedicados à “Garota de Ipanema” rendiam à Zona Sul a inquestionável coroa de realeza musical da Guanabara, chegou a hora de rever suas convicções. Um levantamento geográfico e histórico focado nas raízes da MPB revela que a Grande Tijuca, na Zona Norte, concentra a maior proporção de nascimentos e formações de ícones musicais do Cidade Maravilhosa. Desde os primórdios do samba até a consolidação da Bossa Nova e do Rock Nacional, o complexo, que compõe o único conjunto de bairros do Rio onde os nativos têm gentílico próprio, é o principal “ninho” formador de compositores e intérpretes da cidade que conquistaram o Brasil, superando em dados absolutos a produção dos bairros litorâneos tradicionalmente turísticos, conforme corroboram arquivos municipais de registro civil, acervos fonográficos e biografias consagradas escritas por jornalistas e historiadores. 

A ideia de que a Tijuca seja o bairro mais musical do Rio não é apenas uma provocação divertida, é uma hipótese sustentada por uma impressionante concentração de talentos ao longo de mais de um século. Do samba do Estácio à Mangueira, dos casarões chiques da Conde de Bonfim ao agito da Rua do Matoso, a região funcionou como um verdadeiro celeiro cultural. Mais do que um território geográfico, a Tijuca e seus arredores formam um ecossistema musical. Um lugar onde morro e asfalto, tradição e inovação, convivem em harmonia como uma boa roda de samba que parece nunca terminar. 

E se ainda falta o título oficial de “bairro mais musical do Rio”, a Tijuca tem, pelo menos, um dossiê de prova prontinho a seguir. 

O que é a chamada Grande Tijuca? 
 
Dentre as várias peculiaridades da Guanabara está o fato de alguns bairros crescerem, diminuírem de tamanho ou até mesmo sumirem da lembrança do povo, dependendo dos mais variados fatores, que vão de modismos de época à mais descarada especulação imobiliária. São casos como do Leme, que perdeu parte de seu território para Copacabana; do Andaraí, que encolheu até quase sumir antes de voltar à moda numa novela global; e vale uma rodada de caipirinhas no Bar do Bode Cheiroso se você souber, sem colar no Google Maps, onde fica a Aldeia Campista. 

Brincadeiras à parte, quando se referem à Grande Tijuca, jornalistas e historiadores não se prendem aos limites frios e burocráticos da 8ª Região Administrativa (RA) do município, mas aos de uma grande mancha urbana muito mais poética que engloba tudo que vai do Estácio até o Alto da Boavista (inclusive) e adjacências, como o Maracanã, Grajaú, Praça da Bandeira e diversas comunidades como Salgueiro, Borel ou Mangueira. 

A importância cultural desta demarcação não-oficial transcende em muito suas fronteiras oficiais. Em termos antropológicos e musicais, a arquitetura da Grande Tijuca forjou um caldeirão sociológico perfeito. Como aponta o historiador Luiz Antonio Simas em suas crônicas sobre o Rio, a confluência das esquinas da classe média (como a Praça Sáenz Peña e a famosa Rua do Matoso) com a tradição rítmica dos morros ao redor fez da região uma incubadora irreplicável. Foi ali que o asfalto letrado se apaixonou pelo morro percussivo, gerando as matrizes do samba urbano, da Bossa Nova e da Jovem Guarda. 

Mas vamos por partes, ou por ritmos.

O samba nas regras da arte 

Desde o início do que viria a se chamar Música Popular Brasileira, a Tijuca foi berço de nomes que são incontornáveis até hoje. E no contexto do samba, alguns deles foram fundamentais para fazer a ligação morro-asfalto em tempos em que para o governo, fazer política social na favela era assunto de polícia. 

Mas antes de tratarmos disso, como antiguidade é posto, o primeiro nome dessa lista é o de Carlos Roberto de Oliveira, mais conhecido como Carlos Cachaça, nascido no dia 3 de agosto de 1902 numa modesta casa de pau a pique perto dos trilhos ferroviários da recém-fundada favela da Mangueira. Ele é catalogado no Dicionário Cravo Albin não apenas como o parceiro inseparável das letras de Cartola, mas também como um dos construtores da estrutura narrativa que culminaria na criação do formato do samba-enredo como conhecemos. Cartola, para quem não sabe, não nasceu na Mangueira, mas no Catete.  Ele se mudou para a comunidade aos 11 anos e mais ou menos uma década depois fundou com amigos sambistas como Carlos Cachaça, o Bloco dos Arengueiros, que viria a se tornar a Estação Primeira de Mangueira. 

Carlos Cachaça, um dos criadores do formato do samba-enredo (Crédito: Divulgação)

Seguindo a nossa ordem cronológica, um personagem que rompeu com o estereótipo do sambista nascido na margem e na privação, vindo ao mundo justamente na época de maior prestígio aristocrático da Grande Tijuca. No dia 31 de dezembro de 1907 em uma imponente mansão na rua Sampaio Viana, número 13, no Rio Comprido, o mundo conheceria Mário Reis, um dos maiores cantores da era do rádio, e, principalmente um dos mais significativos inovadores na forma de cantar da história musical do país. Ao invés do jeitão meio estridente da época, Mário Reis, valendo-se da intimidade com o recém-chegado microfone elétrico nas rádios, adotou uma suavidade pausada, quase falada, intimista, que anos mais tarde influenciaria cantores declaradamente, como João Gilberto e Caetano Veloso, entre outros.

Três anos mais tarde, no dia 11 de dezembro de 1910, na Rua Teodoro da Silva 542, em Vila Isabel, nasceu aquele que era tudo o que o Cole Porter queria ser. Noel de Medeiros Rosa, o eterno “Poeta da Vila”, foi fruto de um parto de altíssima complexidade e sofrimento. A intervenção forçada dos médicos, que precisaram usar fórceps para salvar a mãe e o bebê, acabou provocando o afundamento e a paralisia do maxilar inferior de Noel, que se tornaria uma marca indelével de sua figura.  

Num desses alinhamentos estelares de rara ocorrência, Noel tinha um amigo na Mangueira chamado Cartola, com quem até assinou uns sambas-enredo para a novata escola de samba. E seu cantor predileto na hora de gravar suas canções era…Mário Reis. E para não falar mais da Mangueira (como se fosse possível), em 1913, em São Cristóvão, brotou um José Bispo Clementino dos Santos que faria sucesso na verde-rosa não como um puxador de samba, mas um intérprete, como fazia questão de dizer Jamelão. 

E para evitar dizerem que não falei de outras flores, a Tijuca tem algumas situações emblemáticas onde a geografia do nascimento não chega nem perto do pertencimento histórico. São casos como o de Ismael Silva, que nem carioca é. Ele nasceu em uma vila de pescadores em Jurujuba, Niterói, em 14 de setembro de em 1905. Mas quem vai dissociá-lo do Estácio? Ele se mudou para lá quando era um bebê de apenas três anos e viria a se tornar um dos fundadores da primeira escola de samba carioca, a “Deixa Falar”. E ainda nesse quesito fica a pergunta: o Martinho é da Vila (Isabel), para onde mudou-se com apenas quatro anos, ou da Fazenda do Cedro Grande, em Barra Mansa, no interior do estado, endereço de sua gênese em 12 de agosto de 1938? 

Um cantinho, um violão… 

Depois dessa avalanche de nomes dos primórdios do Samba, na Bossa Nova destacamos só um. Afinal essa relação não precisava de mais ninguém além do maestro que está entre os maiores, senão o maior compositor desse estilo, ao lado de Vinícius de Moraes. Porque, chora Ipanema, no dia 25 de janeiro de 1927, Tom Jobim veio ao mundo em um casarão na Rua Conde de Bonfim, número 615, praticamente em pleno epicentro da Tijuca.  

Uma lenda urbana reza que sua parteira teria sido a mesma de Noel Rosa, conectando de alguma forma os dois gênios da música brasileira. Mas não há nenhuma confirmação documental dessa história.

Nesse período da década de 1920, a Tijuca configurava-se como um dos locais residenciais mais elegantes e arborizados de todo o Brasil, distante da ocupação litorânea que ainda era incipiente. Justiça seja feita, já que falamos antes de pertencimentos históricos, Tom Jobim viveu apenas quatro anos na Tijuca antes que seus pais divorciassem e ele se mudasse, em 1931, para os areais recém-loteados de Ipanema. 

O maestro Tom Jobim: um tijucano raiz (Crédito: Reprodução)

Eu sou um negro gato de arrepiar 

Já na época da Jovem Guarda, a Tijuca virou um point culturalmente tão efervescente quanto décadas depois seriam os Baixos Gávea e Leblon. E o centro dessa ebulição toda era o Bar Divino, na esquina da Haddock Lobo com Rua do Matoso, em frente ao extinto Cine Madrid _ ambos hoje abandonados patrimônios culturais cariocas. 

O point da turma da Jovem Guarda na Rua do Matoso (Crédito: Reprodução)

E entre a galera que circulava por ali uma grupo se destacava: a “Turma da Matoso”. Era formada por uma garotada como Erasmo Esteves, nascido na tijuquérrima rua Professor Gabizo, em 5 de junho de 1941, e que adotou o mesmo sobrenome artístico de um amigo capixaba, duro de dar dó, que zanzava por pensões baratas da Tijuca e Vila Isabel: Roberto Carlos. 

Se ainda resta alguma dúvida da força criativa tijucana, Sebastião Rodrigues Maia resolve isso com seu inconfundível registro vocal. O Síndico nasceu no dia 28 de setembro de 1942, em uma casa situada na Rua Afonso Pena, no número 24. A família logo migrou para manter um estabelecimento maior, o conhecido “Pensionato do Maia”, gerenciado por seus pais na paralela Rua Professor Gabizo. E foi andando por lá, fazendo entregas (e roubando o conteúdo das marmitas) que Tim Maia ficou amigo de Erasmo Carlos. 

Os Sputniks, com Tim Maia à esquerda e Roberto Carlos à direita nos violões (Crédito: Reprodução)

E para corar a impressionante estatística do bairro e quebrar qualquer acusação de amostragem viciada, outro integrante da turma era nada menos que Jorge Duílio Lima Meneses. Um rapaz muito pobre, filho de um estivador, que nasceu no dia 22 de março de 1939, numa favela da Rua do Bispo, entre Tijuca e Rio Comprido, e que ficaria famoso com o nome artístico de Jorge Benjor.  

Sua formação musical é talvez a mais híbrida deste quarteto, balançando-se com os ventos da batucada ritmada do Salgueiro enquanto ouvia no Divino os emergentes astros do rockabilly internacional. E uma última curiosidade. Tanto Erasmo como Benjor chegaram a sonhar com a carreira de jogador de futebol e até fizeram treinos no Flamengo. Acabaram dispensados. E a MPB agradece. 

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