Putin e Xi Jinping defendem ordem internacional multipolar e destacam América Latina como ‘zona de paz’

China e Rússia assinam cerca de 20 acordos bilaterais e divulgam declaração conjunta em defesa da ordem multipolar, contra interferências externas e a favor das soberanias nacionais

Os presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, ampliaram nesta quarta-feira (20) a parceria estratégica entre os dois países durante encontro realizado no Grande Salão do Povo, em Pequim. Segundo informações do Opera Mundi, a reunião terminou com a assinatura de uma série de acordos bilaterais e a divulgação de uma declaração conjunta em defesa da ordem multipolar, da soberania nacional e de relações internacionais guiadas pelos princípios da Carta das Nações Unidas.

O encontro ocorre em meio ao agravamento das tensões geopolíticas globais, às disputas comerciais entre grandes potências e aos conflitos em diferentes regiões do planeta. No documento divulgado após a reunião, Moscou e Pequim fizeram críticas indiretas às ações militares unilaterais conduzidas por potências ocidentais e defenderam mudanças no sistema internacional.

Os dois líderes condenaram “o lançamento pérfido de ataques militares contra outros países” e também “o uso hipócrita de negociações como cobertura para preparar ataques” que violem os princípios estabelecidos pela ONU.

A declaração conjunta também dedica espaço à América Latina e ao Caribe. China e Rússia reafirmaram “o status da América Latina e do Caribe como zona de paz” e manifestaram apoio “aos países da América Latina e do Caribe na escolha independente de seus caminhos de desenvolvimento e parceiros”.

O documento ainda faz críticas à atuação de forças estrangeiras na região.

Os governos de Xi Jinping e Vladimir Putin condenaram “a interferência de forças externas nos assuntos internos dos países da América Latina e do Caribe sob qualquer pretexto”.

Em outro trecho, os dois países criticam “o sequestro descarado de líderes nacionais para submetê-los a uma farsa judicial”, prática que, segundo o texto, provoca danos à ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

Xi critica unilateralismo e fala em “lei da selva”

Durante a reunião bilateral, Xi Jinping afirmou que o cenário internacional atravessa um momento de forte instabilidade e criticou tendências unilaterais na política global.

“A situação internacional está flutuando e é complexa, e correntes unilaterais e hegemônicas estão furiosas”, declarou o líder chinês.

Apesar disso, Xi disse acreditar que “a busca pela paz, desenvolvimento e cooperação continua sendo o desejo do povo e a tendência geral”.

O presidente chinês também ressaltou o papel de China e Rússia como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e defendeu maior coordenação estratégica entre os países.

“Devem olhar para o futuro estratégico, impulsionar o desenvolvimento e a revitalização de seus respectivos países por meio de uma cooperação estratégica abrangente de maior qualidade, contribuindo para a construção de um sistema de governança global mais justo e razoável”, afirmou.

Xi Jinping também fez críticas ao que chamou de “bullying unilateral” e alertou para o risco de retorno à chamada “lei da selva” nas relações internacionais.

Segundo o presidente chinês, Pequim e Moscou precisam atuar juntas na defesa da justiça e da equidade internacionais, além de trabalhar “pela construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, com a coragem de manter a calma em meio à turbulência”.

Ao comentar a guerra envolvendo o Irã, Xi afirmou que novas hostilidades são “desaconselháveis” e defendeu que um “cessar-fogo abrangente é de extrema urgência”.

Parceria econômica é ampliada

Além das declarações políticas, o encontro consolidou novos avanços na cooperação econômica entre China e Rússia.

Xi e Putin decidiram ampliar o Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável firmado originalmente há 25 anos entre os dois países.

Ao todo, cerca de 20 acordos bilaterais foram assinados envolvendo setores como indústria, transporte, energia, comércio, inovação tecnológica e educação.

A delegação russa enviada a Pequim também demonstrou a relevância estratégica atribuída pelo Kremlin à visita. A comitiva incluiu cinco vice-primeiros-ministros, oito ministros, além de representantes do Banco Central da Rússia e dirigentes de empresas estatais consideradas essenciais para a economia do país.

Durante o encontro, Vladimir Putin destacou a importância da parceria energética entre Moscou e Pequim.

“A locomotiva da cooperação econômica é a interação russo-chinesa no campo energético”, afirmou o presidente russo.

Putin também ressaltou que a Rússia continua sendo um “fornecedor confiável de energia”, mesmo diante das tensões internacionais.

“Em meio à crise no Oriente Médio, a Rússia mantém seu papel como fornecedora confiável de recursos, e a China como consumidora responsável desses recursos”, declarou.

O líder russo classificou a relação entre os dois países como uma parceria “sem precedentes” e agradeceu “o desejo do presidente Xi Jinping de manter uma cooperação de longo prazo com a Rússia”.

Xi, por sua vez, afirmou que a relação entre Moscou e Pequim atingiu o “mais alto nível de parceria estratégica abrangente”.

Aliança ganha peso em meio à reorganização global

A aproximação entre China e Rússia ocorre em um cenário de reconfiguração das alianças internacionais e aumento das disputas econômicas e militares entre potências globais.

Nos últimos anos, Pequim e Moscou ampliaram significativamente a cooperação em áreas estratégicas, especialmente após o agravamento das tensões entre a Rússia e países ocidentais por causa da guerra na Ucrânia e das disputas comerciais envolvendo China e Estados Unidos.

A defesa de uma ordem multipolar e de reformas nos organismos internacionais tem se tornado um dos principais pontos de convergência entre os governos de Xi Jinping e Vladimir Putin.

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