O PSOL enfrenta uma forte divisão interna às vésperas de uma decisão considerada estratégica para o futuro do partido. A executiva nacional da legenda se reúne neste sábado para deliberar sobre a possibilidade de integrar a federação partidária formada por PT, PV e PCdoB.
A proposta, que tem gerado intensos debates entre as correntes internas do partido, é defendida principalmente pelo grupo Revolução Solidária, ligado ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e à deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).
Por outro lado, alas importantes da legenda se posicionam contra a federação. Entre elas estão correntes como Primavera Socialista e Movimento Esquerda Socialista, que argumentam que a aliança pode comprometer a autonomia política do partido.
Ala contrária diz ter maioria para barrar proposta
Lideranças desses grupos afirmam que possuem maioria na executiva e trabalham para impedir a adesão do PSOL à federação liderada pelo PT. Um dos principais críticos da proposta é o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ).
Segundo o parlamentar, a união partidária poderia limitar a independência programática da legenda e reduzir sua capacidade de atuar em pautas próprias.
— Uma federação com o PT dilui programaticamente o partido, porque engessa e dificulta o exercício da independência política para tocar lutas fundamentais. Além disso, determina eleitoralmente o que o partido vai fazer e até o que não vai fazer — afirmou o deputado.
Estratégia eleitoral e cláusula de barreira
O convite para que o PSOL ingresse na federação foi feito pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, dentro de uma estratégia voltada para as próximas eleições e para o cumprimento da cláusula de barreira.
Pelas regras atuais, os partidos precisam eleger pelo menos 13 deputados federais distribuídos em um terço das unidades da federação ou alcançar 2,5% dos votos válidos nacionais para manter acesso ao fundo partidário e ao tempo de televisão.
Na quarta-feira, o grupo ligado a Boulos divulgou um manifesto nas redes sociais defendendo a união das forças progressistas. No texto, a corrente afirma que a convergência entre partidos de esquerda é necessária diante de ameaças políticas e econômicas.
Saída de integrantes amplia tensão interna
Apesar da mobilização em favor da federação, o manifesto provocou reação dentro do próprio grupo Revolução Solidária. Ao menos 47 integrantes anunciaram a saída da corrente, alegando discordância com a condução política do movimento.
Em comunicado, os dissidentes afirmaram que houve uma mudança no rumo político do grupo e criticaram a aproximação entre Boulos e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o texto divulgado, parte da militância avalia que a estratégia atual prioriza a projeção política de Boulos para disputas futuras, possivelmente mirando as eleições de 2030.
Disputa regional também influencia debate
Outro fator que pesa na resistência de setores do PSOL é a disputa política no Rio de Janeiro. O PT apoia a possível candidatura do prefeito Eduardo Paes (PSD) ao governo do estado.
Nesse cenário, uma das vagas ao Senado na chapa de Paes poderia ser ocupada pela deputada petista Benedita da Silva, o que gera desconforto em setores do PSOL que pretendem lançar candidaturas próprias no estado.
Enquanto a ala de Boulos perde apoio interno, outras correntes trabalham para manter a atual federação do PSOL com a Rede Sustentabilidade e apoiar a campanha de reeleição do presidente Lula.
Cargo de Boulos no governo também gera críticas
Nos bastidores da legenda, parte das lideranças acredita que Boulos pode estar preparando uma saída do partido. Interlocutores afirmam que a relação entre o dirigente e setores do PSOL se deteriorou desde que ele assumiu cargo no governo federal, em meados do ano passado.
Embora a executiva nacional tenha aprovado sua nomeação para a Secretaria-Geral da Presidência, correntes minoritárias criticaram a decisão e defenderam que o tema deveria ter sido amplamente debatido internamente.
Procurados por repórteres para comentar as críticas, Boulos não respondeu. Já Erika Hilton informou que não poderia conceder entrevista devido a questões de saúde. A presidente nacional do PSOL, Paula Coradi, também não se manifestou sobre o assunto.






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