Produtora de filme sobre Bolsonaro já era investigada há quase 10 anos

Relatórios da CGU apontavam suspeitas envolvendo ONG comandada por Karina Gama anos antes de sua aproximação com aliados do ex-presidente e da expansão de seus negócios com o poder público

A empresária Karina Gama, responsável pela produtora ligada ao filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), já figurava em relatórios de órgãos de controle e era alvo de questionamentos sobre a utilização de recursos públicos muito antes de se aproximar de lideranças da direita e firmar contratos milionários com administrações públicas. As informações são da colunista Daniela Lima, do portal UOL.

A informação foi revelada pelo site The Intercept Brasil e confirmada por documentos da Controladoria-Geral da União (CGU), que apontam suspeitas de irregularidades envolvendo o Instituto Conhecer Brasil, organização comandada por Karina. As apurações remontam a contratos celebrados com o Serviço Social da Indústria (Sesi) e envolvem suspeitas que vão desde falhas na prestação de contas até possíveis casos de superfaturamento e desvio de recursos.

Os documentos mostram que os questionamentos surgiram anos antes de a empresária ampliar sua atuação junto a parlamentares, gestores públicos e figuras influentes do campo conservador.

Relatório apontou vínculos entre empresas

Um dos pontos destacados pela auditoria da CGU envolve a contratação de uma empresa terceirizada para executar serviços relacionados à 9ª Feira da Cidadania, no Pará.

Segundo os auditores, a companhia escolhida pelo Instituto Conhecer Brasil possuía forte ligação com a entidade contratante, inclusive compartilhando endereço semelhante.

“Esta última empresa foi selecionada pelo Instituto Conhecer Brasil para montar a infraestrutura e realizar a divulgação da 9ª Feira da Cidadania – Pará. Com base em informação da Receita Federal do Brasil há relação entre as duas últimas empresas. Elas estão localizadas em endereços semelhantes. (…) Ou seja, o que diferencia os endereços das firmas é o número das salas”, anotou o auditor na inspeção publicada em 2021.

A coincidência de endereços voltou a chamar atenção recentemente após a revelação de que o Instituto Conhecer Brasil e a produtora associada ao filme “Dark Horse” operam no mesmo local e compartilham parte de sua estrutura operacional.

Segundo os documentos analisados, tanto a ONG quanto a produtora utilizam infraestrutura semelhante, incluindo elementos ligados à presença digital das organizações.

Expansão durante o governo Bolsonaro

A trajetória empresarial de Karina Gama ganhou novo impulso a partir da ascensão do bolsonarismo ao poder.

De acordo com informações reunidas na investigação, os negócios ligados à empresária passaram de contratos que movimentavam dezenas de milhões de reais para acordos de valor significativamente superior.

Entre os exemplos citados está um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo, já na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), destinado à implementação de sinal público de internet em áreas da capital paulista.

O projeto tornou-se alvo de investigações após suspeitas de que parte dos serviços contratados não teria sido efetivamente entregue.

A ampliação dos contratos ocorreu mesmo com a existência de relatórios e recomendações produzidos por órgãos de controle anos antes.

CGU recomendou cautela em novas contratações

Os documentos da Controladoria-Geral da União apontam que as irregularidades identificadas comprometeram o acompanhamento e a fiscalização de contratos patrocinados pelo Sesi.

“Diante do exposto, concluiu-se que as irregularidades apontadas nos exames realizados (…) comprometeram o acompanhamento e fiscalização dos objetos pactuados e não observaram o atraso na análise da prestação de contas dos Contratos de Patrocínios SESI-CN 034/2018 e 045/2018”, detalha o relatório.

As conclusões também levaram o próprio Sesi a rever sua relação com a entidade comandada por Karina Gama.

Segundo o documento, a instituição passou a adotar medidas para restringir novos acordos e reforçar os mecanismos de controle dos contratos já existentes.

“Na ocasião, no tocante aos patrocínios, duas foram as iniciativas imediatamente adotadas, por orientação da alta administração: a) cessar a celebração de novos patrocínios, tendo em vista que a celebração de tais negócios não se enquadrariam dentre as atribuições institucionais do Conselho; e b) imprimir maior robustez no processo de prestação de contas dos patrocínios que já estavam em andamento.”

Uma fonte ligada à CGU afirmou que os relatórios eram públicos e poderiam ser consultados por gestores e órgãos responsáveis por futuras contratações.

“Há pelo menos sete anos buscam reparação contra supostos danos provocados por empresas vinculadas a essa senhora, mas isso não impediu deputados de enviarem emendas para projetos capitaneados por ela, nem prefeituras de contratá-la”, disse o auditor.

Caso ganhou nova dimensão com o filme “Dark Horse”

A situação ganhou repercussão nacional após a divulgação de áudios e documentos relacionados ao financiamento do filme “Dark Horse”.

As revelações indicaram que a produção teria sido financiada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, atualmente investigado em diferentes frentes e preso sob acusação de fraude bilionária.

O caso ampliou o escrutínio sobre as atividades empresariais de Karina Gama e suas conexões políticas.

Segundo as investigações divulgadas até o momento, suspeitas que antes envolviam contratos de menor porte passaram a ser analisadas em operações que movimentam valores muito mais elevados.

Karina aproximou-se de figuras do bolsonarismo por meio de lideranças políticas, entre elas o deputado federal Mário Frias (PL-SP), e consolidou relações com setores da direita e do MDB.

Investigações continuam em andamento

Atualmente, atividades ligadas à empresária são alvo de apurações conduzidas por diferentes órgãos.

Segundo as informações disponíveis, há investigações em curso na Polícia Federal, na Polícia Civil de São Paulo e também procedimentos acompanhados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Até o momento, não houve conclusão definitiva das investigações nem decisão judicial transitada em julgado sobre os fatos mencionados nos relatórios e apurações.

O avanço das investigações deverá esclarecer se as irregularidades apontadas pelos órgãos de controle resultaram em ilícitos e quais poderão ser as consequências para os envolvidos.

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