‘Pressão dos Bolsonaros’: veja como a imprensa internacional repercutiu decisão de Trump sobre CV e PCC

Veículos dos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio relacionam decisão do governo Trump à atuação de Flávio Bolsonaro e apontam possíveis impactos diplomáticos, econômicos e eleitorais para o Brasil

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras provocou forte repercussão na imprensa internacional. A medida, anunciada pelo Departamento de Estado dos EUA, passou a ser analisada não apenas sob o ponto de vista da segurança pública, mas também pelos seus potenciais efeitos diplomáticos, econômicos e políticos.

Em comunicado divulgado nesta quinta-feira (28), o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que as duas facções brasileiras estão entre as organizações criminosas mais violentas do país e confirmou que a nova classificação passará a valer a partir de 5 de junho.

Segundo Rubio, PCC e CV “são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil” e passarão a ser designadas como Organizações Terroristas Estrangeiras.

O anúncio ocorreu apenas dois dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com Rubio e poucos dias depois de o parlamentar defender, durante encontro na Casa Branca, que o presidente Donald Trump classificasse as facções brasileiras como grupos terroristas.

The New York Times destaca atuação dos Bolsonaro

Um dos jornais mais influentes dos Estados Unidos, o The New York Times associou diretamente a decisão do governo dos EUA à articulação política da família Bolsonaro.

“Após nova pressão dos Bolsonaros, EUA classificam gangues brasileiras como grupos terroristas”, destacou o periódico em sua manchete sobre o tema.

A publicação afirmou que a medida foi tomada após “meses de lobby agressivo dos filhos do ex-presidente preso, Jair Bolsonaro, um aliado próximo de Trump”.

O jornal acrescentou que “a medida surge poucos dias depois de dois dos filhos de Bolsonaro, um dos quais planeja se candidatar à presidência ainda este ano, terem visitado Trump na Casa Branca”.

A reportagem também chamou atenção para os possíveis impactos diplomáticos da decisão. Segundo o veículo, a iniciativa pode gerar novos atritos entre Brasília e Washington.

O jornal afirmou que a decisão dos EUA “ameaça trazer tensão novamente às relações entre as duas maiores nações do Hemisfério Ocidental, que só recentemente começaram a reparar suas relações”.

Ainda segundo a publicação, há preocupação entre integrantes do governo brasileiro de que a medida possa influenciar o cenário político nacional.

“Isso gerou preocupação entre autoridades brasileiras de que os EUA possam estar tentando influenciar as próximas eleições, ajudando um novo Bolsonaro. Flávio Bolsonaro afirmou que desafiará nas eleições de outubro o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, a quem acusa de ser leniente com o crime.”

Possíveis impactos sobre bancos e empresas

Outro ponto destacado pelo The New York Times diz respeito às consequências econômicas da classificação das facções como organizações terroristas.

Segundo o jornal, o enquadramento permite ao governo dos EUA ampliar mecanismos de sanções econômicas contra indivíduos, empresas ou instituições que mantenham relações comerciais ou financeiras com organizações incluídas nessa lista.

“A designação pelos EUA pode causar grandes dores de cabeça para o setor bancário, pois pode permitir que os EUA imponham sanções a instituições brasileiras que possam ter feito negócios com as quadrilhas”, afirmou a reportagem.

O veículo também alertou para a crescente infiltração do crime organizado em setores da economia formal brasileira.

“Especialistas afirmam que isso representa um risco significativo, pois as quadrilhas brasileiras conseguiram se infiltrar na economia formal, acumulando participações na distribuição de gás, no mercado imobiliário, em commodities e em criptomoedas. Isso deixa as instituições financeiras brasileiras vulneráveis.”

Financial Times vê impulso político para Flávio Bolsonaro

No Reino Unido, o Financial Times também relacionou a decisão do governo Trump à recente visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos.

Segundo o jornal britânico, a classificação já vinha sendo analisada pelas autoridades estadunidenses há meses, mas o momento escolhido para o anúncio pode gerar reflexos políticos.

“Embora Washington já estivesse considerando a mudança há pelo menos um ano, o momento escolhido [para a decisão] dará um impulso ao senador de 45 anos, conhecido por sua postura firme em relação à lei e à ordem”, destacou o periódico.

O jornal também ressaltou a resistência do governo brasileiro à medida.

“O governo Lula resistia à medida, argumentando que os grupos não perseguem objetivos ideológicos e que a designação poderia levar a uma intervenção militar dos EUA no Brasil.”

Para o Financial Times, a iniciativa tem potencial para dificultar a reaproximação que vinha sendo construída entre os governos Lula e Trump.

“Embora já estivesse em andamento uma reaproximação entre os governos [Trump e Lula], como evidenciado pela visita de Lula a Washington no início deste mês, a medida de quinta-feira pode pôr em risco esse progresso.”

Al Jazeera aponta risco de ampliação da influência estadunidense

A emissora Al Jazeera, do Catar, abordou a decisão dentro de um contexto mais amplo da política externa do governo Trump para a América Latina.

Segundo a rede, desde o retorno à Casa Branca, Trump vem ampliando a utilização da classificação de terrorismo contra organizações criminosas da região.

“Desde que retornou à Casa Branca para um segundo mandato, Trump tem buscado a designação de ‘terroristas’ para diversas redes criminosas latino-americanas.”

A emissora destacou que a estratégia tem sido alvo de críticas em diversos países.

“Esses esforços têm sido criticados como um pretexto para expandir a influência militar dos EUA no Hemisfério Ocidental, como parte da ‘Doutrina Donroe’ de Trump, sua versão da política expansionista do século 19 conhecida como Doutrina Monroe.”

A reportagem também avaliou que a decisão poderá produzir reflexos diretos na disputa política brasileira.

“Trump já interveio na política brasileira em favor da família Bolsonaro. No ano passado, ele aumentou as tarifas de importação do Brasil para quase 50% em um ato de solidariedade ao pai de Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro.”

O texto ainda lembrou os desdobramentos judiciais envolvendo o ex-presidente brasileiro.

“Assim como Trump, Jair Bolsonaro foi indiciado por tentativa de subversão da democracia após sua derrota nas eleições de 2022. Apesar dos apelos de Trump para que o processo contra Bolsonaro fosse encerrado, o ex-presidente acabou sendo condenado a 27 anos de prisão.”

France24 destaca divergência entre governos de esquerda e direita

Na Europa, a emissora francesa France24 destacou as diferentes reações dos governos latino-americanos às classificações promovidas pelos Estados Unidos.

Segundo a reportagem, países governados por lideranças de centro-esquerda tendem a demonstrar maior resistência à medida, enquanto administrações de direita costumam apoiar esse tipo de enquadramento.

“Países como o México e o Brasil, com líderes de centro-esquerda, têm se manifestado veementemente contra as designações [de quadrilhas criminosas como terroristas], enquanto outros, como o Equador e Honduras, governados por governos de direita, as apoiaram.”

A emissora também avaliou que a medida representa um desafio político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Do ponto de vista político, a designação de terrorista é uma clara afronta a Lula, que saiu de uma reunião presencial com Trump em Washington no início deste mês ‘muito satisfeito’”, afirmou a reportagem.

Decisão amplia debate internacional

A repercussão global da medida demonstra que a classificação do PCC e do Comando Vermelho ultrapassou o campo da segurança pública e passou a integrar discussões sobre relações internacionais, economia e política interna brasileira.

Enquanto apoiadores da iniciativa defendem que ela amplia os instrumentos de combate ao crime organizado transnacional, críticos alertam para possíveis impactos diplomáticos, comerciais e eleitorais. O tema tende a permanecer no centro do debate nas próximas semanas, especialmente com a entrada em vigor da medida prevista para o início de junho.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading