Um detalhe no uniforme de um dos homens presos durante a operação da Polícia Militar em Vigário Geral e Parada de Lucas chamou a atenção nesta segunda-feira (24). O suspeito usava um colete tático com uma bandeira de Israel, símbolo incorporado à identidade criada pelo tráfico no território conhecido como Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio.
A utilização da bandeira não indica qualquer relação do preso ou da organização criminosa com o Estado de Israel. A referência integra um conjunto de símbolos religiosos adotados pelo grupo ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP) e comandado por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como um dos criminosos mais procurados pelas forças de segurança do Rio.
A operação mobilizou mais de 200 policiais e teve entre seus objetivos combater práticas de intolerância religiosa atribuídas a integrantes do tráfico, além de tentar impedir novos confrontos provocados pela disputa de territórios na Zona Norte.
Quatro suspeitos foram presos em uma região de mata. Dois fuzis também foram apreendidos.
Símbolos no território
O uso de referências a Israel tornou-se uma das características dos territórios controlados por Peixão. Em 2020, o criminoso passou a chamar de Complexo de Israel o conjunto de comunidades sob influência de sua quadrilha.
Desde então, bandeiras israelenses, estrelas de Davi e referências bíblicas passaram a aparecer em diferentes pontos das comunidades. Muros também receberam inscrições religiosas, entre elas a frase “Jesus é o dono desse lugar”.
Uma grande Estrela de Davi iluminada foi instalada no alto de uma caixa d’água e pode ser vista da Linha Vermelha. Segundo o relato publicado pelo Extra, integrantes do tráfico chegaram a adotar fardamento verde-oliva semelhante ao utilizado por militares israelenses.
A simbologia, entretanto, é uma construção própria da organização criminosa e não representa ligação institucional, política ou operacional com Israel.
Operação contra intolerância
A ofensiva desta segunda-feira foi apresentada pela Polícia Militar como a segunda etapa de uma ação iniciada na sexta-feira. Na primeira fase, agentes atuaram na Cidade Alta, onde mais de nove veículos foram recuperados e mais de dez toneladas de barricadas retiradas.
“Essa é a segunda fase de uma ação iniciada na sexta-feira, quando a Polícia Militar atuou na Cidade Alta, onde mais de nove veículos foram recuperados e mais de dez toneladas de barricadas foram removidas”, afirmou o major Maicon Pereira, porta-voz da PM.
Segundo a corporação, além de combater a intolerância religiosa, a operação buscou evitar confrontos entre criminosos do Complexo de Israel e grupos de comunidades como Dourados, Tinta, Quitungo e Complexo da Penha.
Durante a mobilização policial, criminosos também incendiaram caminhões e bloquearam trechos da Avenida Brasil. De acordo com o porta-voz da PM, a ação foi realizada por integrantes do tráfico de Acari, comunidade também dominada pelo TCP.
Fé e domínio territorial
A relação de Peixão com símbolos religiosos antecede a criação do Complexo de Israel. Segundo as informações disponíveis, ele foi batizado por um pastor de uma igreja evangélica no início dos anos 2000, juntamente com outros integrantes da cúpula do TCP em Parada de Lucas.
Naquele período, Peixão ainda ocupava uma posição secundária dentro do grupo. Ele assumiu a liderança em 2016 e, quatro anos depois, passou a utilizar o nome Complexo de Israel para identificar os territórios sob seu domínio.
A Polícia Militar relaciona parte dessa atuação a episódios de intolerância contra praticantes de religiões de matriz africana e integrantes de outros grupos religiosos, um dos motivos apontados para a operação desta segunda-feira.






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