Um conjunto de 15 edifícios de dez andares permanece abandonado há mais de quatro décadas ao lado da comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O que deveria ser o início de um gigantesco complexo com 16 mil unidades habitacionais da Delfin Imobiliária tornou-se um marco da especulação fracassada e, hoje, um foco de insegurança e degradação urbana. A área, segundo relatos de moradores, está afundando e sendo usada como local de desova de corpos por milicianos. A reportagem é do jornal O GLOBO.
A história do empreendimento remonta aos anos 1970, quando a construtora, comandada pelo empresário Ronald Levinsohn, deu início ao projeto em 1977. A construção avançou até meados dos anos 1980, mas foi paralisada após a Delfin alegar que não conseguiria seguir com as obras de infraestrutura sem financiamento do extinto Banco Nacional de Habitação (BNH), encerrado em 1986. Com isso, o canteiro foi abandonado, e, em 1991, cerca de 982 unidades que chegaram a ser erguidas já apresentavam rachaduras e sinais de deterioração — nenhuma delas com habite-se.
Sem perspectiva de retomada, o local foi ocupado por cerca de seis mil pessoas, em sua maioria moradores da própria Rio das Pedras, que buscavam um teto. Instalaram-se nos prédios inacabados, sem acesso a água potável, energia elétrica ou saneamento básico. À época, o então governador Leonel Brizola optou por não usar força policial para retirar os ocupantes. Após negociações, eles deixaram os prédios e se fixaram em terrenos próximos que hoje fazem parte das subáreas da comunidade: Areal, Areinha e Pinheiro.
Terreno instável e estruturas afundando
Mais de 30 anos depois, o que restou do empreendimento virou ruína — literalmente. Moradores relatam que a região está afundando progressivamente, afetando tanto as construções da Delfin quanto as áreas ocupadas ao redor.
— A portaria e o primeiro andar dos prédios já estão dentro da terra. Todo o Areal e a Areinha também estão assim. As famílias ocupam só o segundo andar das construções. Daqui a 20 anos, vai tudo desaparecer — prevê um morador da região.
O motivo é geológico. Em maio, o arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães explicou ao jornal O GLOBO que os prédios foram erguidos sobre solo de turfa, altamente instável e sujeito a afundamentos. Segundo ele, o tipo de terreno impossibilita a implantação adequada de infraestrutura, como redes de água, esgoto e vias pavimentadas. Magalhães comparou o caso ao da Vila do Pan, também em Jacarepaguá, onde foi necessário construir uma laje para estabilizar a base dos edifícios após incidentes semelhantes.
— Ficou uma situação inviável, um mico — definiu o especialista.
Do sonho ao pesadelo: cemitério clandestino da milícia
O cenário de abandono dos prédios da Delfin é agravado pela insegurança. Segundo moradores, a área vem sendo usada há anos por milicianos como cemitério clandestino.
— Ali virou cemitério clandestino, lugar de desova — relata um morador da comunidade, que relembra com nostalgia a infância, quando brincava no local. — Hoje nem dá mais para chegar lá. Tem um rio entre a comunidade e o terreno.
A Polícia Civil confirmou que tem conhecimento da situação. Em 2023, três corpos foram encontrados no local. As investigações estão sob responsabilidade da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), que conduz operações periódicas para identificar e prender criminosos que atuam na área.
Área sem licença e sem futuro definido
O cenário de incerteza sobre o que fazer com os prédios inacabados é alimentado pela ausência de uma solução oficial. Questionada sobre o destino da construção, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento informou que o imóvel é de propriedade privada e que atualmente não possui licença válida.
Diante da deterioração avançada e da insegurança, moradores defendem a demolição imediata da estrutura.
— Traz muita raiva ver uma construção tão grande, tão bonita, inutilizável — desabafa um morador.
Quarenta anos depois do início da obra, o esqueleto de concreto da Delfin Imobiliária permanece como símbolo do fracasso de políticas habitacionais mal planejadas e da negligência do poder público. Enquanto isso, Rio das Pedras segue convivendo com o peso de um passado inacabado que se transformou, literalmente, em ruína e ameaça.







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