Os brasileiros que pretendem vender um carro usado estão encontrando um mercado bem diferente do observado há um ano, informa o portal g1. Os 25 modelos mais procurados do país ficaram mais baratos nos últimos 12 meses, com queda média de 10,2% nos preços efetivamente pagos pelos consumidores. O recuo é mais de duas vezes superior aos cerca de 4% apontados pela tabela Fipe no mesmo período.
Os números fazem parte de levantamento da Auto Avaliar, plataforma utilizada por mais de 27 mil lojistas e com cerca de 6 mil concessionárias cadastradas. A análise considera aproximadamente 30 mil combinações de modelos, versões, anos e estados, envolvendo veículos dos anos-modelo de 2019 a 2025.
Na liderança da desvalorização está o Jeep Compass, cujo preço efetivo de venda caiu 15,7%. Na sequência aparecem Jeep Renegade, com recuo de 13,8%, Chevrolet Tracker, com 13,5%, Ford Ranger e Toyota Corolla Cross, ambos com 11,8%.
Queda supera números da tabela Fipe
A diferença entre os preços registrados nas transações e os valores da Fipe ocorre, segundo especialistas, pela própria metodologia e pelo intervalo necessário para que as mudanças apareçam na tabela.
“O nosso banco de dados mostra o quanto o lojista pagou pelo carro e por quanto ele fechou a venda”, explica ao g1 J.R. Caporal, presidente da Auto Avaliar.
A Fipe trabalha com informações sobre preços anunciados, enquanto a base da Auto Avaliar permite acompanhar valores de transações realizadas entre lojistas e consumidores.
Para José Éverton Fernandes, presidente da Federação Nacional dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), essa diferença ajuda a explicar por que consumidores podem encontrar preços abaixo da referência.
“Na Fipe, a gente olha para um retrovisor. São dados de quatro semanas atrás e que provocam essa sensação de preços praticados fora da realidade”, explica.
Depois do Compass, Renegade, Tracker, Ranger e Corolla Cross, aparecem entre as maiores quedas VW Nivus (-11,2%), Fiat Pulse (-10,5%), Toyota Hilux (-10,3%), Chevrolet Onix (-10,1%) e Honda Civic (-10,1%).
Na outra ponta da lista, mas também em queda, estão Renault Kwid (-6,8%), Hyundai HB20 (-7%), Fiat Argo (-7,2%) e Toyota Yaris (-7,9%).
Ágio praticamente desaparece dos seminovos
Outra mudança significativa está no desaparecimento do ágio, quando o veículo usado é negociado acima do preço indicado pela Fipe.
Em agosto de 2025, aproximadamente um em cada três modelos mais procurados analisados era negociado acima da tabela. Um ano depois, apenas 0,8% das transações apresentava essa característica.
A mudança é ainda mais acentuada nos seminovos com menos de dois anos. Em agosto do ano passado, mais de 67% eram vendidos com ágio. Agora, o percentual caiu para 2%.
Especialistas atribuem esse movimento, entre outros fatores, à redução dos preços e às promoções dos veículos zero quilômetro. Isso diminui a margem para que um seminovo pouco rodado seja comercializado por valores próximos ou até superiores aos de um carro novo.
Apesar da queda, os modelos mais procurados continuam apresentando boa liquidez. A média do mercado é de 18 dias no estoque, e praticamente todos os veículos analisados ficam abaixo desse período.
O VW Polo apresenta o menor tempo, com apenas três dias. VW Virtus e T-Cross permanecem cinco dias, enquanto Hyundai HB20, Fiat Argo, Chevrolet Tracker e Chevrolet Onix levam seis dias, segundo a mediana calculada pela Auto Avaliar em setembro.
Para lojistas que compraram veículos quando os preços estavam mais altos, a reacomodação pode significar redução das margens para evitar que os automóveis permaneçam no estoque.
“O lojista precisa entender que é o momento de vender ganhando menos e voltar ao mercado para comprar estoque no preço certo e buscar de novo a margem”, explica Caporal.
Carros chineses aumentam pressão sobre usados
A entrada de novos modelos chineses no Brasil é apontada como um dos fatores que aceleraram a desvalorização dos seminovos. A maior oferta de veículos eletrificados, associada a promoções das fabricantes tradicionais, ampliou as alternativas disponíveis para quem pretende trocar de carro.
“A maioria desses carros chineses já entrega eletrificação, tecnologia e um tempo de garantia que dá segurança ao cliente”, diz Cássio Pagliarini, da Bright Consulting.
A consultora Tereza Fernandez avalia que a queda dos seminovos está se consolidando em 2026, mas ressalta que o impacto varia de acordo com o tamanho do estoque e a velocidade com que cada revendedor consegue ajustar seus preços.
“Lojas que têm estoques muito grandes podem enfrentar problemas mais sérios com a desvalorização.”
A redução também produz efeitos diferentes para os consumidores. Quem pretende vender o usado tende a receber menos, mas também encontra preços menores para comprar outro seminovo. A diferença pode ser mais perceptível para quem vende um usado para adquirir um zero quilômetro.
Além da maior concorrência, o mercado enfrenta restrições no financiamento. A inadimplência tornou os bancos mais rigorosos na concessão de crédito, o que limita negócios mesmo diante da demanda.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que o movimento representa uma reacomodação do mercado, e não necessariamente uma crise no segmento de usados. Ainda não há consenso, porém, sobre por quanto tempo os preços continuarão nesse processo de ajuste.







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