Toneladas de ouro da Venezuela no valor de US$ 4 bilhões podem ser transferidas para os EUA

Acordo em negociação prevê transferência de metal venezuelano para Nova York; Caracas recuperaria controle legal das reservas, mas teria restrições para vender ou movimentar os ativos

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Cerca de 31 toneladas de ouro da Venezuela, mantidas há anos no Banco da Inglaterra, em Londres, podem ser transferidas para os Estados Unidos em um acordo negociado pelo governo interino de Delcy Rodríguez e por uma ala da oposição venezuelana, informa a Reuters. Avaliadas em aproximadamente US$ 4 bilhões, as reservas teriam como destino o Federal Reserve Bank de Nova York.

Pelos termos em discussão, a Venezuela recuperaria o controle legal sobre o ouro, mas não poderia vender livremente as barras. O acesso aos ativos ficaria sujeito a restrições e à supervisão dos Estados Unidos.

Uma das possibilidades seria utilizar as reservas como garantia para empréstimos destinados a financiar gastos públicos, inclusive a reconstrução do país após os dois terremotos de junho. Os tremores deixaram mais de 6 mil mortos e provocaram graves danos à infraestrutura venezuelana.

O acordo ainda não foi concluído e depende também de decisões no Reino Unido para que as barras possam deixar o Banco da Inglaterra.

Ouro poderia garantir empréstimos para reconstrução

As negociações ganharam impulso após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram a Venezuela em 24 de junho. O número de mortos chegou a 6.125, segundo dados divulgados pelas autoridades venezuelanas.

Representantes do governo interino e integrantes da oposição passaram a discutir uma iniciativa conjunta para tentar liberar as reservas depositadas em Londres. A reconstrução das áreas atingidas tornou-se um dos principais argumentos para recuperar o acesso ao patrimônio.

A proposta permitiria ao governo utilizar o ouro como garantia para obter financiamento. A venda direta ou a transferência dos ativos para outros países, no entanto, permaneceria limitada pelos termos atualmente negociados.

As conversas fazem parte de um processo mais amplo de negociação política e econômica envolvendo o governo interino e setores da oposição, com apoio dos Estados Unidos.

Disputa pelas barras começou durante governo Maduro

O impasse sobre as reservas venezuelanas no Banco da Inglaterra se arrasta há anos.

O ouro havia sido depositado em Londres antes do agravamento da crise política venezuelana. Durante o governo de Nicolás Maduro, Caracas tentou recuperar o controle dos ativos, mas encontrou resistência depois que o Reino Unido deixou de reconhecer Maduro como presidente legítimo.

Em 2019, Londres reconheceu o então líder oposicionista Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. A decisão abriu uma disputa judicial sobre quem tinha autoridade para controlar as reservas do Banco Central venezuelano mantidas em território britânico.

O caso chegou à Suprema Corte britânica e se desdobrou em diferentes processos, sem que o governo Maduro conseguisse recuperar as barras.

A situação política mudou neste ano após os EUA sequestrarem o líder Nicolás Maduro em janeiro. Delcy Rodríguez, que era vice, assumiu interinamente o governo e iniciou negociações com setores da oposição.

Transferência ainda depende da Justiça britânica

Apesar do avanço das conversas, a transferência para Nova York ainda não está garantida.

O Banco da Inglaterra precisa de respaldo judicial para liberar as reservas, e uma decisão da Justiça britânica sobre quem possui autoridade legal sobre o ouro continua sendo necessária.

A recente reaproximação diplomática entre Reino Unido e Venezuela pode facilitar o processo de reconhecimento das novas autoridades venezuelanas, mas não elimina as etapas judiciais.

Caso o acordo seja concluído, a Venezuela voltará a deter o controle legal das reservas, enquanto os Estados Unidos terão papel central na supervisão do acesso ao ouro.

Na prática, as barras deixariam Londres, mas Caracas não recuperaria liberdade plena para movimentá-las. A prioridade seria transformar o patrimônio em garantia financeira para obter recursos destinados à reconstrução e a outras despesas do país.

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