O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (18) um acordo com Dinamarca e Groenlândia que amplia de forma permanente a atuação militar estadunidense na maior ilha do mundo. O pacto, que ainda precisa ser formalmente assinado e passar por procedimentos parlamentares, mantém a soberania dinamarquesa sobre o território e afasta, ao menos neste momento, a possibilidade de anexação defendida anteriormente pelo republicano.
O acordo deve ser assinado pelos três governos na próxima semana, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Pelos termos divulgados até agora, os Estados Unidos poderão ampliar sua presença militar e terão garantias de acesso, instalação de bases e sobrevoo.
O entendimento também busca impedir que países considerados adversários pelos EUA, especialmente Rússia e China, estabeleçam bases militares ou realizem determinados investimentos estratégicos no território.
Trump apresentou o acordo como uma garantia de que Washington poderá atuar na Groenlândia permanentemente para defender os interesses de segurança dos Estados Unidos.
“Começaremos imediatamente o processo de desenvolvimento de uma grande presença militar na parte apropriada da Groenlândia, que possui muitas dessas áreas”, afirmou.
Acordo não transfere soberania aos Estados Unidos
Apesar da interpretação apresentada por Trump sobre a extensão dos poderes estadunidenses, Dinamarca e Groenlândia ressaltaram que o entendimento não representa transferência de soberania.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que o tratado fortalece a proteção do Ártico e do Atlântico Norte e preserva a situação jurídica do território.
“É um acordo que fortalece nossa segurança comum no Ártico e na região do Atlântico Norte e, portanto, também é bom para a Otan e para a Europa”, afirmou.
“O acordo ao mesmo tempo reconhece a soberania e a integridade territorial do Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação.”
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também avaliou que o entendimento reconhece os interesses locais e reforça a segurança do território.
Os detalhes completos ainda não foram divulgados. Depois da assinatura, o pacto terá de passar pelos procedimentos parlamentares necessários antes de entrar em vigor.
Interesse dos EUA vem de décadas
A Groenlândia tem cerca de 57 mil habitantes, aproximadamente 80% de sua superfície coberta por gelo e uma localização considerada estratégica para a defesa da América do Norte.
A ilha deixou de ser formalmente uma colônia em 1953 e integra o Reino da Dinamarca. Desde 2009, possui um regime ampliado de autogoverno que reconhece inclusive o direito dos groenlandeses de decidir sobre uma eventual independência.
O interesse dos Estados Unidos no território é anterior a Trump. Após a Segunda Guerra Mundial, o governo de Harry Truman ofereceu US$ 100 milhões em ouro para comprar a ilha. A proposta foi rejeitada.
Em 1951, porém, Washington e Copenhague assinaram um acordo de defesa que permitiu a presença militar estadunidense na Groenlândia. Atualmente, os EUA mantêm no território a Base Espacial de Pituffik.
Rússia e China estão no centro da disputa
A posição geográfica da Groenlândia permite monitorar áreas estratégicas do Ártico e rotas utilizadas por navios e submarinos. Durante a Guerra Fria, a região desempenhou papel importante na disputa militar entre Estados Unidos e União Soviética.
A relevância voltou a crescer com o aumento das tensões entre Washington, Moscou e Pequim.
O derretimento do gelo no Ártico também pode ampliar rotas marítimas e facilitar o acesso a recursos minerais. A Groenlândia possui reservas de minerais considerados estratégicos para setores como veículos elétricos, energia renovável e equipamentos de alta tecnologia.
A China tem demonstrado interesse crescente no Ártico e investido em embarcações quebra-gelo. Para Washington, limitar a expansão chinesa e russa na região tornou-se parte da estratégia de segurança estadunidense.
O novo acordo estabelece restrições à presença militar de países de fora da Otan e a determinados investimentos considerados sensíveis.
Trump ameaçou tomar a ilha pela força
Trump retomou no início de 2025 a defesa de uma presença dos EUA mais ampla na Groenlândia. Ao longo dos últimos meses, chegou a falar em aquisição do território e não descartou o uso da força.
Em dezembro de 2025, afirmou:
“Precisamos da Groenlândia para a segurança internacional. Precisamos dela”, afirmou em uma entrevista em dezembro de 2025. “Odeio colocar dessa forma, mas temos que ficar com ela.”
As declarações provocaram reação da Dinamarca, de autoridades groenlandesas e de aliados europeus. Copenhague e Nuuk reiteraram em diferentes ocasiões que a ilha não estava à venda.
As negociações diplomáticas avançaram posteriormente para uma solução centrada na segurança do Ártico, sem transferência territorial.
Incorporação aos EUA continua distante
O acordo não transforma a Groenlândia em território estadunidense nem modifica seu vínculo com o Reino da Dinamarca.
Desde 2009, os groenlandeses têm reconhecido o direito à autodeterminação. Isso significa que uma eventual independência poderia ser decidida por meio de um processo político próprio.
Em tese, uma Groenlândia independente poderia posteriormente discutir formas de associação com outros países. Esse cenário, porém, dependeria de decisões dos próprios habitantes e de negociações internacionais.
Pesquisa realizada no fim de 2025 indicou que apenas 6% dos groenlandeses apoiavam a incorporação aos Estados Unidos.
O acordo anunciado agora segue caminho diferente: amplia e torna duradoura a presença militardos EUA sem entregar ao país a soberania sobre a ilha.







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