Planilhas do bicheiro Adilsinho apontam R$ 10 milhões em pagamentos a Castro, Bacellar e políticos do PL no Rio

Documentos atribuídos ao contraventor citam aliados da família Bolsonaro no Rio; defesas negam recebimento de recursos

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Planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) durante uma investigação sobre o jogo do bicho e o comércio ilegal de cigarros no Rio indicam supostos pagamentos que, somados, ultrapassam R$ 10 milhões a cinco políticos apontados como próximos à família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os registros fazem parte das investigações sobre a organização atribuída ao bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho.

Os documentos foram apreendidos em novembro de 2022, durante uma fase da Operação Smoke Free, e posteriormente analisados pela PF no âmbito da Operação Unha e Carne, investigação sobre a infiltração do crime organizado em estruturas políticas e públicas do Rio de Janeiro.

Segundo reportagem do ICL Notícias, que afirma ter tido acesso a mais de quatro mil páginas do inquérito, as planilhas reproduzidas pela PF apresentam registros relacionados a pelo menos 61 pessoas, entre políticos, partidos e outros destinatários identificados, em alguns casos, apenas por codinomes.

A investigação atribui às anotações mais de R$ 29 milhões em supostos pagamentos a agentes políticos. Os documentos divulgados, no entanto, não esclarecem quando os repasses teriam ocorrido nem, isoladamente, comprovam que todos os valores anotados tenham sido efetivamente pagos aos nomes relacionados.

Castro e Bacellar concentram maiores valores

Entre os políticos apontados como próximos ao grupo Bolsonaro, o maior valor registrado nas planilhas é relacionado ao ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar (União Brasil): R$ 5,43 milhões. Segundo a PF, Bacellar estaria identificado pelo codinome “Barba”. A defesa nega tanto a identificação quanto o recebimento do dinheiro.

O ex-governador Cláudio Castro (PL) aparece associado a R$ 3,63 milhões. Também constam registros atribuídos ao ex-secretário estadual Gutemberg Fonseca (PL), no valor de R$ 727,9 mil; ao deputado federal Hélio Lopes (PL), com R$ 323,2 mil; e ao ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem (PL), com R$ 91,8 mil.

Somados, os valores relacionados aos cinco chegam a cerca de R$ 10,2 milhões.

Em relatório reproduzido pela reportagem, a PF afirma que as anotações apontariam para um processo de cooptação de agentes públicos pelo grupo investigado.

“Das planilhas acima descritas temos que a associação em comento capturou o poder público fluminense. Os valores transacionados por ADILSINHO incluiriam o chefe do Poder Executivo, e agora ex-governador, CLAUDIO CASTRO e ainda o agora ex-chefe do Poder Legislativo RODRIGO BACELLAR. Abaixo desses diversos servidores públicos, municipais, estaduais e federais, aparecem relacionados à teia criada por ADILSINHO”, diz um dos relatórios da investigação.

PF vê possível contabilidade paralela

Em outro relatório, produzido em junho deste ano, investigadores ressaltam que a relevância das planilhas depende do cruzamento das anotações com informações bancárias, fiscais, eleitorais e prestações de contas oficiais.

“O achado ganha relevância porque não se trata de anotação genérica ou isolada: a planilha organiza beneficiários, quantifica valores e consolida um total expressivo, compatível com uma contabilidade paralela de grande escala, circunstância que recomenda o confronto sistemático com dados bancários, fiscais, eleitorais e com as prestações de contas declaradas à Justiça Eleitoral. A importância investigativa da Lista 1 reside, sobretudo, na possibilidade de ela representar um mapa de circulação de recursos destinados ao financiamento político, formal ou informal, por estrutura vinculada à organização criminosa investigada”, diz um trecho de um relatório elaborado pela corporação em junho deste ano.

Os nomes de Castro e Bacellar nas anotações já haviam sido divulgados anteriormente. Gutemberg Fonseca também já havia sido citado em reportagem sobre os documentos. A novidade está na revelação dos registros atribuídos a Hélio Lopes e Alexandre Ramagem, segundo o ICL Notícias.

No caso de Bacellar, a PF sustenta que o ex-presidente da Alerj seria o homem identificado como “Barba”.

“É imprescindível salientar que, ante as evidências coletadas até o presente momento, a pessoa denominada com o codinome ‘BARBA’ seja o ex-Deputado Estadual RODRIGO DA SILVA BACELLAR”, escreve a PF em relatório.

A defesa contesta essa conclusão.

Investigação alcança núcleo político do Rio

Adilsinho é apontado pelas investigações como integrante da nova cúpula do jogo do bicho no Rio e como personagem de destaque no contrabando de cigarros. Segundo dados da investigação citados na reportagem, o grupo atribuído a ele teria movimentado cerca de R$ 5 bilhões entre 2015 e 2024.

A Operação Unha e Carne também passou a investigar conexões entre integrantes do crime organizado e agentes políticos do estado. Bacellar foi preso em dezembro de 2025 sob suspeita de participação na obstrução de uma operação contra o então deputado estadual TH Joias, acusado pelas autoridades de atuar em favor do Comando Vermelho.

Durante buscas realizadas naquele mês, agentes encontraram uma Mercedes na casa de campo de Bacellar, em Teresópolis. Segundo a investigação, o veículo estava registrado em nome de uma empresa relacionada a um operador apontado como integrante do esquema de Adilsinho. A defesa apresenta uma versão diferente e afirma que o automóvel havia sido cedido temporariamente para avaliação de uma possível compra.

A PF também mencionou a presença de Castro e Bacellar no Camarote Arpoador durante o Carnaval de 2024. O espaço pertence a Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho de Adilsinho, apontado pelos investigadores como figura relevante nas discussões sobre a formação de uma nova cúpula do jogo do bicho.

Defesas negam pagamentos

Cláudio Castro nega qualquer recebimento de recursos do esquema investigado.

A defesa do ex-governador Cláudio Castro nega categoricamente que ele tenha recebido qualquer pagamento, direto ou indireto. Cláudio Castro não reconhece os valores atribuídos a seu nome em anotações produzidas por terceiros.

A Gráfica Editora Completa foi contratada pela campanha de 2022 para a prestação de serviços gráficos. A despesa foi regularmente declarada à Justiça Eleitoral e as contas da campanha foram aprovadas. À época, não havia conhecimento de qualquer eventual relação da empresa ou de seus responsáveis com os fatos atualmente investigados.

Sobre o Camarote Arpoador, nos anos em que foi governador, Cláudio Castro visitou diversos espaços a convite dos organizadores, prestigiando os espaços como compete ao cargo de governador”, afirma em nota.

A defesa de Rodrigo Bacellar também rejeita as conclusões da investigação e nega que ele seja a pessoa identificada como “Barba” nas anotações.

“A defesa esclarece que Rodrigo Bacellar não recebeu pagamentos, direta ou indiretamente, de Adilsinho, não havendo qualquer elemento concreto apresentado pela Polícia Federal que comprove tal afirmação. A investigação aponta, como suposta comprovação dos recebimentos ilícitos, uma planilha na qual a alcunha “Barba” teria sido vinculada a Rodrigo Bacellar. Importa esclarecer, contudo, que Rodrigo Bacellar jamais foi chamado dessa forma ou utilizou o apelido “Barba” em qualquer âmbito, seja profissional, político ou pessoal.

Quanto ao veículo Mercedes-Benz, o automóvel foi disponibilizado pela concessionária a Rodrigo Bacellar, temporariamente, para experimentação e avaliação, no contexto de tratativas comerciais para eventual aquisição. A negociação não foi concretizada, o veículo foi devolvido à concessionária e posteriormente comercializado a outro cliente. Portanto, o automóvel jamais integrou o patrimônio de Rodrigo Bacellar, inexistindo vínculo patrimonial ou qualquer relação com eventual esquema atribuído a terceiros.

A defesa ressalta, por fim, que eventuais referências a pessoas que tenham integrado anteriormente o quadro societário da concessionária não estabelecem qualquer vínculo de Rodrigo Bacellar com essas pessoas ou com os fatos a elas atribuídos.

Importa ressaltar, ainda, que Rodrigo Bacellar desconhecia completamente que o automóvel estivesse registrado em nome de empresa relacionada às pessoas mencionadas na investigação.
Sobre o camarote, vale dizer se tratar do maior camarote da Sapucaí, com mais de 1.200 pessoas por dia. E seria muito leviano afirmar que estar ali sugere algo ilícito”.

Gutemberg Fonseca também negou ter recebido recursos ou manter relação com o bicheiro.

“Não conheço e nunca estive com Adilsinho. Nunca houve qualquer tipo de pagamento deste senhor para minha campanha”, afirmou.

Hélio Lopes afirmou, por meio de sua assessoria, que não reconhece os registros atribuídos a ele:

“A assessoria de comunicação do deputado federal Helio Lopes (PL-RJ) esclarece que o parlamentar não reconhece os valores, nem a anotação atribuída ao seu nome, constantes na suposta planilha mencionada no âmbito da investigação.

Todas as receitas e despesas de sua campanha eleitoral de 2022 foram devidamente registradas e declaradas à Justiça Eleitoral, em estrita observância à legislação vigente. A prestação de contas foi regularmente aprovada pela Justiça Eleitoral e permanece pública, podendo ser consultada nos canais oficiais.

O deputado também esclarece que não recebeu recursos ou apoio financeiro provenientes de Adilsinho ou de gráficas investigadas na operação.

É importante ressaltar, ainda, que até o momento, o deputado Helio Lopes não foi procurado pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos sobre os fatos mencionados que ele desconhece. No entanto, o parlamentar informa que está à disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários e colaborar com as investigações”, diz o posicionamento.

Segundo o ICL Notícias, Alexandre Ramagem também foi procurado, mas não houve retorno de sua defesa até a publicação da reportagem.

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