Possível ajuda de Milei à fuga de Flávio aprofunda crise entre Argentina e Brasil

Relatos de apoio à saída do senador pelo país vizinho ampliam desconfiança no governo Lula e dificultam retomada do diálogo

Adicione a Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

A passagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pela Argentina a caminho dos Estados Unidos acrescentou um novo foco de tensão à relação entre Brasília e Buenos Aires. Reportagens da imprensa argentina apontam que o governo de Javier Milei ajudou a viabilizar a operação, em um momento em que o diálogo político entre os dois países já estava comprometido.

O senador deixou o Brasil após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ser alvo de uma determinação judicial para entregar seus passaportes. Ao lado da família, embarcou em um avião particular em Porto Iguaçu, com destino final a Miami e passagem pelo Equador.

Segundo veículos argentinos, Santiago Caputo, um dos principais assessores de Milei, estava na cidade no momento do embarque e teria acompanhado a operação. As reportagens também apontam que houve apoio para o transporte do senador até a aeronave.

Em pronunciamento divulgado na quarta-feira (28), Flávio agradeceu ao presidente argentino “pela coragem, senso de justiça e legalidade”.

Desconfiança compromete reaproximação

Para integrantes do governo Lula ouvidos pela Folha de S.Paulo, os relatos sobre a participação argentina corroem a confiança que ainda restava entre as duas administrações. Havia a expectativa de que o encerramento da eleição brasileira abrisse espaço para restabelecer condições mínimas de diálogo.

A avaliação desses auxiliares, porém, é que o distanciamento deve persistir pelo menos até a eleição argentina, prevista para outubro de 2027. Nesse cenário, a retomada da presença dos embaixadores nas respectivas representações diplomáticas é considerada extremamente improvável.

Em agosto, o governo brasileiro orientou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, a retornar a Buenos Aires. Simultaneamente, decidiu manter no Brasil o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli.

As medidas ocorreram após ataques de Milei a autoridades brasileiras durante o lançamento da candidatura de Flávio. Na ocasião, o argentino chamou Lula de ladrão e presidiário e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como “lixo careca”.

Do lado brasileiro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço”. Já o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), classificou o presidente argentino como “caricatura patética” e puxa-saco de Donald Trump.

Travessia foi confirmada na madrugada

A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou, na madrugada de quarta-feira, que Flávio, a esposa e as duas filhas atravessaram a Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50 de terça-feira (27).

“Às 23h30, a comitiva que chegava embarcou em um voo privado operado pela companhia Baires Fly S.A., com destino à cidade de Guayaquil, no Equador, conforme informado no plano de voo”, disse o comunicado.

Ao longo da terça-feira, segundo integrantes do governo brasileiro ouvidos pela Folha, autoridades argentinas afirmavam que, até aquele momento, não havia registro da entrada do senador no país vizinho. A confirmação posterior da travessia acrescentou dúvidas sobre a cronologia da viagem.

Para os interlocutores brasileiros, as dificuldades na troca de informações sobre o paradeiro de Flávio refletem o desgaste da relação bilateral.

Vitória de Lula gera novo atrito

Outro episódio ampliou o desconforto entre os governos. Na terça-feira, o porta-voz de Milei, Adrian Ravier, afirmou que a Argentina não divulgaria comunicado sobre a vitória de Lula.

Como justificativa, alegou que o presidente brasileiro também havia ignorado a eleição de Milei em 2023. A afirmação desconsidera que, naquela ocasião, Lula parabenizou as instituições e o povo argentino pela realização do processo eleitoral.

Relacionadas

Deixe um comentário