Fábio Gomes analisa os bastidores da virada de Lula e o futuro do bolsonarismo

Em entrevista ao Agenda do Poder na TV, sociólogo aborda os limites das pesquisas, a transformação digital da campanha petista e o enfraquecimento de Flávio Bolsonaro

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A eleição presidencial de 2026 não apenas terminou com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL). Também colocou em xeque algumas das principais certezas que orientavam a análise política no Brasil: a vantagem de quem vence o primeiro turno, a dificuldade de reeleição de presidentes com desaprovação elevada e a suposta superioridade da direita na mobilização digital.

Para o sociólogo e CEO do Instituto Informa, Fábio Gomes, o resultado mostrou que modelos estatísticos, tendências históricas e levantamentos de intenção de voto não são suficientes para explicar uma eleição quando a dinâmica das campanhas e o comportamento dos eleitores mudam rapidamente.

Em entrevista ao jornalista Ricardo Bruno, no programa Agenda do Poder na TV, que vai ao ar neste domingo às 23h20 pela Rede CNT, Gomes fez uma análise dos dois turnos da disputa presidencial, identificou os fatores que contribuíram para a reação de Lula e discutiu os possíveis caminhos da direita após a derrota de Flávio Bolsonaro.

A conversa também abordou a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), os limites das pesquisas eleitorais, o protagonismo de André Janones na campanha petista e a possibilidade de Tarcísio de Freitas assumir uma posição de maior destaque na oposição.

O eleitor bolsonarista que não aparece nas pesquisas

Um dos primeiros pontos abordados foi a dificuldade dos institutos para captar o comportamento de determinados segmentos do eleitorado, especialmente no primeiro turno.

Gomes chamou a atenção para o desempenho de candidatos da direita que receberam votações superiores às estimadas pelos levantamentos. No Rio de Janeiro, citou Douglas Ruas e os dois senadores eleitos, cujos resultados, segundo ele, ficaram cerca de 12 pontos acima das projeções.

O mesmo fenômeno teria ocorrido, em proporções diferentes, com Flávio Bolsonaro na disputa presidencial e com Tarcísio de Freitas em São Paulo.

“Há um segmento do bolsonarismo, que eu não sei qual é, que ninguém sabe, mas que não responde pesquisa. Não responde pesquisa, mas vai na urna”, afirmou.

O sociólogo lembrou que esse comportamento não é inteiramente novo. Na eleição de Cláudio Castro para o governo fluminense, também houve uma diferença expressiva entre as estimativas da reta final e o resultado das urnas.

A avaliação é que existe uma parcela do eleitorado de direita cuja participação não é adequadamente captada pelos métodos tradicionais, embora sua presença se manifeste no momento da votação.

Por que as pesquisas não anteciparam o vencedor

Ao passar para o segundo turno, Gomes apresentou uma interpretação diferente. Na avaliação dele, o problema não esteve necessariamente nos números divulgados pelos principais institutos, mas na tentativa de transformar diferenças pequenas em previsões categóricas.

Ele citou o levantamento do Datafolha que apontava empate de 50% a 50% entre os candidatos e argumentou que os resultados precisam ser compreendidos dentro das margens de erro e dos intervalos de confiança.

“A pesquisa nunca é o resultado pontual, é um resultado intervalar. Essa é a técnica da pesquisa”, explicou.

Para o especialista, a pressão por respostas imediatas, intensificada pelas redes sociais, levou pesquisadores, analistas e jornalistas a tratar cenários estatisticamente indefinidos como se já houvesse um vencedor.

“A palavra é essa, é impossível prever”, afirmou, referindo-se às disputas extremamente apertadas.

Gomes também discutiu a explicação apresentada pelo cientista político Felipe Nunes, da Quaest, sobre a queda da abstenção no segundo turno. Segundo a análise mencionada na entrevista, modelos baseados em eleições anteriores consideravam improvável uma redução do não comparecimento entre os dois turnos.

Entretanto, a abstenção teria recuado de aproximadamente 21% para 19%, contrariando a tendência histórica utilizada nas projeções.

Embora tenha reconhecido a qualidade técnica do trabalho de Nunes, Gomes ponderou que modelos matemáticos não podem desconsiderar mudanças de estratégia e fatores subjetivos capazes de alterar o comportamento dos eleitores.

“A gente não pode ser essencialmente matemático, excessivamente matemático, em um jogo que tem muita sensibilidade”, observou.

Na avaliação do sociólogo, a redução da abstenção precisa ser analisada juntamente com a mobilização política ocorrida nas últimas semanas da campanha.

A revolução digital que mudou a campanha de Lula

Na avaliação de Fábio Gomes, a virada eleitoral de Lula não pode ser compreendida sem considerar a transformação de sua campanha no segundo turno.

O sociólogo identificou duas grandes mudanças na trajetória eleitoral do presidente. A primeira ocorreu em 2002, quando o publicitário Duda Mendonça reformulou sua imagem, substituindo a figura do líder sindical combativo pela de um candidato mais moderado, apresentado como preparado para governar.

A segunda, segundo Gomes, aconteceu em 2026, quando a campanha passou a disputar com maior intensidade o ambiente digital, tradicionalmente dominado pelos apoiadores de Jair Bolsonaro.

“Agora eu acho que ele nesse segundo turno, ele teve uma segunda revolução que foi a digital”, afirmou.

O especialista atribuiu papel central ao deputado André Janones, responsável pela mobilização do chamado Exército do Lula. A iniciativa reuniu milhões de seguidores e estimulou a participação de apoiadores nas redes sociais e nas ruas.

Gomes destacou que a campanha conseguiu alcançar uma parcela do eleitorado que não participava habitualmente de manifestações políticas.

“Eu vi jovem que nunca falou em política e nessa eleição foi pra rua”, relatou.

O sociólogo também fez uma comparação entre Janones e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Embora tenha reconhecido a experiência do ministro, considerou que o deputado demonstrou maior capacidade de compreender a linguagem e o funcionamento das plataformas digitais.

“Com todo respeito ao ministro Sidônio, mas o Janones valeu por 10 Sidônio”, declarou.

Para Gomes, a mobilização digital ajudou a transformar o clima da disputa, retirando a campanha petista de uma posição defensiva e ampliando sua capacidade de mobilizar eleitores.

Por que Lula venceu mesmo com desaprovação elevada

Outro ponto central da entrevista foi a capacidade de Lula de conquistar a reeleição apesar de apresentar índices de desaprovação superiores aos de aprovação.

Gomes explicou que realizou uma pesquisa nacional, destinada à orientação estratégica de partidos de centro, para investigar um aspecto diferente da popularidade presidencial.

Em vez de perguntar apenas se o eleitor aprovava o governo naquele momento, o Instituto Informa procurou identificar quantos entrevistados já haviam aprovado Lula em alguma etapa de sua trajetória política.

O resultado, segundo o sociólogo, foi revelador: 75% dos participantes afirmaram ter aprovado o presidente em algum momento, mesmo que estivessem insatisfeitos com sua administração atual.

Para Gomes, esse dado ajuda a compreender por que parte dos eleitores críticos ao governo acabou optando pela continuidade.

“Eu não tô satisfeito, mas eu sei do que ele é capaz, porque eu já provei ele antes”, resumiu, ao descrever o raciocínio desse segmento do eleitorado.

A disputa, em sua interpretação, deixou de ser apenas uma avaliação do governo e passou a envolver a escolha entre segurança e incerteza.

Ricardo Bruno acrescentou que a campanha petista conseguiu explorar o receio de perda de benefícios sociais, como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e reajustes do salário mínimo.

O apresentador observou que Flávio Bolsonaro negava a intenção de cortar esses direitos, mas suas propostas de redução de despesas públicas alimentavam dúvidas sobre a preservação dos programas.

Gomes concordou com a importância do sentimento de insegurança e ressaltou que o eleitor brasileiro apresenta uma tendência a evitar mudanças quando não identifica vantagens suficientemente claras.

O especialista também ponderou que a diferença relativamente pequena entre os candidatos impede atribuir a vitória a uma única causa.

Flávio perdeu intensidade e Lula mudou de estratégia

A comparação entre as campanhas dos dois turnos também ocupou parte importante da entrevista.

Segundo Gomes, Flávio Bolsonaro chegou à etapa decisiva em uma posição favorável, mas sua campanha teria reduzido a intensidade depois da vitória no primeiro turno.

Na avaliação do sociólogo, a candidatura passou a agir como se a eleição estivesse praticamente resolvida, evitando movimentos arriscados e diminuindo a confrontação política.

O comportamento foi comparado por Ricardo Bruno ao de um time de futebol que, acreditando ter assegurado a vitória, passa a trocar passes lateralmente para administrar o resultado.

Enquanto isso, Lula teria adotado uma postura oposta, ampliando sua presença nas ruas, intensificando a comunicação digital e mobilizando setores anteriormente pouco engajados.

Para Gomes, essa diferença entre as estratégias ajuda a explicar por que o resultado contrariou a tendência observada em outras disputas presidenciais, nas quais o candidato que liderava no primeiro turno costumava chegar fortalecido à etapa final.

O sociólogo ressaltou, entretanto, que a política não pode ser tratada como uma ciência exata, na qual acontecimentos anteriores necessariamente se repetem.

Saída de Flávio Bolsonaro enfraqueceu sua liderança

Na parte final da entrevista, o debate se concentrou nas consequências políticas da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após a derrota presidencial.

Gomes avaliou que o comportamento do senador prejudicou sua imagem como possível líder nacional da oposição.

Para o sociólogo, a capacidade de liderança não depende apenas da votação obtida ou da fidelidade de uma parcela do eleitorado. Também exige reconhecimento dos aliados, habilidade política e capacidade de articulação.

“Acho que liderança é a escolha também dos liderados”, afirmou.

O especialista considerou que a reação de Flávio à derrota, incluindo sua tentativa inicial de se apresentar como vencedor legítimo da eleição, foi politicamente equivocada.

Na avaliação de Gomes, a iniciativa não conseguiu mobilizar o conjunto da direita e acabou produzindo desgaste para o senador.

O sociólogo destacou ainda que o eleitorado conservador não é homogêneo. Segundo ele, pesquisas identificam diferenças entre os bolsonaristas mais identificados com a família Bolsonaro e os eleitores de direita sem vínculo direto com o ex-presidente.

Esse segundo grupo, explicou, apresenta comportamento mais pragmático e tende a priorizar resultados concretos, não necessariamente acompanhando posições mais radicais.

Gomes interpretou o distanciamento de aliados de Flávio como um sinal de enfraquecimento político.

“E perde os mais próximos. E esse é o primeiro sintoma de quem perdeu liderança”, observou.

Críticas ao Supremo e à atuação de Alexandre de Moraes

Apesar das críticas à conduta de Flávio Bolsonaro, Gomes também questionou a atuação do Supremo Tribunal Federal no episódio.

O sociólogo considerou excessiva a decisão do ministro Alexandre de Moraes de determinar a entrega dos passaportes do senador logo após o resultado eleitoral.

Na avaliação dele, medidas judiciais percebidas como desproporcionais podem ampliar a polarização política e oferecer argumentos para a mobilização de grupos bolsonaristas.

Ricardo Bruno acompanhou essa interpretação e criticou o que considera uma atuação excessivamente política de integrantes do Supremo.

Durante a conversa, os dois defenderam que o tribunal deveria contribuir para reduzir as tensões institucionais, evitando iniciativas capazes de aprofundar os conflitos.

Gomes também questionou a exposição pública dos ministros, comparando o comportamento atual do STF ao perfil mais discreto que, segundo ele, caracterizava a Corte em décadas anteriores.

As manifestações representaram avaliações políticas dos entrevistados, e não conclusões jurídicas sobre a legalidade das decisões.

Tarcísio pode ocupar espaço deixado pelos Bolsonaro

Ao discutir o futuro da oposição, Fábio Gomes apontou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como uma das lideranças com potencial para ampliar sua influência nacional.

Na avaliação do sociólogo, Tarcísio demonstrou fidelidade política ao bolsonarismo, mas construiu uma trajetória administrativa e uma rede de alianças que podem permitir uma aproximação com setores mais moderados.

Gomes considera possível que a direita passe por uma reorganização menos dependente do sobrenome Bolsonaro, especialmente diante do desgaste político enfrentado por integrantes da família.

Ricardo Bruno avaliou que Tarcísio poderia construir uma candidatura nacional buscando apoio de partidos de centro e de legendas como PP e União Brasil.

Para o apresentador, esse movimento seria uma extensão da estratégia de alianças já adotada pelo governador em São Paulo.

Gomes concordou com a possibilidade e observou que o perfil de Tarcísio pode favorecer uma aproximação com o eleitorado conservador mais pragmático.

A entrevista terminou com uma reflexão sobre as mudanças no cenário político brasileiro. Para o sociólogo, a eleição de 2026 demonstrou que o comportamento do eleitor, a comunicação digital e a capacidade de mobilização das campanhas podem alterar tendências consideradas consolidadas.

Mais do que apontar vencedores e derrotados, a disputa deixou uma advertência para pesquisadores e dirigentes partidários: resultados anteriores ajudam a compreender a política, mas não garantem que o eleitor repetirá suas escolhas.

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