PMs do Rio são investigados por retirar câmeras do uniforme; corregedoria apura ao menos 53 casos

Ação tenta impedir filmagem de ocorrências com indícios de crimes cometidos por policiais

Policiais militares do Rio são investigados por taparem as lentes de câmeras corporais ou retirarem os aparelhos dos coletes para impedir a filmagem de ocorrências com indícios de crimes. A reportagem teve acesso a imagens gravadas por câmeras em três casos que mostram os agentes colocando as filmadoras dentro de viaturas ou até guardando o equipamento no bolso. Nessas ocorrências, os agentes são suspeitos de agredir uma travesti detida, negociar a liberdade de um preso e até matar um homem desarmado. O uso de câmeras corporais nas fardas dos PMs foi determinado pelo STF no âmbito da chamada “ADPF das favelas”, que trata de medidas de combate à letalidade policial.

Num dos casos, a análise das imagens levou à absolvição do homem preso pelos policiais. Em 20 de abril de 2023, um jovem de 20 anos foi detido numa operação do 17º BPM (Ilha do Governador) no Morro do Dendê. Os agentes afirmaram à Justiça que entraram na casa dele por volta das 7h autorizados por sua irmã, que tinha 16 anos à época, e o prenderam após encontrar um revólver debaixo do travesseiro de sua cama. Mas imagens gravadas pelas câmeras corporais dos policiais — requisitadas pela Justiça a pedido da defesa do preso — levantaram suspeitas sobre a atuação dos agentes.

Após flagrar negociação de PM com preso por liberdade, câmera corporal é tampada por agente — Foto: Reprodução
Após flagrar negociação de PM com preso por liberdade, câmera corporal é tampada por agente — Foto: Reprodução

Por volta de 6h53, a câmera acoplada no peito de um dos cabos responsáveis pela prisão flagrou o momento em que o agente prometeu libertar um preso em troca de informações sobre o paradeiro de armas na favela. “Você tá na minha responsa, se eu te soltar pode meter o pé. Te solto você vai embora, é só me dar uma casa, irmão. Se eu achar uma pecinha lá, eu te solto, uma pistolinha eu te solto”, diz o PM a um detido na caçamba da viatura. Não é possível saber se o homem é o jovem preso em casa.

Pouco mais de 45 minutos depois, os policiais ainda conversavam na favela quando o cabo cobre a câmera com a mão, a remove do colete e a coloca num bolso ou compartimento da farda. Nos 15 minutos seguintes, a câmera grava uma tela preta, mas é possível ouvir sons abafados de vozes. Em ofício à Justiça, a PM afirmou que, a partir das imagens, abriu procedimento investigativo para apurar a conduta dos policiais.

As inconsistências na versão dos agentes trazidas à tona pelo vídeo levaram à absolvição do jovem. “O aparelhamento das forças de segurança com câmeras corporais surgiu justamente a partir da necessidade de evitar situações de ilicitude que possam gerar anulação de provas colhidas em investigação”, escreveu a juíza Alessandra de Araújo Pinto na sentença.

Um homicídio

Outra ocorrência culminou no homicídio de um frentista de 26 anos, na manhã de 6 de agosto de 2023, no Catete. Na ocasião, um cabo do 2º BPM (Botafogo) fez oito disparos de fuzil na direção do carro onde estavam o frentista e três amigos que haviam saído de um baile funk no Morro Santo Amaro. O PM alegou que atirou porque o motorista estava na contramão e não obedeceu à ordem de parada.

Após atirar em carro e matar frentista, PM tira câmera do colete — Foto: Reprodução
Após atirar em carro e matar frentista, PM tira câmera do colete — Foto: Reprodução

A câmera estava afixada no colete do PM no momento dos disparos. Nos dez minutos seguintes, as imagens mostram o cabo contando a colegas de farda, ainda no local do crime, que atirou porque viu um homem “puxar uma arma”. “Eu que não vou ficar esperando eles atirarem em mim”, disse.

No entanto, quando comunicava a ocorrência ao batalhão pelo celular, o cabo mudou a versão: “Só retificar aí: ele jogou o carro em cima de mim, entendeu? E efetuou disparos. Eu não vi pra onde ele deu, pra qual lado ele deu. Aí, eu também tive que reagir, né?”. No meio da ligação, ele tirou a câmera do colete, a colocou em cima do painel da viatura e trancou a porta. O PM só recolocou a câmera no peito 12 minutos depois, já a caminho da delegacia. Em novembro do ano passado, com base nas imagens, o agente virou réu pelo homicídio do frentista e foi afastado do policiamento ostensivo por decisão da Justiça.

Uma denúncia feita por uma travesti de 33 anos trouxe à tona outro caso de mau uso de câmeras corporais por PMs. Em 1º de outubro de 2023, ela foi presa após PMs encontrarem 29 sacolés de cocaína durante uma revista num bar em Nova Friburgo, na Região Serrana. Na audiência de custódia, ela afirmou que foi agredida pelos agentes, e o exame de corpo de delito, de fato, constatou lesões em seu corpo.

Falta grave

Em meio à busca pelas drogas, um sargento do 11º BPM (Friburgo) se aproximou de um colega e o mandou tirar a câmera da farda. Em seguida, o sargento também tirou seu aparelho e o colocou dentro da viatura. Por três minutos e meio, a abordagem parou de ser gravada. A Justiça encaminhou as imagens ao Ministério Público para que a conduta dos PMs seja investigada.

A PM considera a utilização da câmera de maneira inadequada uma falta grave, que pode ser punida até com a expulsão da corporação.

Para o promotor Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, que atua junto à Auditoria da Justiça Militar do Rio, o PM que tira a câmera do colete ou impede a filmagem de forma proposital deve responder pelo crime militar de recusa de obediência, que prevê pena de até dois anos de detenção.

— A manipulação da câmera feita com o objetivo de impossibilitar a filmagem da ocorrência é crime. E respondem pelo crime tanto o policial que manipulou a câmera quanto possíveis colegas que testemunharam a retirada do aparelho e não agiram — afirma Cunha Júnior.

Procurada, a PM alegou que instaurou procedimentos para apurar os três casos citados na reportagem. “Dois encontram-se em fase de conclusão. O terceiro caso culminou em um procedimento que pode resultar na exclusão do policial”, informou a corporação. Em nota, a PM também afirmou que, de janeiro a abril, a corregedoria abriu 44 procedimentos apuratórios e nove inquéritos policiais militares em casos desse tipo.

Com informações do GLOBO.

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