A Polícia Federal investiga se o advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), realizou um pagamento de US$ 180 mil, aproximadamente R$ 900 mil na cotação atual, ao ex-diretor de operações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Paulo Maurício Fortunato. A suspeita surgiu após a análise de informações armazenadas no celular do advogado, apreendido durante uma investigação sobre movimentações financeiras.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, os investigadores encontraram uma anotação que relaciona o nome de Fortunato ao valor de US$ 180 mil e à data “agosto/21”. O registro também contém as expressões “corregedoria”, “diretor de operações” e “oficial de inteligência”.
A descoberta levou a PF a investigar uma possível ligação entre o valor mencionado no documento e uma quantia em dólares encontrada com Fortunato durante uma operação realizada em outubro de 2023.
PF encontrou US$ 171,8 mil com ex-diretor da Abin
O principal elemento que despertou a atenção dos investigadores foi a semelhança entre o valor registrado no celular do advogado e o dinheiro apreendido anteriormente com Fortunato.
Em outubro de 2023, durante uma operação autorizada pelo STF, agentes federais encontraram US$ 171,8 mil em espécie com o ex-dirigente da Abin.
A diferença entre os valores é de US$ 8,2 mil. Para a Polícia Federal, a proximidade das quantias justifica o aprofundamento das investigações, embora ainda não exista comprovação de que os dois episódios estejam relacionados.
“O montante chama a atenção por sua proximidade com o valor de US$ 180 mil registrado nas anotações de Willer”, afirmou a corporação no pedido de abertura do inquérito.
Os investigadores também ressaltaram que a coincidência dos valores não é suficiente para demonstrar a existência de uma transação financeira.
“Embora a proximidade entre os valores não permita, isoladamente, estabelecer relação entre os fatos, a anotação de US$ 180 mil vinculada a Paulo Maurício e a apreensão posterior de aproximadamente US$ 171,8 mil constituem elemento de interesse para aprofundamento, especialmente diante da menção expressa ao servidor no material armazenado por Willer.”
Advogado nega pagamento e diz que não conhece Fortunato
A defesa de Willer Tomaz contesta qualquer relação financeira entre o advogado e o ex-diretor da Abin.
Segundo sua assessoria, a anotação encontrada no celular não se refere a um pagamento, mas a uma consulta jurídica recebida pelo escritório em fevereiro de 2024, depois da operação que resultou na apreensão dos dólares.
O advogado afirma que foi procurado para avaliar a possibilidade de representar Fortunato, mas decidiu não assumir o caso.
“A anotação foi feita em fevereiro de 2024, meses depois da busca realizada em 2023, e registra apenas o resumo de um caso apresentado ao escritório para avaliação: o histórico funcional do interessado e o procedimento de corregedoria a que ele respondia. O advogado não aceitou a causa, não conhece Paulo Maurício Fortunato”, afirmou Willer.
Em outra manifestação, a defesa rejeitou a hipótese de movimentação financeira entre os dois.
“Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a Paulo Maurício Fortunato ou a pessoas ou empresas ligadas a ele. Transformar o resumo de uma consulta não aceita em suspeita é desconhecer o exercício elementar da advocacia.”
A defesa de Fortunato também negou qualquer vínculo com o advogado e com Flávio Bolsonaro.
“Dr. Paulo Maurício Fortunato Pinto jamais teve qualquer relação pessoal ou profissional com o advogado Willer Tomaz; o dr. Paulo Maurício Fortunato Pinto não conhece o senador Flávio Bolsonaro e jamais teve qualquer relação pessoal ou profissional com o mesmo”, declarou o advogado Oscar Luis de Morais.
Ex-dirigente foi indiciado no caso da Abin paralela
Paulo Maurício Fortunato ocupou a diretoria de operações da Abin durante o governo Jair Bolsonaro, quando a agência era comandada por Alexandre Ramagem.
No início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fortunato passou a exercer a função de secretário de Planejamento e Gestão da agência, considerada o terceiro posto mais importante da estrutura administrativa.
Em outubro de 2023, ele foi afastado do cargo por determinação de Alexandre de Moraes, durante a operação que resultou na apreensão dos US$ 171,8 mil.
Em junho de 2025, a Polícia Federal indiciou Fortunato por suspeitas de organização criminosa e violação de sigilo funcional na investigação conhecida como Abin paralela.
A apuração examinou o suposto uso da estrutura de inteligência do governo federal para monitorar ilegalmente autoridades e adversários políticos de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022.
Posteriormente, o inquérito foi encaminhado pelo STF à primeira instância, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Investigação também envolve Flávio Bolsonaro, Castro e Ramagem
A apuração sobre Willer Tomaz surgiu como desdobramento de investigações relacionadas ao mercado de apostas eletrônicas, conhecido como setor de bets, e a movimentações financeiras consideradas suspeitas pelas autoridades.
O advogado também é investigado em procedimentos relacionados às fraudes em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Com o surgimento de informações envolvendo Flávio Bolsonaro, o inquérito sobre suspeitas de lavagem de dinheiro foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.
Além do senador e de Willer Tomaz, a investigação alcança o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem.
Procurada pela reportagem da Folha, a assessoria de campanha de Flávio Bolsonaro não havia apresentado manifestação até a publicação.







Deixe um comentário