A possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial provoca apreensão entre integrantes do Ministério das Relações Exteriores. Além do receio de uma reformulação ideológica no Itamaraty, diplomatas temem que o senador retome uma promessa feita pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro: transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.
A mudança, considerada politicamente sensível, representaria uma alteração significativa na posição diplomática brasileira sobre o conflito entre israelenses e palestinos. O tema é acompanhado com preocupação por integrantes da carreira diplomática, que avaliam os possíveis impactos da decisão sobre as relações internacionais do Brasil.
Entre os receios estão uma eventual substituição de quadros por critérios políticos, mudanças nas prioridades da política externa e a retomada de propostas defendidas pela ala ideológica do bolsonarismo.
Promessa de Jair Bolsonaro voltou ao centro das preocupações
A transferência da embaixada brasileira para Jerusalém foi anunciada por Jair Bolsonaro ainda em 2018, antes de assumir a Presidência da República.
Na ocasião, o então presidente eleito pretendia seguir o exemplo dos Estados Unidos, que haviam transferido sua representação diplomática para Jerusalém durante o primeiro governo de Donald Trump.
A iniciativa, entretanto, não foi concretizada.
Após assumir o governo, Bolsonaro recuou da decisão e optou pela instalação de um escritório comercial brasileiro em Jerusalém, sem conceder à unidade o status de embaixada.
A inauguração contou com a presença de Eduardo Bolsonaro, que mantém relações políticas com setores conservadores internacionais e chegou a ser defendido pela ala ideológica como possível ministro das Relações Exteriores em um eventual governo de Flávio.
O senador, porém, descartou essa possibilidade durante entrevista à TV Globo.
Apesar disso, diplomatas consideram que uma eventual vitória do candidato do PL poderia recolocar a transferência da embaixada na agenda do governo brasileiro.
Mudança poderia provocar reação internacional
A localização das embaixadas em Israel é uma questão diplomática delicada devido à disputa pelo status de Jerusalém.
Israel considera a cidade sua capital, enquanto os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestino.
O município também possui importância religiosa para cristãos, judeus e muçulmanos, o que amplia sua relevância política e simbólica.
Uma decisão brasileira de transferir a embaixada seria interpretada como reconhecimento de Jerusalém como capital israelense, com possíveis repercussões nas relações do país com governos árabes e com a diplomacia palestina.
Nos bastidores do Itamaraty, a avaliação é de que a iniciativa poderia gerar tensões internacionais sem oferecer benefícios proporcionais ao Brasil.
Um embaixador ouvido sob reserva resumiu a preocupação:
“É uma provocação desnecessária.”
O temor é que a decisão represente uma ruptura com a tradição diplomática brasileira de defender uma solução negociada para o conflito, com a criação de dois Estados.
Diplomatas também receiam mudanças internas e disputas políticas
As preocupações no Ministério das Relações Exteriores não se limitam à política para o Oriente Médio.
Um diplomata do topo da carreira relata apreensão com a possibilidade de uma reorganização interna do Itamaraty caso Flávio Bolsonaro vença a eleição.
Segundo essa avaliação, as mudanças poderiam ser motivadas tanto por divergências ideológicas quanto por disputas entre grupos de diplomatas.
Há receio de que profissionais que se consideram preteridos durante o governo Lula busquem recuperar influência em uma eventual administração do PL.
O cenário alimenta especulações sobre possíveis substituições em postos estratégicos e alterações na condução da política externa brasileira.
Parte dos integrantes do Itamaraty defende que o próximo ministro das Relações Exteriores seja escolhido entre diplomatas de carreira, como forma de preservar a experiência institucional e a continuidade das relações internacionais.
Roberto Azevêdo é citado como possível chanceler
Entre os nomes mencionados nos bastidores para comandar o Itamaraty em um eventual governo Flávio Bolsonaro está Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Diplomata de carreira, Azevêdo possui experiência em negociações comerciais internacionais e participou da elaboração das propostas de comércio exterior do plano de governo de Ronaldo Caiado (PSD).
Seu nome é citado por integrantes da diplomacia como uma possibilidade para a chefia do ministério, embora não haja indicação oficial de Flávio Bolsonaro nesse sentido.
A definição do futuro comando do Itamaraty dependerá do resultado das eleições e das escolhas políticas do próximo presidente.
Por enquanto, a eventual transferência da embaixada para Jerusalém permanece no campo das preocupações e especulações diplomáticas. Não há, nas informações divulgadas, anúncio de Flávio Bolsonaro confirmando que adotaria a medida caso fosse eleito.
Ainda assim, a possibilidade de retomada de uma das promessas mais controversas da política externa de Jair Bolsonaro já mobiliza discussões nos bastidores do Ministério das Relações Exteriores.







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