PF alerta para risco de contaminação do Rio Paraíba do Sul por rejeitos da CSN em Volta Redonda

Relatório aponta risco de “catástrofe ambiental” caso haja inundação nas pilhas de escória próximas ao manancial que abastece o Rio de Janeiro; CSN nega perigo e afirma que material não é tóxico.

Um relatório da Polícia Federal (PF) aponta que o acúmulo de rejeitos industriais pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) coloca o Rio Paraíba do Sul sob risco de contaminação. O documento integra o processo em que a empresa foi indiciada e denunciada por crimes ambientais, após oito anos de investigação.

Segundo o laudo, uma eventual inundação nas pilhas de escórias poderia causar uma “catástrofe ambiental”. O material está armazenado a cerca de 60 metros do principal manancial de água potável do Estado do Rio de Janeiro, que abastece o sistema Guandu, responsável pelo fornecimento de água à Região Metropolitana.

“O potencial danoso às populações dos bairros marginais e aos cursos hídricos é notório, porém o mais assustador é a chance de atingimento das pilhas de escória por uma inundação, acontecimento que representaria uma catástrofe ambiental”, descreve o relatório.

A PF também alerta para impactos na fauna aquática e no abastecimento de água, destacando que uma contaminação do Paraíba do Sul afetaria diretamente o consumo humano e o ecossistema da região.

Solo e lençol freático sob risco

Outro ponto de preocupação é o escoamento da água da chuva, que passa pelas pilhas de escória e infiltra no solo. A perícia aponta pH alcalino e alta condutividade elétrica no lençol freático, indicando a presença de poluentes. Segundo o relatório, o solo da área não foi impermeabilizado, o que configura descumprimento das normas ambientais e da licença de operação.

Poluição do ar e dispersão de partículas

Além do risco de contaminação da água, a PF cita o vento como vetor de poluição. As pilhas de escória chegam a 30 metros de altura, o que permite a dispersão de partículas para áreas vizinhas.

De acordo com o delegado Felipe Covre, responsável pelo inquérito, não há sistema eficiente de controle de emissões no local. “Essas partículas são aspiradas por moradores, trabalhadores e animais, afetando também a flora, a atmosfera e os corpos hídricos”, afirmou.

A perícia destacou que a licença de operação exigia a umidificação constante das pilhas para evitar a dispersão de poeira — o que, segundo o relatório, não vem sendo cumprido.

“Essas partículas causam irritação nos olhos e nas vias aéreas, além de poluírem bens e propriedades. Por si só, já é suficiente para caracterizar o crime de poluição”, afirmou Covre.

O que dizem o Inea e a CSN

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que a licença concedida não abrange a estocagem de escórias, que ocorre desde antes das normas ambientais atuais. O órgão afirmou ainda que exige medidas de controle de poeira, como o uso de polímero verde sobre as pilhas, e que vistorias técnicas não constataram risco de desabamento.

Já a CSN afirmou, em nota, que o local não é um aterro, mas sim um pátio de beneficiamento de coprodutos siderúrgicos. A empresa declarou que o material não é perigoso nem tóxico, e que não há risco de contaminação do Rio Paraíba do Sul.

Segundo a companhia, o agregado siderúrgico é reaproveitado em obras de infraestrutura, pavimentação e agricultura, e há um acordo em negociação para reduzir as pilhas de escória nos próximos anos.

A CSN também criticou a denúncia, afirmando que o único laudo presente no inquérito foi elaborado sem a participação de engenheiros, e que mantém diálogo com o Ministério Público e órgãos ambientais para buscar “soluções consensuais, justas e equilibradas”.

“A CSN reafirma seu compromisso com a legislação ambiental, a sustentabilidade e a transparência, e manterá diálogo permanente com autoridades e sociedade”, concluiu a empresa.

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