Pesquisa Quaest revela que 62% dos brasileiros condenam fuga de Flávio Bolsonaro e expõe racha na direita

Levantamento mostra que maioria vê tentativa de escapar da Justiça após derrota para Lula; reação do senador divide até eleitores conservadores e abre espaço para novas lideranças da oposição

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A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, após a derrota na eleição presidencial, é reprovada por 62% dos brasileiros. É o que revela uma pesquisa inédita da Quaest, intitulada “O Brasil depois das urnas”. O levantamento também aponta que a decisão de deixar o país e a postura de contestar o resultado das eleições provocaram divisões dentro da própria direita, colocando em dúvida a capacidade do filho de Jair Bolsonaro de liderar a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As informações são do jornal O Globo, que teve acesso ao levantamento. De acordo com a pesquisa, apenas 29% dos entrevistados consideram correta a decisão de Flávio de viajar para os Estados Unidos cerca de 48 horas depois de perder o segundo turno. A rejeição é acompanhada por outra percepção desfavorável ao senador: 56% acreditam que ele deixou o Brasil para fugir da Justiça, enquanto 35% avaliam que a viagem foi motivada pela necessidade de se proteger de uma suposta perseguição política.

A avaliação ocorre em meio a investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) e envolvem o Banco Master e o advogado Willer Tomaz, amigo do parlamentar. Os procedimentos apuram suspeitas relacionadas a movimentações financeiras e possíveis irregularidades.

Direita se divide sobre fuga e perseguição política

Um dos resultados mais significativos da pesquisa aparece entre os brasileiros que se identificam com a direita, mas não se consideram bolsonaristas. Nesse segmento, 46% aprovam a saída de Flávio do país, enquanto 45% condenam a decisão, configurando um empate técnico dentro da margem de erro.

A divisão também aparece quando os entrevistados são questionados sobre os motivos da viagem. Entre os integrantes da direita não bolsonarista, 42% acreditam que o senador pretende escapar da Justiça, enquanto 51% entendem que ele busca proteção contra uma perseguição política.

Para o diretor da Quaest, o cientista político Felipe Nunes, os números revelam uma fragmentação de um campo político que, durante a disputa presidencial, permaneceu unido principalmente pela rejeição ao PT.

“Essa divisão é um sinal importante de que há espaço para diálogo democrático com essa direita que não tolera questionamento ao resultado, que não compra a tese da perseguição e que não acha que sair do país foi a estratégia correta para quem deveria liderar a oposição”, afirma.

O pesquisador também aponta consequências para a disputa pelo comando da oposição nacional. “Ao dividir a direita, Flávio abre espaço para que outras lideranças tomem a frente na condução da oposição nacional”, acrescenta.

Investigações no STF pesam na avaliação dos brasileiros

A percepção de que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil para evitar problemas judiciais ocorre em meio a investigações envolvendo o senador e pessoas próximas a ele.

Uma das apurações está relacionada ao Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro. Nesse caso, investigadores buscam esclarecer o destino de R$ 134 milhões que teriam sido solicitados por Flávio ao banqueiro para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, intitulada “Dark horse”.

Outra investigação envolve o advogado Willer Tomaz, apontado como amigo do senador. O procedimento examina suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de empresas ligadas ao advogado. Os casos integram o contexto político e judicial que cerca a saída de Flávio do país.

Rejeição ao resultado das urnas também enfrenta resistência

A contestação da vitória de Lula é outro ponto de desgaste para Flávio Bolsonaro. Segundo a Quaest, 59% dos brasileiros rejeitam a postura do senador de questionar o resultado do segundo turno, enquanto 34% apoiam essa reação.

O percentual de apoio é idêntico ao registrado em 2022, quando Jair Bolsonaro também contestou o resultado da eleição presidencial após ser derrotado por Lula.

Entre os próprios eleitores que votaram em Flávio no segundo turno de 2026, 21% discordam da decisão de não reconhecer o resultado. Além disso, 24% consideram que o senador se comportou mal depois da derrota.

Na avaliação de Felipe Nunes, os números demonstram que o bolsonarismo mantém uma base fiel, mas enfrenta dificuldades para ampliar sua influência sobre o restante do eleitorado.

“A pesquisa não indica que o bolsonarismo desapareceu com a derrota. Há um terço que ainda parece muito aderente às ideias e às narrativas. Mas esse movimento parece cada vez mais minoritário e com dificuldade de alcançar maiorias vitoriosas a curto prazo”, pondera.

Outro indicador reforça a permanência de um núcleo de eleitores que desconfia do processo eleitoral. Atualmente, 30% dos brasileiros acreditam que houve fraude na eleição presidencial, percentual praticamente igual aos 29% registrados quatro anos antes.

Entre os eleitores de Flávio, 64% compartilham essa percepção, enquanto 28% reconhecem que a disputa ocorreu de maneira limpa e justa.

Flávio tem avaliação pior que Jair Bolsonaro após derrotas

A pesquisa também comparou a reação dos brasileiros ao comportamento de Jair Bolsonaro depois da derrota presidencial de 2022 com a avaliação sobre as atitudes de Flávio em 2026. Os resultados indicam que o ex-presidente conseguiu preservar uma parcela maior de apoio mesmo após perder a eleição.

Em 2022, 41% dos entrevistados consideravam que Jair Bolsonaro havia se comportado bem diante da derrota, enquanto 45% avaliavam negativamente suas atitudes. Quatro anos depois, o desempenho do filho é significativamente pior. Apenas 25% aprovam o comportamento de Flávio após perder para Lula, enquanto 60% desaprovam suas ações.

A diferença sugere que o senador encontra mais dificuldades para manter a coesão do eleitorado conservador e mobilizar apoiadores em torno de sua liderança.

Os resultados também evidenciam o desafio de transformar o apoio recebido nas urnas em respaldo político duradouro. Parte dos eleitores que escolheram Flávio para enfrentar Lula não concorda com suas atitudes depois da eleição.

Vitória de Lula provoca alegria, alívio, decepção e revolta

Além de investigar a reação à fuga de Flávio Bolsonaro, a Quaest procurou identificar os sentimentos despertados pela reeleição de Lula entre diferentes segmentos do eleitorado.

Entre os lulistas, a alegria aparece como sentimento predominante, mencionada por 40% dos entrevistados. Já entre os eleitores de esquerda que não se identificam diretamente com o presidente, o alívio lidera as respostas, com 34%, seguido pela alegria, com 32%.

O cenário é diferente entre os conservadores. Na direita não bolsonarista, a decepção é o sentimento mais citado, com 27%. Entre os bolsonaristas, prevalece a revolta, mencionada por 26%. Os eleitores independentes apresentam reações mais dispersas, sem que nenhum sentimento ultrapasse 20% das respostas.

Para Felipe Nunes, essas diferenças ajudam a explicar tanto a permanência da polarização quanto as possibilidades de reorganização política depois da eleição.

“Os lulistas conseguiram uma vitória épica. A esquerda, que mais tinha medo da volta do bolsonarismo ao poder, ficou aliviada e contente. O bolsonarismo, derrotado pela segunda vez, sai revoltado com o resultado. A direita, que nunca se empolgou com Flávio e sempre preferiu Tarcísio de Freitas como opção, sai decepcionada. Os independentes, pendulares que são, têm sentimentos difusos”, analisa.

A pesquisa Quaest ouviu 2.004 eleitores entre 30 de outubro e 2 de novembro de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

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